Euler de França Belém
Euler de França Belém

Guerrilha do Araguaia: a revelação de uma história esquecida, a de Cilon Cunha Brum

O militante do PC do B ficou de dois a seis meses sob controle de militares do Exército e, mesmo não oferecendo nenhum perigo, foi assassinado. Livro resgata sua história

((Resenha publicada no Jornal Opção em 2012))

“Antes do Passado — O Silêncio Que Vêm do Araguaia” conta, de forma fragmentária, a história do guerrilheiro Cilon Cunha Brum

O livro “Antes do Passado — O Silêncio Que Vem do Araguaia” (Arquipélago Editorial, 271 páginas), da jornalista Liniane Haag Brum, é quase uma biografia, ou um projeto de biografia, a reconstrução do perfil de um indivíduo. A obra conta a história do gremista Cilon Cunha Brum, morto (a palavra apropriada é assassinado) aos 28 anos, em 1973. Militante do Partido Comunista do Brasil, Cilon, codinomes Comprido e Simão, participou da Guerrilha do Araguaia (1972-1974). Cilon deixou o Rio Grande do Sul e foi para São Paulo, para trabalhar e estudar. Estudante de economia na PUC, tornou-se militante do PC do B e, sentindo-se perseguido e, sobretudo, atraído pela luta armada — que viria do campo para a cidade, na interpretação maoísta da esquerda patropi —, mudou-se para a região do Araguaia. Liniane Haag Brum é sua afilhada. Cilon Cunha Brum batizou-a, em 1971, e nunca mais voltou ao Sul.

Cilon Cunha Brum é uma nota de rodapé nas histórias da Guerrilha do Araguaia. O PC do B e seus historiadores nunca lhe deram destaque nos textos que publicaram. Resumem seu perfil em poucas linhas e divulgam uma fotografia (certamente nunca procurou a família; Liniane Haag Brum divulga várias fotografias). O livro da jornalista, ainda que necessariamente lacunar, resgata a vida do guerrilheiro. Não é um resgate completo, uma biografia alentada, e não porque Cilon Cunha Brum viveu apenas 28 anos. Como a família perdeu contato com ele, e o PC do B nunca se interessou por sua história, aparentemente havia pouco o que contar. Mas com o que há, conversando com familiares, com militantes do partido e, principalmente, com camponeses da região, Liniane Haag Brum consegue, com rara beleza e sem pieguice (“meu padrinho era lindo” talvez seja a única escorregadela, mas perdoável: é o registro de um sentimento), construir a história de seu tio. Os fragmentos vão compondo uma história e, ao final, temos um retrato familiar mas realista de um jovem que queria mudar o Brasil e, como indivíduo, a si próprio.

Cilon Cunha Brum e duas mulheres | Foto:

Para escrever a fragmentária história de Cilon, na tentativa de encontrar uma forma para as lacunas, Liniane Haag Brum escreve cartas para a avó (falecida) e relata sua peregrinação em busca de informações, aproximando-se, às vezes, da ficção, com um texto de alta qualidade. A imaginação não substitui, porém, a realidade. É utilizada tão-somente para iluminar uma história relativamente obscura. Com habilidade transforma uma história pessoal em história pública, inserindo Cilon Cunha Brum na história do país, como uma das vítimas da ditadura civil-militar. Vítima, sim. Porque passou de dois a seis meses nas mãos dos militares, que o usavam para vasculhar as matas do Araguaia em busca de elementos para formatar um entendimento mais amplo do que havia sido a guerrilha, e, quando foi assassinado, não oferecia mais qualquer perigo. Os militares disseram para Cilon Cunha Brum escrever uma carta para sua família e, logo depois, o mataram. Seu corpo foi deixado insepulto na mata.

Os pais de Cilon Cunha Brum apoiaram o golpe civil-militar de 1964, que chamavam de “Revolução de 64”. O filho, mesmo sem demonstrar rebeldia junto aos parentes, tornou-se comunista e planejou outra revolução, a do proletariado (que não se entusiasmou com a luta da esquerda). Na sua busca, Liniane Haag Brum encontrou José Genoino Neto, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, em 1969, e sua mulher, Rioko Kayano. Cilon Cunha Brum era presidente do diretório da Faculdade de Economia na PUC. “O Cilon já tinha codinome, era Comprido”, revelou Genoino. “Passamos a ser da mesma célula quando ele foi para a guerrilha. Eu já estava lá quando ele chegou, em 1971”, diz. Genoino, o Geraldo, e Cilon, o Comprido, pertenciam ao destacamento A, chefiado por Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa). “A vida era trabalhar e treinar: nado, tiro, caça, localização na selva. Lavrar a terra, roçar.”

Cilon Cunha Brum é o de camisa quadriculada | Foto: Reprodução

“Cilon ficava à vontade naquele ambiente [a selva]. A capacidade física e o porte de atleta fizeram com que se adaptasse rapidamente às condições de vida na selva”, registra Liniane Haag Brum, a partir do depoimento de José Genoino. “Todos dormiam em redes. Tinha uma alegria que não era só dele, fazia parte daquele coletivo embalado num sonho heroico.”

