Hannah Arendt e seu linchamento neostalinista tupiniquim

Se não podemos lidar com a emergência dos fatos, fabricamos inimigos que atenuam as chagas de nosso ressentimento

Diego A. Moraes Carvalho

Especial para o Jornal Opção

Se há um traço que liga as extremas direita e esquerda mundo afora é, certamente, a intolerância à diferença, seja ela uma ideia ou minoria; uma dissidência ou dissonância. Cada um a seu modo de predileção e identificação. Nesse intercurso, aqueles que anteriormente se mostravam aliados fiéis podem facilmente se converterem em traidores abjetos. Porém, por nunca terem sido parte de um enquadre político específico, mas que por força de autonomia apresentam ideias que mobilizam a contradição dos afetos envolvidos na leitura da realidade, eles logo foram lançados na condição de criminosos intelectuais. A sentença, nos tempos atuais, vem na forma dos gulags virtuais ou dos porões da ditadura da conveniência. As metáforas e analogias não são gratuitas.

No campo da direita, isso está bem delineado. Especialmente no Brasil, sua expressão mais radical vem fazendo do recôndito de gabinetes (do ódio?) — profissionais ou amadores — locais onde arquitetam a destruição de reputações. Ou do que resta disso, dadas as filiações pregressas de seus novos inimigos. Ironicamente, para sustentar seu ideal de pureza, não admitem que, o outrora devoto, seja uma variante de seu espectro político. Ele só pode ser de uma outra ordem: “newleft” (“nova esquerda”). Dizem que é por causa dos métodos que passaram a adotar no contexto de suas rupturas, enquanto outros afirmam a partir de novas bandeiras (vermelhas) defendidas. Não convence, a bem da verdade. É, no fundo, uma tentativa de tirar de sua alçada aquilo que lhes pertence, dialeticamente, na melhor das hipóteses. O manejo da linguagem serve como instrumento supostamente eficaz. Muito parecido quando tentaram descolar o nazismo ou fascismo de sua emergência no seio da própria extrema direita europeia, acusando-os de serem “de esquerda”, dados os termos “Nationalsozialismus” ou “Arbeiterpartei” da sigla do Partido Nazista Alemão. Um “PT da Alemanha”, diziam. Mas não se pode esperar muito apreço com critérios historiográficos dessa turma. Muitas vezes, não passam de leitores daquele “livro branquinho” do Roger Scruton (supondo que ele tenha muitas figurinhas). Uma falta de sensibilidade com a tradição conservadora que mereceria, no mínimo, leitores acurados.

A filósofa Hannah Arendt e Little Rock

Mas hoje gostaria de falar sobre a forma como, em geral, o “outro” extremo age. As aspas aqui são postas apenas para localizar um distinto espectro político, uma vez que o modus operandi não se difere tanto. Não fosse o (ab)uso que fizeram da famigerada “teoria da ferradura”, poderíamos evocar o seu clichê nesse instante para dizer que os extremos se aproximam. Afinal, assim como na dita extrema direita, se observa entre os progressistas — quando esse termo os convém — uma instrumentalização ácida daquilo que poderíamos chamar de “ódio do bem”, desferido sempre contra aqueles que não vibram em igual sintonia ao seu diapasão revolucionário.

Hannah Arendt, filósofa alemã | Foto: Reprodução

Em geral, como se observa nos “tribunais da militância”, sobretudo identitária, o dispositivo da presunção de inocência — conquista do Estado Democrático de Direito — não passa de um artifício burguês para privilegiar (de)marcadores sociais, patriarcais ou colonizatórios. Vale o escárnio, as black lists ou qualquer outra forma de punitivismo que evidencia, antes, um afeto de ressentimento (em muitas ocasiões, justificado) do que propriamente um desejo de justiça ou reparação histórica e social. Cabe ao acusado construir as provas que o inocentam num juizado que já o sentenciou culpado por força dos “crimes” cometidos dentro uma dinâmica estrutural. Nesse espectro, o mundo é imaginariamente regido por uma espécie de “campeonato de sofrimento”. Quem “ganha” passa a ter o direito de exercer seu ressentimento extrapolando todas as fronteiras do que é justo e do que é meramente vingativo; ao passo que quem “perdeu” é relegado ao silenciamento de suas demandas.

