Euler de França Belém
Euler de França Belém

Heraldo Pereira é retirado da GloboNews, mas o problema é o esgotamento de um modelo

O jornalista segue o padrão da TV Globo, mas a GloboNews cobra mais informalidade e um apresentador mais participante e menos robotizado

Heraldo Pereira troca a GloboNews pela Globo | Foto: Reprodução

Heraldo Pereira é um dos mais notáveis jornalistas da televisão brasileira. Na TV Globo, brilhou como repórter, apresentador do “Jornal Nacional”, aos sábados, e, em seguida, como apresentador da GloboNews. Por que se deu melhor na Globo do que na GloboNews?

O problema, a rigor, não é (de) Heraldo Pereira, e sim do modelo antigo do apresentador como mero mediador. Do estilo levanta a bola para o artilheiro (o repórter ou o comentarista) marcar o gol. No “Jornal das Dez”, a especialidade do jornalista é lançar a bola para Merval Pereira, Ana Flor e Gerson Camarotti. Enquanto os três fazem gols, tentando explicar o surrealismo do país, o apresentador se torna uma espécie de coadjuvante quase invisível. Os melhores âncoras da GloboNews são exatamente aqueles que se comportam como participantes — José Roberto Burnier, Julia Duailibi, Cesar Tralli — e, por isso, não se contentam só em passar a bola para os “atacantes”. Marcelo Cosme começou tímido, levantando a bola para os craques encantarem as torcidas, com suas análises e opiniões, mas, aos poucos, começou a expor o que pensa. Tornou-se uma figura empática e acabou por se entrosar com os colegas. Poderia, claro, ser um pouco mais “presente”, costurando e conectando de maneira mais adequada as falas dos comentaristas. O “Em Pauta” é ótimo, mas falta diversidade de opiniões e o apresentador poderia ser o elemento para expor possíveis contradições e ampliar o debate. O professor Demetrio Magnoli é um dos poucos que, às vezes, destoam dos colegas.

Aline Midlej: apresentadora da GloboNews | Foto: Reprodução

Então, embora seja um excelente jornalista, Heraldo Pereira parece deslocado no “Jornal das Dez”. A história do apresentador-carregador de piano está acabando. Mas, como dissemos, o problema não é (de) Heraldo Pereira, mas do modelo que parou no tempo. O “Jornal Nacional”, dada a concorrência dos telejornais das tevês por assinatura e a rapidez dos jornais na internet, está chegando “velho” à casa dos telespectadores. O modelo do “JN”, se não está esgotado, está se esgotando rapidamente. Por isso, a médio prazo, talvez a curto prazo, terá de ser modificado. O ledor de teleprompter de reportagens vistas em excesso durante todo o dia certamente está se tornando um ser fora do tempo. Por isso a GloboNews, com seu time de ótimos analistas — Flávia Oliveira, Natuza Nery, Merval Pereira, Eliane Cantanhêde, Mônica Waldvogel, Demetrio Magnoli, Gerson Camaroti, Jorge Pontual, Octávio Guedes, Guga Chacra (ainda que à beira de um ataque de nervos, por vezes), Ariel Palacios, Julia Duailibi, Ana Flor, Valdo Cruz —, pode ser o modelo para o futuro do “Jornal Nacional”. Não se está sugerindo que o “JN” se torne o “Em Pauta” da tevê aberta. O que está se propondo é que incorpore a análise, o debate, sem deixar de ser um veículo noticioso. Se continuar se portando como “coisa já vista” — déjà vu —, o “JN” vai perder audiência, sobretudo vai se tornar desimportante para a formação dos telespectadores. Comentaristas de política e economia deveriam ser convocados para explicar determinados assuntos que, se são apresentados, não são esclarecidos. A análise objetiva pode devolver a alma perdida ao “JN”.

Julia Duailibi: apresenta bem e comenta de maneira competente | Foto: Reprodução

Aline Midlej tem um potencial enorme e é ousada. Expõe a notícia, mas também se esforça para comentá-la, para situá-la. Posicionada, sempre alerta, tende a tornar o “Jornal das Dez” mais vibrante. Entretanto, se se tornar a Heraldo Pereira feminina, desperdiçando seu imenso talento, será mais do mesmo. Ela pode conectar as opiniões dos colegas, a partir de sua própria análise.

Heraldo Pereira vai ancorar o noticiário político do “Bom Dia Brasil”, a partir de Brasília. Muito bem-informado, com acesso privilegiado às fontes, dado seu caráter diplomático, certamente se dará bem na nova missão.

