Herondes Cezar: a arte a serviço de doces e amargas lembranças

O crítico de cinema acabou por realizar uma obra de arte, tanto no sentido cultural do trabalho de escrita, quanto no sentido espiritual

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

O trabalho provém da manifestação cultural de um povo. É um fato. E cada povo, com sua língua e seu modus vivendi, apresenta o resultado desse trabalho das mais variadas maneiras. Mas praticamente todas as culturas buscam um só objetivo: a sobrevivência da espécie humana. Para isso fomos feitos. Vem daí a nossa busca incessante de perpetuação na face da Terra. E a certeza da morte é o que nos credencia nesse mister, sem o qual a vida não teria sentido.

E tudo isso me vem à luz em razão de um livro lido recentemente e que me causou verdadeiro impacto, por seu labor meticuloso e também por seu enunciado subliminar: as reminiscências de um homem, de um artista, narradas por ele mesmo. Trata-se de “Becape da Memória”, de Herondes Cezar, publicado em Brasília no último trimestre de 2019. Livro que, a um só tempo, haverá de provocar no leitor empatia e estranhamento, talvez pela organização interna dos temas escolhidos, talvez por sua intrínseca natureza memorialística, numa época em que poucos se debruçam sobre a própria trajetória — para narrar e descrever momentos vividos desde as primeiras tomadas de consciência até a exposição de seu olhar autocrítico, na idade provecta.

Herondes Cezar teve a percuciente percepção de sua responsabilidade e uma atrevida postura diante de suas escolhas. Acabou por realizar uma obra de arte, tanto no sentido cultural do trabalho de escrita, quanto no sentido espiritual frente à pequenez da vida de um homem… E isso enriquece muito o seu depoimento, ao ponto de elevar pequenos flashes pessoais a descrições que transcendem o cotidiano de uma aldeia como Bom Jardim dos Dias, local onde nasceu, e principalmente Piracanjuba, cidade em que viveu sua adolescência e boa parte da vida adulta.

Um fato marcante que sobressai nessa narrativa autobiográfica é a clareza e a lucidez da memória de seu autor. Herondes consegue perscrutar reações no menino que foi a partir dos dois anos de idade; como também palavras ouvidas nas conversas dos adultos à sua volta, mesmo que sem nenhuma participação efetiva, mas que lhe marcaram durante toda a sua vida. O texto está repleto de observações oriundas de uma visão aguçada também sobre as reações das pessoas diante de fatos os mais insignificantes. Mas a essas pessoas Herondes demonstra gratidão e reconhecimento, com toda a modéstia que lhe é peculiar. Exemplo de valores que o tempo, a cada dia, tem soterrado sob os nossos pés…

Nos capítulos que se referem a Goiânia, Brasília e Nova York, o autor se deteve em análises minuciosas de sua trajetória como bancário, de sua formação como pedagogo e também como professor de Português e crítico de cinema. E, nesses recortes cheios de verve e sutileza estilística, encontra-se o melhor da narrativa desse honrado filho de Goiás, porque o texto transborda sarcasmo e ironia ao buscar no reino das palavras o significado exato para cada significante. Puro trabalho artesanal de quem sabe as agruras e desafios que existem nesse nosso “áspero ofício”, no dizer de Almeida Fischer — de saudosa memória.

Herondes Cezar: critico de cinema e memorialista | Foto: Facebook

Nas páginas 175 e seguintes encontram-se alguns artigos sobre cinema, publicados anteriormente no Jornal Opção, de Goiânia, e compilados agora no fechamento deste livro de memórias, como um brinde aos méritos estilísticos de seu autor. Fiel retrato da nossa condição humana. Uma vez que são mostrados, com base nos roteiros escolhidos, todo um trabalho de fotografia, direção de arte, argumento, montagem e direção de atores.

Mas, voltando ao livro, digo mais: ali podem ser verificadas algumas pequenas omissões de certas personagens secundárias ou mesmo coadjuvantes, porque entende-se que não alteraria a qualidade da obra no seu todo, ao se constituírem apenas em pecados veniais, de somenos importância. Becape da Memória transcende a todo e qualquer esmiuçar de suas entrelinhas, por parte de quem quer que seja, e paira, com a devida contenção histórica, sobre a confissão de um homem bastante reservado e discreto.

O importante é que o propósito central do projeto foi obtido na medida exata, sem exaltação de ego. A narrativa nunca promove o autoelogio do narrador, muito menos sua autocomiseração. Basta-se a si mesma, sem exibição de vaidade ou demonstração de força ou de poder. Mas é justamente essa isenção que torna Becape da Memória uma obra de grande valor e de grande interesse, principalmente se considerarmos seu espectro mais ecumênico que local, particular.

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