No entanto, não é dessa ala fronteiriça do progressismo contemporâneo que pretendo problematizar. Aqui cabe a evidência de um tipo de extrema esquerda que vem se avermelhando por onde cativa seus ouvintes (em geral, em seus próprios cativeiros). Não muito diferente da extrema direita, agem também na defesa de seus mártires, elegendo seus santos e atacando os seus demônios construídos. Assim como na cultura judaico-cristã — em geral aquela que baliza moralmente as instituições conservadoras do ocidente —, o “outro” é sempre aquele que traz o descompasso, escancara nossas contradições e aposta na diferença (e no diferente) para se posicionar frente uma realidade distinta do saudoso mofo passadista de um ou da utopia que mobiliza o desejo revolucionário d’outro.

A bola da vez é a filósofa judia-alemã, Hannah Arendt. Embora admirada por parte dos progressistas, sobretudo social-democratas ou “liberals” americanos, nos últimos tempos ela vem sendo alvo de uma militância cada vez mais engajada na tentativa de desconstruí-la. Não exatamente no sentido empregado por Jacques Derrida, a bem da verdade, mas sim de uma forma tosca, precária, tais quais as leituras que fazem até daqueles que são seus referenciais. Atracada então num porto de neurótica tentativa de descrédito sobre sua obra e biografia, Arendt recebe alcunhas as mais apartadas possíveis da realidade. E algumas, um tanto quanto jocosas, na melhor das hipóteses (e threads). De “aliada sofisticada do imperialismo e racismo americano” até “a véia do totalitarismo”, passando por comparações que a nomeiam como “Marilena Chauí da Alemanha”, vale tudo no lacrativismo de DCE. (Pensando bem, seria uma honra ter esse cotejo com uma das maiores filósofas brasileiras, que em nada diminuiria sua potência e relevância intelectual.)

Em geral, há três pontos centrais que mobilizam tentativa de desqualificação da filósofa: 1) O conceito de totalitarismo e a aproximação que faz, em termos de método, do stalinismo e do nazismo; 2) O conceito de “violência revolucionária”, rechaçada pela filósofa; 3) o posicionamento infeliz, para dizer o mínimo, de Arendt frente ao episódio conhecido como “Little Rock”. Passemos ao mérito da última questão, tangenciando a primeira, com a promessa de volta às demais em oportunos momentos futuros de escrita.

No ano de 1959, Hannah Arendt publicou um polêmico texto chamado “Reflexões sobre Little Rock”. A icônica imagem de uma menina negra sendo insultada por outras crianças brancas na saída de uma escola fez com que a filósofa refletisse sobre a questão da integração racial, sobretudo no âmbito da educação. Segundo Arendt, a integração forçada nas escolas não era uma medida tão eficaz quanto uma profunda alteração jurídica que pudesse combater, por exemplo, leis que impediam o casamento interracial. Não obstante, também afirmou que a discriminação era uma parte integrante da vida em sociedade, sendo que o que deveria ser assegurado era, acima de qualquer coisa, a “igualdade política”.

Não há dúvidas do equívoco da filósofa, para dizer o mínimo. Mas chega a ser vergonhoso que se dê nessa carta um veredito definitivo sobre sua posição a respeito do tema. Tivesse sustentado essa perspectiva até o fim, teria sido motivo para a continuidade de diversas críticas feitas ao seu pensamento. Mas não foi o caso. Um ano após o fatídico texto, Arendt redige nova carta ao escritor Ralph W. Ellison (1913-1994), admitindo o equívoco de sua posição sobre a questão. Ressalta que havia tomado contato com a crítica de Robert Penn Warren (1905-1989), futuro autor de “Who Speaks For the Negro?” (1965), além das próprias considerações tecidas pelo autor de “Homem Invisível” (José Olympio, 572 páginas, tradução de Mauro Gama, de 1952). Essa passagem na vida de Arendt foi registrada na biografia escrita por Elizabeth Young-Bruhel, “Por Amor ao Mundo — A Vida e a Obra de Hannah Arendt” (Relume-Dumará, 492 páginas, tradução de Antônio Trânsito, de 1975), ressaltado o quanto esse episódio serviu para uma fundamental mudança de perspectiva, resultando posteriormente na escrita de “Crises na Educação” (1961). Fazendo justiça, é preciso considerar que não se tratou de uma carta pública visando ampla circulação. Fato é que a carta só veio a ser conhecida tempos depois, tornando-se uma péssima estratégia de resposta e retratação aos seus críticos, portanto.

