Euler de França Belém
Euler de França Belém

General do Exército sugere que Bolsonaro não pensa em golpe. Terá razão?

O presidente do Superior Tribunal Militar afirma que não há risco de golpe de Estado e diz Bolsonaro não tem a intenção de violar as instituições democráticas

Quando perguntaram ao presidente Ernesto Geisel por que havia decidido acabar com a ditadura, propondo a distensão e, em seguida, a Abertura, o general respondeu que o regime civil-militar havia se tornado uma “bagunça”. Era hora, portanto, de devolver o poder aos civis — que dizer, à sociedade. Era o momento de deixar a tutela de lado e de os militares recolherem-se aos quartéis.

A ditadura, a rigor, não foi apenas militar, pois, além de exigi-la e articulá-lo, vários civis participaram de seus governos, sobretudo nos campos institucional (um civil queria uma AI-5 ainda mais duro), fazendário e de planejamento (em larga medida, ditaram os rumos dos governos militares). Entretanto, quando o regime discricionário caiu por terra, vários civis que o haviam apoiado trocaram de lado e, de um dia para o outro, passaram a se comportar como “novos democratas” — casos de Aureliano Chaves, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney. A, digamos, “desgraça”, a ditadura, se tornou responsabilidade exclusiva dos militares. Civis, como os três citados e tantos outros, teriam apoiado o regime sob “pressão” — o que não é verdadeiro. Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Petrônio Portella (grande político), ACM, Aureliano Chaves, José Sarney, Marco Maciel, entre tantos outros, deram apoio entusiástico aos governos de Castello Branco, Costa e Silva, Emilio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. Entre 1984 e 1985, deram, os vivos, apoio “democrático” a Tancredo Neves e José Sarney.

Historiadores gabaritados, como Daniel Aarão Reis Filho (de esquerda, perseguido pelo regime instalado em 1964), no lugar de escrever “ditadura militar”, preferem nominá-la de ditadura civil-militar. Há pesquisadores que preferem mencionar ditadura militar para realçar seu caráter “cruento”, quer dizer, para piorar o que já era-é ruim. Mas não dá para esconder que civis tiveram participação decisiva tanto no golpe quanto nos governos da ditadura. Muitos deles, ao término dela, deixaram o legado negativo unicamente para os militares — num ato de inteligência, por assim dizer, histórica.

Luis Carlos Gomes de Mattos: um general democrático | Foto: Reprodução

Os militares atuais sabem que uma ditadura pode ser “boa” para alguns, até para muitos, mas não é “boa” para eles, no médio ou longo prazo. Numa interessante entrevista à revista “Veja”, o presidente do Superior Tribunal Militar (STM), general Luis Carlos Gomes de Mattos, sugere que, apesar de comandar um governo militarizado, o presidente Jair Bolsonaro não pensa em golpe.

O repórter pergunta se há risco de retrocesso político. O general afirma “de jeito nenhum. Muito pelo contrário. O presidente é um democrata, fala com o palavreado do povo, mas nada com a intenção de quebrar as estruturas, destruir as instituições, dar um golpe”. De fato, há um paradoxo: Bolsonaro governa um país democrático e não aprovou nada, até agora, que leve o país à ditadura. Mas seu discurso — incluindo os dois filhos; um deles sugeriu que, para fechar o Supremo Tribunal Federal, basta um soldado e um cabo — é antidemocrático, na medida que vive brandindo ameaças contra as instituições, como o Judiciário.

O general Mattos, de 73 anos, sustenta que as Forças Armadas não foram “capturadas pelo governo”. “Não fomos capturados por ninguém. Nós passamos quantos anos em governos de esquerda? As Forças Armadas se mantiveram fiéis ao presidente, que é o comandante em chefe” das forças militares, independentemente das ideologias.

Entretanto, se o general Mattos — uma referência positiva no Exército, dado seu pensamento democrático e moderno — afirma que não há possibilidade de golpe, adiante, ao defender o governo de Bolsonaro, afirma que “estão esticando a corda”. “Quando a corda vai arrebentar? Isso eu não sei”.

O repórter insiste sobre o que significa realmente “arrebentar a corda”. O general Mattos responde: “Tomar uma medida fora da Constituição. Não tenho dúvida de que estão esticando, para ver até onde se pode ir”. A linguagem é explícita? Não é. Mas fica-se com a impressão de que, se os críticos de Bolsonaro esticarem muito a corda, os militares podem pensar em afrontar a Constituição. Ante a falta de clareza do militar, é uma interpretação possível. Se o raciocínio estiver certo, a ameaça de golpe não está descartada. Porém, adiante, o presidente do STM insiste que a democracia está “consolidada”.

Inquirido se “a possibilidade da volta de um governo considerado de esquerda preocupa as Forças Armadas”, o general Mattos sublinha que “não”. “Tivemos governos ditos de esquerda desde Fernando Henrique Cardoso. As Forças Armadas continuarão a cumprir sua missão da mesma maneira, independentemente de quem for eleito. Muita gente pode não querer, mas a vontade do povo vai ser respeitada.”

O general postula que Bolsonaro faz um “bom” governo e, por isso, merece a reeleição.

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