Euler de França Belém
Euler de França Belém

Google boicota e ameaça jornais da Austrália que exigem remuneração pelo conteúdo utilizado

A gigante americana começou a retirar postagens novas dos jornais e colocar apenas links velhos para prejudicar a audiência

As big techs se tornaram ditaduras e, por isso, se consideram acima das leis dos Estados nacionais. Mas as reações estão cada vez mais fortes em vários locais do mundo. Na Austrália, o Parlamento está prestes a aprovar um projeto que obriga as plataformas digitais a pagarem pelo conteúdo surrupiado — talvez seja o termo preciso — nos jornais. Mas exatamente no país do escritor nobelizado Patrick White o Google decidiu reagir, boicotando os jornais que exigem receber recursos financeiros pelo conteúdo utilizado pela múlti. A repórter Miranda Ward, do “Australian Financial Review”, denunciou que a gigante americana estava “experimentando com seu algoritmo para remover matérias de veículos noticiosos australianos de seus resultados” (Nelson Sá, da “Folha de S. Paulo”, é quem relata a história no Brasil).

Melanie Silva: advertência aos jornais da Austrália | Foto: Reprodução

A jornalista descobriu, conta Nelson de Sá, que “a busca por conteúdos do próprio ‘Financial Review’ ou do ‘Sydney Morning Herald’ trazia somente links velhos ou de outras fontes”. O Google está trabalhando, de maneira orgânica, para reduzir a leitura de jornais que decidiram enfrentar seu, digamos, rufianismo sofisticado.

Ao ser procurado pela repórter Miranda Ward, o Google não negou a tática. “Estamos fazendo alguns experimentos que vão alcançar cerca de 1% dos usuários da Austrália, para medir o impacto das empresas noticiosas e do Google Search, um sobre o outro”, frisa a empresa. O texto da “Folha” não diz isto, mas possivelmente o Google está sugerindo que, sem seu “amparo”, a audiência dos jornais australianos deve cair.

A ação do Google foi interpretada corretamente pelos jornais e pelas autoridades australianos: trata-se de um “experimento de censura” imposto por “um monopólio privado” (Nelson de Sá sublinha que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos trata o Google assim). O Google “controla 95% das buscas” na Austrália.

Miranda Ward: a repórter que descobriu o boicote do Google | Foto: Reprodução

O editor do “Herald”, jornal da Nova Zelândia, percebe a ação do Google como “perturbadora” e, se quisesse, poderia ter acrescentado a palavra “nefasta”. A empresa está se comportando como se fosse “a” Justiça e uma espécie de Deus da internet, senhora dos destinos de todos, notadamente dos jornais.

O governo da Austrália reagiu duramente: “Os gigantes digitais deveriam se concentrar em pagar pelo conteúdo, não bloqueá-lo”.

A diretora do Google Austrália e Nova Zelândia, Melanie Silva, escancarou a posição do grupo monopolista: “Se esta versão do código [de regulação das negociações entre veículos e plataformas, para a remuneração] se tornar lei, ela não nos deixaria nenhuma opção a não ser parar de disponibilizar o Google Search na Austrália”.

Melanie Silva frisou: “A versão mais recente do código exige que o Google pague para exibir links de sites de notícias, abalando um princípio fundamental de como a web funciona e estabelecendo um precedente insustentável para os nossos negócios, a internet e a economia digital”.

A fala de Melanie Silva, expondo a posição do Google, é uma ameaça declarada e um sinal de que a empresa se posiciona mesmo como acima da lei. Os jornais “Sydney Morning Herald”, “New York Times” e “Handelsblatt”, entre outros, denunciam o óbvio: as palavras da executiva são uma ameaça grave à imprensa. O primeiro-ministro Scott Morrison declarou: “Nós não respondemos a ameaças”.

Na verdade, apesar da ameaça, o Google está cedendo às pressões dos jornais, notadamente na França. Porque, se perder os jornais, também perderá audiência e, portanto, dinheiro. O que a empresa quer é uma legislação menos severa. Mas a ameaça, seguida de uma ação — o boicote aos jornais —, só fortalecerá a posição da imprensa.

Na verdade, os jornais e os governos dos países demoraram a reagir, a encontrar um caminho para se defender do Google e do Facebook, gigantes tecnológicos que aprenderam a ganhar milhões de dólares a partir do trabalho de terceiros. Inventaram o que se pode denominar de escravidão digital. A reescravidão.

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