Euler de França Belém
Euler de França Belém

Glenn Greenwald, alegando ter sido censurado, deixa o site “The Intercept”

O jornalista diz que tentou publicar reportagem negativa para a imagem de Joe Biden, candidato a presidente dos EUA pelo Partido Democratas. Seus colegas vetaram

Às vezes, só às vezes, o jornalista fica maior do que o veículo em que trabalha. Aí resta um caminho: o repórter sair. Pode ser o caso de Glenn Greenwald, que, ao menos nos tristes trópicos e talvez lá na Corte, havia se tornado maior do que “The Intercept”. Chegava-se a pensar que eram uma coisa só. Não eram, sabe-se agora.

Nas redes sociais, Glenn Greenwald, jornalista de prestígio mundial — aliado e amigo do celebérrimo Edward Snowden —, anunciou que está saindo de “The Intercept”. O repórter e advogado é um de seus fundadores. Os editores do site teriam censurado o aguerrido profissional. Ele queria publicar depoimentos de pessoas — testemunhas — que criticam a conduta de Joe Biden, candidato do Partido Democrata a presidente dos Estados Unidos. Para que a reportagem fosse publicada, as críticas ao vice de Barack Obama teriam de ser retiradas.

Glenn Greenwald: vítima do próprio romantismo ou de sua autenticidade pessoal e profissional | Foto: Daryan Dornelles

Glenn Greenwald não aceitou e optou pela saída. “As mesmas tendências de repressão, censura e homogeneidade ideológica que assolam a imprensa nacional geralmente engolfaram o meio de comunicação que eu co-fundei, culminando na censura de meus próprios artigos.”

Se tivesse lido Isaiah Berlin e John Gray, dois filósofos britânicos, Gleen Greenwald certamente não teria acreditado que há imprensa e seres humanos perfeitos. Não há. Nunca houve. Jamais haverá. O sal da vida é mais a imperfeição, as diferenças, não raro abissais, entre os indivíduos, mesmo os que professam o credo democrata.

Izzy Stone, o jornalista que, sozinho, balançava o governo dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Os editores do “Intercept Brasil” certamente pensam assim: “Precisamos derrotar Trump”. Portanto, criticar Joe Biden, neste momento, é, na provável opinião deles, ajudar Donald Trump a se reeleger. É grave? Pode até ser. Mas é assim que o mundo funciona.

Fica a lição, se lição é: ninguém é maior do que o veículo no qual trabalha e ninguém está acima dos interesses políticos. Louve-se, porém, a integridade de Glenn Greenwald.

Resta a Gleen Greenwald seguir o exemplo de I. F. Stone (1907-1989), que, sozinho, fazia um jornal e balançava o governo dos Estados Unidos. Isidor Feinstein Stone, Izzy Stone, ainda arranjava tempo para escrever livros, como o notável “O Julgamento de Sócrates” (Companhia das Letras, 336 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto).

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