Ralph Ellison, autor do romance “Homem Invisível” | Foto: Reprodução

Segue a missiva de Hannah Arendt para Ralph Ellison:

Caro Sr. Ellison

Ao ler “Quem Fala Pelo Negro?”, de Robert Penn Warren, deparei-me com uma entrevista muito interessante consigo e também li suas considerações sobre minhas antigas reflexões sobre Little Rock. Você está inteiramente correto: é precisamente o “ideal do sacrifício” que eu não compreendi; e uma vez que meu ponto de partida foi uma consideração sobre a situação das crianças negras em escolas forçadas à integração, essa falha na compreensão de fato fez com que eu seguisse em uma direção inteiramente errada. Recebi, é claro, um grande número de críticas sobre este artigo por parte de meus amigos “liberais” — ou melhor, não amigos —, as quais, devo confessar, não me incomodaram. Não obstante, sabia que de algum modo eu estava errada e pensava que não tinha apreendido o elemento de gritante violência, de medo elementar e corporal na situação. Mas suas observações parecem-me tão inteiramente corretas que agora percebo que simplesmente não compreendi a complexidade da situação.

Saudações cordiais.

Atenciosamente,

Hannah Arendt

Nova York, 29 de julho de 1965

É evidente que a obra de Arendt, como um todo, é marcada por uma insuficiência teórica em lidar com diversas questões decorrentes, especialmente, da separação que estabelece teoricamente entre público e social. Suas leituras sempre muito particulares, conquanto originais, de marcos da história da filosofia sempre merece olhares, reservas e reconsiderações. Arendt, assim como demais totens do mundo intelectual merecem ser confrontada em suas contradições, equívocos e limites, ao mesmo passo que conclama respeito e cuidado com sua obra [e pessoa].

Assim como o caso Eichmann, essa foi uma das numerosas polêmicas colecionadas por Arendt ao fim de sua vida, mas que de modo algum foi marginalizada por seus estudiosos. Basta se ater a obras como “Why Read Hannah Arendt Now” (2018), de Richard Bernstein, ou “Hannah Arendt and the Negro Question” (2014), de Kathrin T. Gines. A última, inclusive, fazendo um interessante balanço e crítica fundamentada ao pensamento de Arendt: ao mesmo tempo que a assume como uma grande pensadora, também a desafia em pontos específicos na medida que levanta fragilidade tanto filosóficas quanto metodológica nos textos da filósofa. São textos que carecem de fôlego e disposição/honestidade intelectual para lê-los (e os de Arendt, por obviedade). Talvez um empecilho seja pelo fato dessas obras estarem em idioma inglês, ainda sem tradução. Bem, considerando que essa seria a “língua imperialista”, por excelência, não podemos esperar que nem com boa-fé seus detratores possam acompanhar essas leituras: a militância não os permitiria. Talvez assim pudessem reconsiderar que as pessoas têm o direito de se equivocarem em suas análises. E a grandeza não estar em supostamente nunca ter falhado, mas na atitude de rever seus equívocos e se reposicionar publicamente.

Sob ataque do neostalinismo brasileiro

Curiosamente, a crítica mais corrosiva ao pensamento de Arendt na esquerda contemporânea não advém de movimentos identitários que poderiam facilmente registrar sua fala enquanto sintoma de um racismo estrutural. Ainda que ela mesma tenha sido mulher e apátrida judia, seria por força essencialista incapaz de compreender as nuances de processos de exclusão, especialmente o racismo negro. Somada ao fato de, enquanto filósofa germânica, representar para muitos desses grupos enquanto uma espécie de arauto do “colonialismo epistêmico” (sic), por tudo isso ela deveria ser defenestrada do panteão literário e referencial da ciranda progressista. Mas não está sendo o caso. Possivelmente nesses setores há uma compreensão muito mais plural e condescendente sobre Arendt, seja por seus marcadores sociais ou por efeito de coerência e bom senso interno que eventualmente emerge nesses movimentos e discursos.