Cesar Tralli é o novo âncora no “Edição das 18h”. Por que Tralli funciona bem? Porque é um repórter de primeira linha e não um mero leitor de teleprompter. E, claro, sabe comentar. Leitores já me perguntaram sobre seu porte físico. Não vejo nada demais. Ele é elegante e, diga-se, espigado. Mas o que importa é que, como apresentador, entendeu que não deixou de ser repórter e comentarista. Reúne várias virtudes.

Cesar Tralli: reporta, apresenta e comenta | Foto: Reprodução

O “Edição das 10h”, com o nome de “Conexão GloboNews”, será apresentado por Leilane Neubarth, do Rio de Janeiro, José Roberto Burnier, de São Paulo, e Camila Bonfim, de Brasília.

A GloboNews efetivou Julia Duailibi como âncora do “Em Ponto”. Trata-se de uma apresentadora e comentarista serena e precisa. Como Flávia Oliveira, processa as informações com rapidez e as repassa aos telespectadores com simplicidade e equilíbrio.

Amazônia e o conflito entre israelenses e palestinos

Para sair do “Triângulo das Bermudas” do jornalismo — Rio, São Paulo e Brasília —, a GloboNews poderia inovar e manter um repórter-comentarista na região da Amazônia. Se é tão importante, se está merecendo tanta cobertura local — e internacional —, por que não exibi-la mais de perto?

Sobre o conflito entre israelenses e palestinos, não deixa de ser estranho que as reportagens da Globo estejam sendo feitas pela correspondente Ilze Scamparini — que mora na Itália —, possivelmente com imagens de outras redes de televisão. Dada sua experiência, a jornalista cobre de maneira correta os acontecimentos, mas falta a cor local, a presença do repórter em campo, e com imagens e histórias exclusivas. A cobertura, no momento, é burocrática (o problema não é Ilze Scamparini, mas a Globo, que, talvez para reduzir custos, não banca um repórter no Oriente Médio, nem mesmo de maneira provisória). Seria interessante colocar Marcos Losekann, que morou na região, e Demetrio Magnoli para analisar os fatos.

Leia, a seguir, a carta de Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Globo, a respeito das mudanças.

Carta de Ali Kamel sobre as mudanças

“O sucesso do jornalismo da Globo está baseado em alguns pilares comuns a tudo que fazemos. O principal é a credibilidade que construímos diariamente quando honramos nosso compromisso de noticiar com isenção os fatos, suas repercussões e desdobramentos. O público percebe e volta sempre, o que não confere uma liderança em todas as plataformas em que atuamos. Telejornais na TV aberta, GloboNews e G1, todos os líderes de audiência.

“Além da credibilidade, outro valor que não abandonamos é a capacidade de estar em constante transformação, muitas vezes em decorrência de nossos próprios profissionais, inquietos. E é neste espírito que anuncio algumas mudanças para entrar em vigor nas próximas semanas.

“Heraldo Pereira, que há quase quatro anos apresenta, com brilhantismo, o Jornal das Dez, na GloboNews, passará a ancorar o noticiário de política do Bom Dia Brasil direto de Brasília. Antes de assumir o J10, Heraldo passou pelo Jornal Nacional, tanto na reportagem quanto na apresentação aos sábados, cobriu a Copa do Mundo da África do Sul e foi comentarista no Jornal da Globo, onde se destacou por trazer no fim da noite sempre um aspecto novo da principal notícia do dia. Como repórter, ao longo de quase quarenta anos, cobriu em Brasília todos os eventos que marcaram a nossa História recente. Agora leva essa bagagem para o Bom dia Brasil.

Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da TV Globo | Foto: Reprodução

“Giuliana Morrone troca o Bom dia Brasil, onde está há oito anos, pelo Jornal da Globo. De Brasília, ela também fará participações no Jornal das Dez, da GloboNews, dando furos e reportando os bastidores do dia. Com sua experiência, que soma mais de quatro anos como correspondente em Nova York, com coberturas marcantes como a eleição de Barak Obama, a morte de Michael Jackson, a destruição provocada pelo Furacão Sandy, Giuliana vai acompanhar os fatos políticos mais marcantes do dia reforçando a equipe do JG em Brasília.

