Globo pisa na bola e choro do goleiro Sidão comove até repórter da rede

A crítica é bem-vinda, mas o bullying arrasa e desmoraliza as pessoas. A TV Globo mudou regras para deixar de humilhar as pessoas

Cilas Gontijo

No domingo, 12, todos que gostam de futebol e viram o jogo com transmissão ao vivo pela TV Globo entre Santos e Vasco puderam ver uma triste cena acontecer com o goleiro Sidão — que fazia sua estreia no clube cruzmaltino.

Não vamos discutir a atuação do arqueiro do Vasco, que realmente não foi boa — inclusive entregando um dos três gols do Santos, e sim uma forma de bullying no futebol. Sim, bullying. Foi isso que sofreu o goleiro Sidão, não pelos torcedores mas por parte de quem não deveria ter sofrido.

Torcedores vão zoar mesmo qualquer goleiro que sofra um frango ou que venha a cometer muitas falhas durante o jogo. Vão chamá-lo de frangueiro, mão de alface e, até, fdp.

Aliás, veja só que ironia: o cara que criou a expressão frangueiro foi justamente um vascaíno doente — o “Zé” de São Januário, um jornalista fanático pelo clube de regatas Vasco da Gama, nos anos 1940. Ele chamou de frangueiro um goleiro de seu time que se abaixou como se abaixa para pegar um frango, a partir daí criou raízes na gíria do futebol.

Sidão e a repórter da Globo

A Rede Globo tem um canal aberto a todos os torcedores para votação on line. Eles votam no melhor jogador da partida que está sendo televisionada, e nesse jogo especificamente a grande maioria votou no Sidão. Não porque ele foi o melhor, mas, pelo contrário, foram votos de chacota, curtição, de gozação mesmo.

A questão é que os torcedores não podem ser impedidos de votar, porque isso é normal avaliar se um jogador, goleiro ou não, foi bem ou mal numa partida. O canal é aberto para todos. Os torcedores decidiram, e maneira unânime, “zoar” o goleiro Sidão. A Globo poderia ter evitado que o goleiro sofresse tamanha humilhação — e ao vivo. A rede entregou o troféu de melhor jogador a Sidão, quando todos sabiam que, na verdade, dada a frangueirice, ele havia sido o pior ou um dos piores da partida.

A situação foi constrangedora até pra a repórter Júlia Guimarães, que foi obrigada a fazer a entrega. A jornalista, não suportando a humilhação de um ser humano, chorou junto com o jogador.

Faltou aos responsáveis pela rede, naquele momento, respeito ao profissional, à pessoa que ali estava, ao pai de família, ao homem que não é só um jogador, mas que tem uma vida fora dos gramados, que tem filhos, tem pai e mãe. Ou seja, a situação poderia não ter acontecido se a Globo — em busca de audiência em cima da desgraça alheia — não tivesse entrado na pilha dos torcedores.

Faltou respeito não só com o jogador, mas com todos os profissionais do esporte. Foi um tiro no pé. A rede está perdendo audiência, por exemplo para a TV Record, e este tipo de atitude fere a imagem da empresa.

Faltou equilíbrio — o que é vital numa grande empresa de comunicação. A Globo deveria ter simplesmente agradecido a votação e dizer que, em respeito ao profissional, não lhe entregaria o troféu. Optou-se, porém, pelo aspecto circense, pela destruição do indivíduo.

A Rede Globo, após o ocorrido, se pronunciou e pediu desculpas. O canal decidiu mudar as regras da votação. Agora não só os torcedores votam, mas também os comentaristas da partida — ficando para o narrador o voto de desempate.

Muitos jogadores e ex-jogadores se pronunciaram a favor de Sidão e repudiando a atitude da Globo. Sidão frangou, é fato. Mas foi a Globo que pisou na bola.

O próprio comentarista da partida, o ex-jogador Casagrande, os goleiros Alisson, Ceni e Cássio foram solidários com o jogador.

Que o bullying sirva de lição para todos do meio esportivo e que todos entendam que o respeito às pessoas — seja quem for — está acima de tudo.

Cilas Gontijo é analista esportivo.

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