O Ministério da Saúde continua com um titular, Jair Bolsonaro, e com um reserva ou adjunto, Marcelo Queiroga

Quando Marcelo Queiroga é o ministro titular da Saúde, o país vacina. Quando passa para a reserva, cedendo o cargo ao presidente Jair Bolsonaro, o dono da caneta, o Brasil recua.

Com o apoio do governo federal, jovens com idades entre 12 e 17 começaram a ser vacinados. Uma nota técnica do Ministério da Saúde, de agosto, informou que adolescentes com e, depois, sem comorbidades seriam vacinados. Porém, depois de ouvir uma ex-jogadora de vôlei que se tornou comentarista, numa rádio de São Paulo, Bolsonaro, o ministro titular, “mudou” de ideia e fez o ministro reserva ou adjunto, Queiroga, recuar. A ex-esportista teria dado informações incompletas, mas o presidente, sempre mal-informado, as aceitou como verdadeiras. Porque é o que ele, a rigor, pensa.

Por que Queiroga recuou? Estaria preocupado em manter o cargo, portanto seria um oportunista? É a interpretação dominante na imprensa, dados os ânimos “alterados”. De fato, o recuo do ministro merece crítica. Mas é provável que o médico esteja engolindo sapo com o objetivo de manter a vacinação geral. Porque sabe que, como o presidente é errático, dependendo de um ministro-clone, as coisas podem piorar. Então, por mais estranho que seja dizer isto, às vezes é razoável ceder, quiçá momentaneamente, para avançar noutro campo — o da vacinação global. Até por que os Estados já estão vacinando pessoas de 12 a 17 anos. Aos poucos, é provável que Queiroga — aliado à pressão da sociedade — consiga convencer Bolsonaro de que ele está equivocado.

Jair Bolsonaro, presidente da República, e Marcelo Queiroga, ministro da Saúde | Foto: Divulgação

Bolsonaro costuma dizer que, como “dono da caneta”, manda e desmanda — um ordena e o outro obedece, explicou o ex-ministro Eduardo Pazuello. Porém, com a repercussão negativa da decisão de suspender a vacinação de garotos de 12 a 17 anos, sem comorbidade, disse que não obrigou Queiroga a obedecê-lo, o que não é crível. Ainda que tenha de ceder, humilhando-se — sobretudo, porque repete as “ideias”, ou falta delas, do presidente —, o ministro é pró-vacina e pró uso de máscara. A fala de Bolsonaro: “A minha conversa com Queiroga não é uma imposição. Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu vejo, o que chega ao meu conhecimento. Você pode ver como está a situação: a OMS é contra a vacinação entre 12 e 17 ano. A Anvisa, aqui no Brasil, é favorável à vacinação de todos os adolescentes com a Pfizer. É uma recomendação. Você é obrigado a cumprir uma recomendação”.

De fato, não é. Mas, quando se trata de salvar vidas, a recomendação praticamente tem valor de lei. Ao ouvir Bolsonaro, sua determinação, Queiroga disse, talvez constrangido: “Não sou obrigado” (a cumprir a recomendação). Acrescentando, com uma informação correta, quiçá para “encobrir” a informação falsa de Bolsonaro: “A OMS se manifesta que devemos ampliar a cobertura vacinal nos mais vulneráveis”.

A microbiologista Natalia Pasternak, professora visitante da Universidade Columbia, disse ao jornal “O Globo” (sábado, 18): “Foi mais do que um equívoco, foi uma enorme irresponsabilidade. Uma declaração como esta pode ter consequências desastrosas para a confiança da população com as vacinas como um todo. Ele usou informações falsas e distorcidas, sobre a OMS, e sobre efeitos adversos. Apenas fez um apelo para que se priorizasse a vacinação de adultos e idosos antes. Foi um apelo social e logístico, e não de segurança da vacina. O que vimos foi ministro da Saúde usando os mesmos argumentos dos antivacinas”.

Como se fosse um cientista, Bolsonaro acrescentou: “Se tivermos efeitos colaterais graves, eu quero saber quem vai se responsabilizar. Nós aqui estamos fazendo a coisa certa”. Vacinar é a coisa certa a se fazer, e o governo, realmente, está vacinando as pessoas. Mas quem se responsabiliza pelos 590 mil mortos e pelas pessoas que lutam contra variados tipos de sequelas?

Natalia Pasternak afirma que “o negacionismo não é uma ignorância inocente. Há interesses, como os econômicos e ideológicos”. Empresários, alguns com vínculos políticos, lucraram, por exemplo, com a cloroquina e a ivermectina. Há, frisa a cientista, além do negacionismo, o “negocionismo, a propina, a negociata, não era só ideologia”.

Ante os caprichos de Bolsonaro, Queiroga ficará no governo até quando? Recentemente, espalharam boatos de que havia pedido para sair ou seria demitido. O ministro “desmentiu”. Mas as “fake news” teriam sido espalhadas pelo bolsonarismo — se foi pelo bolsonarismo — para forçá-lo a se alinhar ainda mais com o negacionismo do presidente? É provável. O certo é que, às vezes, há ministros que “caem” mesmo sem deixar o governo (Eduardo Pazuello, na prática, nunca foi ministro da Saúde; era, no máximo, adjunto de Bolsonaro). Corroborar com as informações truncadas de Bolsonaro, expondo uma verdade (a OMS recomenda que se vacine primeiro as pessoas vulneráveis) para reforçar uma mentira (a OMS não disse que não se deve vacinar pessoas com idade de 12 a 17 anos), pode ser o caminho, não da permanência no governo, e sim da iminência de uma queda, quem sabe, das mais humilhantes.

Porém, embora haja discordância, talvez seja possível sugerir que pior “com” Queiroga e, certamente, pior sem o ministro. Talvez seja o recado da realidade, daqueles que estão pensando mais em salvar vidas do que nas eleições de 2022. Há, às vezes, muita “ciência… política” travestida de ciência…