Leitores, de direita e de esquerda, me perguntam se a imprensa cobriu com “presteza” e “isenção” as eleições presidenciais de 2026. Não é fácil apresentar uma resposta ampla e objetiva, porque demandaria uma pesquisa detida, o que exige mais tempo.

Agora não há apenas os jornais e revistas tradicionais, como “Estadão”, “O Globo”, “Folha de S. Paulo”, Jornal Opção, Correio Braziliense, “O Popular”, “Gazeta do Povo”, “Veja”, “CartaCapital”, “Zero Hora” etc.

Quem é de esquerda precisa ler o que a direita diz e quem é de direita precisa verificar o que a esquerda formula. Leitores independentes, examinando 2 caminhos, nem precisam escolher um, mas ganharão nuances a respeito dos fatos

Há novos veículos com prestígio e repercussão nacional, às vezes. Há a “Revista Oeste”, o Metrópoles, a Revista Fórum, O Antagonista, o Brasil247, o ICL, o Diário do Centro do Mundo (DCM), Intercept Brasil, entre outros.

Alan Gripp: diretor de redação do jornal “O Globo” | Foto: Reprodução

“Revista Fórum”, Brasil247, ICL, DCM e Intercept Brasil figuram no espectro de esquerda. Os cinco se comportaram como “militantes”, mas sem, por vezes, perder a objetividade. Serviram de contraponto aos jornais mais “agressivos” — ou críticos, dependendo da ótica — com o presidente Lula da Silva, do PT, e seu governo.

A “piauí” (com p minúsculo) saiu do armário, por assim dizer, e radicalizou-se pró-Lula da Silva. Tornou-se uma revista de combate ao senador Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, empresários de direita e outros parças. Com a vantagem de fazer um jornalismo investigativo de matiz amplo, e sempre respeitando o contraditório, ainda que não em larga medida. Até porque o “outro lado” às vezes não quer se pronunciar, ao menos não de maneira extensa, para não se comprometer ainda mais.

Em momentos conflagrados, quando se perde a calma, o distanciamento e o equilibro, quem está do nosso lado nada vale. O petismo partiu para cima de Malu Gaspar, mas a repórter de O Globo estava apenas fazendo o seu trabalho

No campo específico da direita, três veículos se destacaram: a “Revista Oeste”, a “Gazeta do Povo” e O Antagonista (que, a rigor, não é bolsonarista, mas é anti-lulista e anti-PT).

eurípedes Alcântara foto reprodução
Eurípedes Alcântara: diretor de redação de “O Estado de S. Paulo” | Foto: Reprodução

É importante que, se há militância jornalística de esquerda, se tenha também militância jornalística de direita. Os leitores ganham ou perdem? Ganham, porque passam a ter mais acesso ao contraditório. Afinal, quem é de esquerda precisa ler o que a direita diz e quem é de direita precisa verificar o que a esquerda formula. Os leitores “independentes”, examinando os dois caminhos, nem precisam escolher um deles, mas ganharão, por certo, nuances a respeito dos fatos.

O jornalismo partidarizado sempre teve lugar na sociedade e não há nenhum problema. Porque é importante quando as ideias são formuladas de maneira precisa, sem que se esconda posicionamentos por meio de uma linguagem cifrada ou ambígua. Li textos de qualidade na “Revista Oeste” — onde pontificam Augusto Nunes e sua filha, Branca Nunes —, no ICL e na “Revista Fórum”.

Publicar “escândalos” jornalísticos, desde que verdadeiros, é positivo. Porque retira um pouco da pureza e do moralismo de jornais, revistas e emissoras de televisão. A batalha campal do Metrópoles com o Estadão é instrutiva

Não é preciso concordar com a “Revista Oeste” e o ICL. Mas é importante lê-los. É valioso saber o que pensam os jornalistas — mais precisamente, ideólogos — da esquerda e da direita.

Sérgio Dávila: diretor de redação do jornal “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

É provável que, algumas vezes, os jornais e revistas engajados “distorçam” os fatos? Por vezes, sim. O que ocorre, com mais frequência, é que se “força” os fatos de maneira ideológica.

No campo da militância jornalística, a “piauí” adota critérios rigorosos de apuração. Mas a revista está claramente engajada na campanha pró-Lula da Silva e anti-Flávio Bolsonaro.

O que dizer do centenário “O Estado de S. Paulo”, conhecido apenas como “Estadão”? Num primeiro momento, partiu com tudo para cima de Lula da Silva — desancando-o e ao seu governo com a velha fúria de outros tempos (fica-se com a impressão de que houve um retorno ao moralismo udenista).

Entretanto, aos poucos, o “Estadão” redistribuiu sua fúria — de um moralismo típico ao da UDN de Carlos Lacerda e outros. Flávio Bolsonaro passou a ser criticado duramente. Não estaria preparado para governar o país.

Lilian Tahan: diretora de redação do portal Metrópoles | Foto: Reprodução

No jornalismo em si — na reportagem —, o “Estadão” cobre bem os fatos, dando informações precisas, o que resulta de seu jornalismo competente, cujo forte é a apuração ampla e objetiva. No quesito opinião, o jornal é mais anti-esquerda. É um jornal, nos editoriais e artigos, bem pró-mercado, liberal.