O que se observa, contudo, é que o ataque direto está vindo de setores caricatos do famigerado neostalinismo brasileiro. Sim, por aqui há grupos (e atores) que negam o genocídio stalinista e buscam tratar qualquer forma que coloque em suspeição suas premissas revolucionárias e assassinas como algo que merece ser execrado. Holodomor é um fato histórico, fartamente documentado, para além do caricato “Livro Negro do Comunismo” (1997). Sugiro o trabalho de Alexander Wienerberger, por exemplo, que passou uma temporada na Cracóvia durante a crise, conseguindo tirar clandestinamente mais de 100 fotos, documentando o ocorrido. Mas isso seria “intriga da oposição”, ou melhor do “inimigo”. É incrível (e não fosse perigoso, risível) o quanto esses entusiastas do “terror revolucionário” (e do camarada Stálin), tentam, inclusive, desqualificar o próprio título de “stalinismo” para classificar/qualificar a experiência soviética, afirmando que se tratar de um “conceito-vazio” ou, pasme, que seu uso reflete no êxito de “uma tentativa norte-americana de propaganda anticomunista” (sic).

Arendt foi alguém com uma coragem de poucos. E isso explica a razão de ter se tornado figura eleita para o escárnio dessa turba. Com bastante propriedade, a filósofa nos apresentou com todos os seus acertos e limites, na obra “Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras, 832 páginas, tradução de Roberto Raposo, de 1951), as semelhanças de operacionalidade entre o Nazismo e o Stalinismo. Veja, não é de/entre Hitler e Marx. Não é de/entre o fascismo e o comunismo. Muito menos, não foi uma tentativa —- que soaria absurda — de se buscar a mesma gênese histórica para ascensão de tais regimes. A evidência, que somente muito tempo depois ficaria patente no legado da experiência socialista soviética, se desvelava pela forma de domínio, manejo ideológico e terror enquanto artifícios de expansão e manutenção do poder que se igualava — apenas nesse caso — em método e efeito ao nazismo.

Óbvio que, na carência de uma fundamentação teórica que demandaria um mergulho em fontes que desejam combater, se entregaram a uma estratégia de suposta desconstrução intelectual pautado em leituras pontuais ou descontextualizadas da obra de seus “inimigos”. O que é sintomático: se não são capazes de fazer um balanço crítico das experiências socialistas do século 20, reconhecendo suas contradições ou limites, nada se pode esperar de aprumo teórico frente aqueles que apontam seus embaraços. Como a questão do racismo vem tomando a justa evidência, nada mais útil do que se valer desse dispositivo crítico para desqualificar alguém que foi capaz de colocar em crise seus modelos idealizados de gestão política (e da subjetividade).

A famigerada teoria da ferradura não foi um bom artifício para justificar a tautologia entre as formas de genocídio contemporâneo, pois haveria uma falsa equivalência, a bem da verdade. De propósitos orbitais ou mesmo de processualidade histórica. Porém, é um útil dispositivo quando analisamos a forma como nos extremos, direita e esquerda se comportam na via prática de suas militâncias. Como Freud nos ensinou, a forma mais eficiente de não defrontarmos com a dor da realidade é conscientemente negando ou inconscientemente recalcando a experiência dolorosa. Se não podemos lidar com a emergência dos fatos, fabricamos inimigos que atenuam as chagas de nosso ressentimento. A esquerda, dado ao seu secularismo, elege seus mártires na categoria de santos, e seu adversários no campo das ideias em demônios que precisam de um exorcismo virtual, só que tudo em linguagem laica. Vale chamar de fascista ou liberal, escrava dos interesses imperialistas e racistas quando na verdade desejariam simplesmente chamar de hereges que merecem o fogo do inferno (ou seriam gulags?).

Diego A. Moraes Carvalho é doutor em História Social e mestre em Ética e Filosofia Política. Escreveu a obra “O Conceito de Ação no Pensamento Filosófico e Político de Hannah Arendt” (PPGF-UFG: 2009). É professor do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia do IFG e professor colaborador na Faculdade de História da UFG. É membro do Latesfip Cerrado (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Centro Oeste-UnB) e coordenador do GEA-TCP (Grupo de Estudos Avançados em Teoria e Clínica Psicanalítica-GO). É colaborador do Jornal Opção.

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