“O Jornal das Dez passa a ser apresentado, do Rio, por Aline Midlej. Aline chegou à Globonews há cinco anos para ancorar a Edição das 10 da manhã e nesse período consolidou uma audiência do canal no horário. Trouxe na bagagem um Prêmio Vladimir Herzog na categoria reportagem de TV. E por aqui mostrado grande versatilidade à frente de um jornal sempre quente, aplicação enquanto os fatos ainda estão se desenrolando, mostrando incrível agilidade para transitar por uma larga gama de assuntos.

“Também teremos novidades no início dos dias na GloboNews: o Edição das 10h mantém o tempo de produção (das 9h às 13h), mas ganha nome novo (“Conexão GloboNews”) e um elenco de muita experiência: juntos, no novo jornal, está na apresentação Leilane Neubarth (Rio de Janeiro) e José Roberto Burnier (São Paulo) – os dois voltando de home office, depois de se vacinarem – e Camila Bonfim (Brasília). Leilane tem uma história rica na Globo, seja em campo, como no rali Granada-Dakar ou na Faixa de Gaza, onde entrevistou um dos líderes do Hammas, seja nas bancadas do BDBR, JG ou Edição das 18h. Burnier, apresentador do Em Ponto desde a criação, é um repórter acostumado às grandes histórias. Para ficar em um exemplo, mesmo saindo de São Paulo, foi o primeiro repórter a entrar na boate Kiss, em Santa Maria, após a tragédia que fez 242 matada em 2013. Camila Bomfim está na Globo desde 2006, sempre em Brasília, e tem uma coleção de furos como poucos repórteres da capital. São, enfim, três craques do jornalismo brasileiro, que vão juntos agitar as manhãs — com muita informação ao vivo, notícia exclusiva, informa inéditas, entrosamento e simpatia.

“Difícil mencionar um assunto que não tenha sido coberto por Cesar Tralli. Repórter investigativo, correspondente internacional, âncora. Partindo de Londres, cobriu o assassinato de Yitzhak Rabin, o acidente que matou a princesa Diana, os dez anos da tragédia de Chernobyl. Como repórter investigativo, destacou-se na cobertura do assassinato de Celso Daniel, na prisão do juiz Nicolau dos Santos Neto e no desvendamento de uma fraude gigante de adulteração de tarifas, objeto de uma série de reportagens especiais no JN. É um companheiro do almoço dos paulistanos desde 2011, quando assumiu uma apresentação do SP1. E vem há pouco mais de um ano ancorando também na Edição das 18h, da Globonews. Tralli agora será efetivado na Edição das 18h, mas sem deixar enorme audiência do SP1.

“No Em Ponto, será efetivada Julia Dualibi como âncora. Com ela continua, nos comentários, o parceiro já de muito tempo, Octavio Guedes. É uma escolha natural. Julia está conosco desde 2018, depois de passagens por Band, Folha de S. Paulo, Veja, Estadão e Piauí. Com essa bagagem, se adapta e aprimora o jornalismo das manhãs da GloboNews. Assistir a Julia no Em Ponto é hoje a melhor forma de começar o dia bem informado. Não há nada de relevante para acontecer no país que está fora do radar dela, sempre unindo análise e informação.

“Boa sorte a todos!”

6 respostas para “Heraldo Pereira é retirado da GloboNews, mas o problema é o esgotamento de um modelo”

  1. Avatar JOSÉ LUIZ DA SILVA disse:

    Por que não inserir notícias da Região Nordeste?

  2. Avatar Lisiane de Lemos disse:

    Assisto direto a Globo News, e, realmente, o Heraldo destoa dos demais apresentadores. Como dito acima, a função dele é “passar a bola” para os comentaristas. E isso, nos modelos dos programas do canal, não se sustenta. Que venha outro(a) mais atualizada com os padrões do telejornalismo da Globo News. Heraldo certamente terá um lugar de destaque pela sua história no jornalismo brasileiro, e pelos seus contatos nos meios políticos.

  3. Avatar airton luis ereno farias disse:

    Mervel pereira excelente comentarista !?!? O cara nao consegue falar três palavras sem gaguejar.

  4. Avatar Luis Emmanuel Carvalho disse:

    Eu assisti alguns jornais dsax10 com ele e sinceramente não dava para prosseguir. Pensa muito para falar.

  5. Avatar Welman disse:

    Lamento muito! Sempre preferir assistir às 10h justamente por causa dele.

  6. Avatar iara stela couto disse:

    Muito oportuna a troca pela Aline. Essa mudança era absolutamente necessária.

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