Euler de França Belém
Euler de França Belém

Gilberto Dimenstein morre de câncer, aos 63 anos

O jornalista ganhou o Prêmio Esso duas vezes. Ele foi repórter da “Folha de S. Paulo” e diretor da sucursal da “Veja” em Brasília

O jornalista e escritor Gilberto Dimenstein morreu na sexta-feira, aos 63 anos. O câncer, que começou no pâncreas, havia se espalhado para o fígado — ele próprio contara seu drama, em março, ao portal UOL. Casado com a jornalista Anna Penido, estava escrevendo um livro, que já tinha título, “Os Melhores Dias da Minha Vida — Lições de um Câncer”. Pretendia publicá-lo em julho deste ano. “Estou fazendo uma auto-reportagem. E a Anna, além de escrever, é também minha ombudsman. Às vezes conto algo sobre a doença e ala diz: ‘Gilberto, não, isso é mentira”, relatou.

Gilberto Dimenstein: “Tem hora que eu sinto uma força maior me levando” | Foto: Reprodução

Na entrevista ao UOL, Dimenstein falou sobre a vida e a morte: “Tem hora que eu sinto uma força maior me levando. Mas a maior parte do tempo, especialmente quando aparece um medicamento novo, eu penso: ‘Agora vai dar certo’. Eu estou otimista, viu”. Em seguida, relatou: “Um dia tive uma sensação de proximidade com a morte. Foi quando eu fiz químio e estava tomando junto um antibiótico para pneumonia. Comecei a sentir um cansaço, um cansaço, um cansaço, sentia que estava indo, que estava saindo. Foi bom. É uma sensação de liberdade”. Ele é o criador do site Catraca Livre.

O jornalista faturou dois Prêmio Esso de Jornalismo, em 1988 e em 1989, com reportagens publicadas na “Folha de S. Paulo”.

Entrevista ao Diário da Manhã

Eu e o repórter Renato Dias entrevistamos Dimenstein, há cerca de 30 anos, para o jornal “Diário da Manhã”. Ele estava no auge da carreira. Depois de uma passagem brilhante pela “Folha de S. Paulo”, havia sido contratado como diretor de redação por uma revista, mas deixou-a rapidamente. Na entrevista, gravada, contou que o sistema de reescrever as reportagens, mudando-lhe o enfoque, deixava-o mal com as fontes. Por isso voltou à “Folha”, que amava. Tanto que, quando deixou o jornal, depois de lá trabalhar por 28 anos, disse “saio da ‘Folha’ com a gratidão de quem teve suporte para fazer da vida um laboratório. Mas a ‘Folha’ não sai de mim: estará sempre associada à sensação de que o exercício da imaginação é o que nos torna singulares e relevantes”.

Câncer no pâncreas e meu pai

O médico Luiz Carlos Pedreira Barros, do Hospital Amparo, operou meu pai, Raul Belém, para extirpar um câncer no pâncreas — cortou uma parte do pâncreas e retirou o baço — e, em seguida, ele foi encaminhado para a oncologista Geórgia Cunha. No seu consultório, no Setor Bueno, perguntei: “Como vai ser daqui pra frente?” Sem hesitar, a médica disse: “Vai ser difícil”. Como assim? “Trata-se de um câncer de difícil tratamento”. Ela explicou, detalhada e seriamente, que câncer no pâncreas é complicado (e, para piorar, havia metástase, quer dizer, o câncer já se tornara “andarilho”). As pessoas tendem a sobreviver pouco tempo. E, se sobrevivem mais de três ou seis meses, sofrem muito. Meu pai viveu um ano e quatro meses depois da cirurgia. No final, alucinava e vomitava muito. Dra. Geórgia, a excelente médica que cuidou dele, estava certa.

Raul Belém sofreu, mas, como Dimenstein, queria viver, e muito. Dizia que queria conviver mais tempo com os filhos (na época, cinco; logo depois de sua morte, uma das filhas, Eliana, de 49 anos, com câncer de mama, se suicidou, nos Estados Unidos), netos e noras, cuidar de seus cachorros (Pandiá, Kirov) e ler bons livros. Era um leitor infatigável de livros de história e biografias.

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