Ao ser ouvido por Liniane Haad Brum, o paraense Michéas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia, contou: “O Comprido era um bom amigo. O Comprido ficou triste, muito abatido, quando chegou, mas jamais pensou em ir embora. Superou a crise com a ajuda dos companheiros. A última imagem do Comprido? Um cara solitário — gostava de cantar a música ‘João da Silva’. Assumiu o comando do destacamento B depois de uma das incursões do exército. Ficou preso seis meses na base de Xambioá — soldados lembram dele por sua solidariedade, mesmo nos piores tempos”.

Os militantes comunistas eram levados para a selva aos poucos. “Os estudantes vinham quase sempre de São Paulo. Depois passavam por Anápolis e iam para Imperatriz; ou de Anápolis iam para Tocantinópolis, e então Marabá — ou, ainda, pulavam de Anápolis para Araguaína e aí Xambioá.”

Como os militantes da esquerda não conseguiram formar um quadro plausível sobre Cilon Cunha Brum, Liniane Haag Brum vasculhou o Tocantins e o Pará em busca de informações, ouvindo camponeses. A jornalista conta com graça o encontro com pessoas humildes e, por medo ou esquecimento, evasivas. A maioria dava-lhe informações incompletas. Seu Manuel disse que viu Simão três vezes. E mais nada. Enquanto Osvaldão falava muito, Simão “não falava, não puxava assunto”.

Edileusa, a Dilia, “contou a história em finas fatias, duas ou três frases que precisei remendar”, diz Liniane Haag Brum, que, aos poucos, aprendeu a conversar com os camponeses e seus filhos, agora urbanos”. Dilia acrescentou uma informação nova sobre Cilon preso: “O que mais queria era voltar para o Rio Grande do Sul. Estar com os pais, a família e ver os sobrinhos pequenos. Ele dizia assim: ‘Depois eles [militares] até podem me trazer de volta e me matar, mas antes eu queria ir no Rio Grande do Sul’”.

Quando estava preso, Cilon Cunha Brum mantinha contato com a família da camponesa Maria da Paz. As crianças adoravam o jovem comunista “alto, magro, cabelo preto e liso, repartido ao lado”. Quase no fim do livro, Liniane escreve: “O que lhe ofereço, vozinha, é um vislumbre do seu filho, feito de fragmentos. Medo eu tive de ferir ao invés de confortar”, diz Liniane Haag Brum.

Liniane Haag Brum, jornalista e escritora: autora de um livro dolorido e perceptivo sobre um jovem que participou da Guerrilha do Araguaia | Foto: Facebook

É fato que os comunistas queriam “trocar” de ditadura, a dos militares pela do proletariado, ou melhor, da esquerda. O objetivo dos que planejavam conquistar as cidades por intermédio da conflagração do campo não era a retomada da democracia. Se instalados no poder, certamente seriam implacáveis com aqueles que não concordavam com seu pensamento e ações — como o foram Lênin e Stálin na União Soviética. A razão da luta era a extinção de um regime autoritário por um sistema totalitário. Mas os jovens que lutaram na Guerrilha do Araguaia eram em sua maioria idealistas, que, no fundo, queriam a construção de um mundo mais igualitário. Acreditavam que não havia espaço para a luta no campo democrático e, de algum modo, contribuíram para o enrijecimento da ditadura, que, de autoritária, beirou o totalitarismo com o AI-5.

Sobre a morte de Cilon Cunha Brum e outros guerrilheiros, mesmo quem não é de esquerda tem de considerar que não foram mortos em combate. Cilon, Dina, Áurea, Duda e Edinho foram aprisionados pelo Estado e, portanto, não ofereciam nenhum risco militar e mesmo ideológico. Bastava mandá-los para Brasília, como fizeram com José Genoino. Matá-los não tinha significado nenhum, nem mesmo como “alerta” para outros guerrilheiros ou possíveis guerrilheiros. Entre 1973 e 1974, a esquerda armada estava inteiramente desbaratada. Portanto, Cilon Cunha Brum, Dina (Dinalva Conceição Oliveira Teixeira) e outros foram assassinados pelo Estado militar. A responsabilidade pelas mortes não é apenas dos majores Sebastião Rodrigues de Moura Curió e Lício Maciel e, entre outros, do sargento Santa Cruz. No cenário da guerrilha, ou da quase-guerrilha, havia um militar, o tenente-coronel Léo Frederico Cinelli, que respondia diretamente ao chefe do Centro de Informações do Exército (Ciex), o general Milton Tavares, Miltinho, que era subordinado diretamente ao ministro do Exército, Orlando Geisel. Cinelli havia recebido ordem de Brasília para não levar prisioneiros. Todos tinham de ser deixados na selva. Mortos. Liniane Haag Brum não faz discursos, ou o faz raramente, e talvez por isso seu livro seja tão bonito e perceptivo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.