Euler de França Belém
Euler de França Belém

Imprensa atua como cabo eleitoral indireto de Bolsonaro?

Exposto o tempo todo, quase sempre como vilão, o presidente certamente entusiasma parte do público. É o político que enfrenta a “mídia”

Ao fazer a crítica do governo do presidente Jair Bolsonaro, político de vocação autoritária e um gestor sem visão de Estado, a imprensa cumpre o papel que lhe é conferido pela sociedade.

Mesmo sob pressão de Bolsonaro, que ameaça cortar verbas públicas — e não pessoais —, a imprensa (ou a mídia) esmera-se na crítica, às vezes contundente e sempre responsável.

Porém, se a imprensa está atenta, se a crítica é cotidiana, por que, no lugar de ficar para trás, Bolsonaro está se aproximando de Lula da Silva, pré-candidato do PT a presidente da República, nas pesquisas de intenção de voto?

A recuperação de parte da popularidade significa que as críticas da imprensa afetam mas não muito Bolsonaro? É possível.

Há um aspecto a considerar: se a imprensa mantém Bolsonaro no centro do palco — abrindo pouco espaço para pautas “alternativas”, e inclusive para os demais pré-candidatos a presidente —, sempre criticado com aspereza, e sua popularidade permanece relativamente elevada, o que provocou mudanças na pré-campanha do PT, significa que se está dando um tiro no pé?

Não se trata de retirar Bolsonaro no palco, afinal se trata de um presidente da República, e sim de colocar outras autoridades no mesmo lugar, e com igual destaque. Por exemplo: há governadores fazendo gestões modernas? Se há, por que não mostrá-las? Há governantes e pessoas físicas (como Sebastião Salgado) que cuidam melhor das florestas de suas regiões? Se existem, por que não exibi-los?

O “Jornal Nacional” tem feito reportagens sobre o empobrecimento dos brasileiros. São matérias sérias, às vezes detalhadas. Este Brasil meio invisível precisa mesmo ser evidenciado. Porque diz mais sobre o governo de Bolsonaro do que muitos comentários “críticos” da excelente turma do “Em Pauta”, da GloboNews.

Mas seria possível mostrar que, mesmo na crise, há iniciativas sociais nos Estados, do setor público e do privado, que funcionam? Da maneira que a imprensa expõe os fatos, como se fossem uma desgraceira só, fica-se com a impressão que nada funciona no Brasil, que se vai caminhando aos trancos e barrancos rumo a um destino trágico.

Manter Bolsonaro o tempo inteiro no noticiário, no lugar de piorar sua imagem, talvez acabe por reforçar a ideia de que é “forte” e que a Globo não consegue derrubá-lo. Aliás, não só a Globo, e sim parte significativa da imprensa.

Portanto, é provável que, mesmo querendo outra coisa, a imprensa (parte dela) está se tornando cabo eleitoral indireto de Bolsonaro. Nas novelas, há vilões que entusiasmam tanto quanto os heróis. O presidente pode estar sendo transformado num vilão-herói pela mídia.

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