A “Folha de S. Paulo” é menos conservadora e mais aberta à divergência, nos seus espaços de opinião, do que o “Estadão”. Seu jornalismo — a reportagem — permanece de qualidade. Mas, quanto à opinião, o jornal parece ter perdido a embocadura. Falta mais substância — e até pegada — na sua análise política. E logo na “Folha”, que ficou conhecida pelo “excesso” de opinião. A morte de Otavinho Frias Filho não fez bem ao jornal, que parece não ter a “alma”. A ousadia ficou no passado. A “Folha” se tornou comportada.

“O Globo”, no caso do Banco Master/Daniel Vorcaro, deitou e rolou em cima da concorrência. Saiu-se bem melhor, com um jornalismo investigativo apurado, meticuloso e ousado. A esquerda e a direita usam suas informações, mas, a rigor, nenhuma das duas parece apreciar aquilo que é publicado. A direita usa o que lhe interessa, assim como a esquerda.

Eduardo Moreira controlador do ICL Foto ICL 867 p1300
Eduardo Moreira: diretor do portal ICL | Foto: ICL

O fato é que “O Globo” apura bem. A repórter Malu Gaspar, para citar um exemplo, não agrada à direita e à esquerda. O que prova a vitalidade daquilo que publica.

Em momentos conflagrados, quando se perde a calma, o distanciamento e o equilibro, quem está do nosso lado nada vale. O petismo partiu para cima de Malu Gaspar, mas a repórter estava apenas fazendo o seu trabalho.

Entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro a opção é civilização, o primeiro, e barbárie, o segundo. Quem nunca viveu sob uma ditadura talvez não tenha noção de quem são realmente os Bolsonaros. Porém, mesmo sabendo disso, Malu Gaspar tem se comportado como repórter — doa a quem doer. Daí o desagrado maior da esquerda.

A turma de pelintras de Daniel Vorcaro ameaçou bater no repórter Lauro Jardim, de “O Globo”. Porque ele, assim como Malu Gaspar, não se submeteu às pressões do banqueiro que corrompeu a República, parte do jornalismo e o mercado financeiro.

Renato Rovai é diretor da Revista Fórum Foto Leonardo Attuch
Renato Rovai: editor da Revista Fórum | Foto: Leonardo Attuch

A TV Globo se “tornou”, como quer esquerda, bolsonarista? Qualquer checagem básica indica que não. A Globo e a GloboNews têm feito um jornalismo objetivo. O que desagrada os dois lados da moeda político-ideológica.

Seguindo orientação da editora e diretora responsável, Patrícia Moraes, o Jornal Opção se mantém aberto às ideias divergentes. O que ela cobra, com razão, é equilíbrio. Veja-se um caso exemplar: os colaboradores Halley Margon e Irapuan Costa Junior — pró-Lula da Silva e pró-Flávio Bolsonaro, respectivamente — escrevem exatamente o que querem e seus textos não recebem nenhum corte.

A revista “Veja” deixa a impressão de que engajou-se na campanha de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, seu jornalismo permanece de qualidade, com matização das opiniões.

Nesta eleição, para além do conflito entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, assiste-se a brigas entre jornais.

Branca Nunes editora da Revista Oeste Foto Reprodução
Branca Nunes: editora da Revista Oeste | Foto: Reprodução

O portal Metrópoles — do ex-senador Luiz Estevão — teria recebido vários milhões (não se sabe exatamente quanto — fala-se em 20 milhões e 52 milhões de reais) de Daniel Vorcaro & Banco Master. Para se defender, atacou tanto a “Folha de S. Paulo” (recebeu pouco mais de 500 mil reais do Banco Master) quanto o “Estadão” (teria recebido algum dinheiro, mas não uma fortuna, como sugere o portal adversário).

O Metrópoles (por sinal, muito bem feito) publicou denúncias contra o banco Itaú, uma sociedade das famílias Setúbal e Moreira Salles. O motivo é que a “piauí” estaria investigando os negócios e a trajetória de Luiz Estevão. A revista é dirigida por João Moreira Salles, um dos sócios do Itaú, ao lado dos irmãos Pedro, Walter e Fernando Moreira Salles (também de uma grande mineradora).

Publicar “escândalos” jornalísticos, desde que verdadeiros, é positivo. Porque retira um pouco da pureza e do moralismo de jornais, revistas e emissoras de televisão.

Influenciadores digitais — alguns deles se tornaram ricos — chafurdaram na lama gerada pelo Banco Master & Daniel Vorcaro. Ficaram desmoralizados? Não parece. Porque continuam no mercado e com audiência alta.

O fato é que, apesar dos percalços, a imprensa não cobriu mal a eleição presidencial de 2026. Cobriu de maneira intensa — tanto na reportagem quanto na opinião. Os (e)leitores — ao menos parte substancial — são maduros o suficiente para saber quando se está sendo objetivo ou não.

Últimas palavras: jornalistas tendem a perceber apenas um tipo de corrupção — a financeira. Mas não a corrupção moral — que é mais ampla do que costuma postular a vã filosofia de repórteres e editores.