Euler de França Belém
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Imprensa não excede na cobertura crítica do governo mas Bolsonaro excede como presidente

Presidente mostra escasso conhecimento dos propósitos de seu governo e frequentemente afirma uma coisa e é desmentido por sua equipe

Leitores perguntam se a imprensa excede na cobertura do governo de Jair Bolsonaro. Na verdade, não excede. A equipe do presidente e o próprio chefe do Executivo são mestres em produzir assuntos que se transformam em notícias negativas. Mas não é a imprensa que produz tais notícias, tão-somente recolhe-as e as publica.

Jair Bolsonaro: o presidente às vezes tem de ser corrigido por seus auxiliares, como o ministro da Economia, Paulo Guedes (à esquerda) | Foto: Reprodução

Pelo que diz nas redes sociais ou em entrevistas, Jair Bolsonaro não é do tipo de presidente assessorável. Ele diz o que quer e como quer. Comporta-se, por vezes, como militante político, e não como presidente da República. Os auxiliares do ramo de comunicação e marketing devem ficar “loucos” com seus abusos verbais — que, se agradam muitos durante campanhas eleitorais, dada a tradição de destempero da política patropi, desagradam na boca do principal gestor público do país. Para piorar, o presidente demonstra escasso conhecimento dos propósitos de seu governo, parece confuso e frequentemente afirma uma coisa e é desmentido por sua equipe.

Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz: a situação da dupla parece cada dia mais complicada | Foto: Reprodução

O presidente deve ser, e em geral é, o principal diplomata de um país — no sentido de que, tendo sido eleito, representa todo o povo, e não apenas os nichos que contribuíram para sua eleição. Com quase cinco meses de governo, Bolsonaro parece que permanece pregando para os convertidos — como se estivesse em campanha eleitoral, e não governando o Brasil, um dos países mais ricos do mundo.

Políticos que se arvoram “puros” — espécies de escolhidos —, quando algum de seus aliados é pego cometendo um deslize, começam a criar teorias da conspiração, quase sempre culpando a imprensa de exagerar os fatos. A imprensa não cobre o caso Flávio Bolsonaro-Fabrício com Queiroz com o objetivo de atingir — ou “pegar” — o presidente. No entanto, ao fazer a defesa do filho — que terá de prestar esclarecimentos mais precisos à Justiça —, Bolsonaro sugere que é vítima de uma conspiração, esquecendo-se de que, como presidente, tem de gerir o país e não ficar, a todo momento, defendendo sua prole.

Ao vasculhar o governo de Bolsonaro e ao publicar reportagens sobre o senador Flávio Bolsonaro-Fabrício Queiroz, a imprensa mostra que sabe fazer jornalismo e respeita suas regras básicas. Por isso, respondendo aos leitores, é possível dizer que a imprensa não excede. Quanto à dupla Flávio Bolsonaro-Fabrício Queiroz — que não deveria ser um assunto de Estado, mas é assim tratado pelo presidente —, o governo (o presidente comporta-se como se fosse o governo), sim, excede na sua defesa. Mas pelo menos não há, até agora, informação de que Bolsonaro sênior esteja tentando usar as estruturas do Estado para proteger o filho.

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