Euler de França Belém
Euler de França Belém

Fonte do Intercept parece não ter confiança na mídia brasileira

Histórica ligação entre o Poder Executivo, que libera verbas publicitárias, e a mídia patropi pode ter assustado quem forneceu informações a Glenn Greenwald

A imprensa serve ao poder ou à sociedade? Não é uma pergunta fácil de responder. Governos anunciam em jornais e, por isso, exercem certo controle sobre as publicações? Editores e proprietários dizem que “não”, sugerindo uma independência que, na prática, algumas (ou até muitas) vezes é ficção.

Glenn Greenwald e Edward Snowden: experiência anterior do advogado e jornalista pode ter  influenciado a fonte do The Intercept Brasil

A “Folha de S. Paulo” e “O Globo”, para mencionar apenas dois jornais, apoiaram a ditadura civil-militar. Depois, tentaram “reconstruir” suas histórias. A “Folha” usou o apoio intenso à campanha das Diretas Já como uma cortina para encobrir a história anterior. “O Globo”, mais modesto e menos sutil, simplesmente pediu desculpas ao país por ter apoiado a ditadura. Frise-se que os dois jornais, assim como o “Estadão” — que, depois, se rebelou —, deram apoio aos governos militares espontaneamente.

Na democracia, os jornais continuaram fortemente ligados aos governos, notadamente por causa dos anúncios publicitários. Em tempo de Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas, a Petrobrás anunciava generosamente em jornais e revistas. Uma empresa especializada em revistas, além de vender anúncios para o governo federal (e estaduais), ganhou dinheiro farto comercializando livros para o setor público. Em alguns momentos, há falta de sintonia entre o Executivo e o chamado quarto poder, a imprensa, e aí a autonomia reaparece.

Há de fato publicações que, mesmo recebendo verbas governamentais, tentam criar instâncias críticas. São raríssimas. A “Folha” e a “Veja” gabam-se de ser duas delas. De fato, ao lado do “Estadão” — e, mais recentemente, “O Globo” —, são mais críticas do que outros jornais e revistas. Quanto mais estruturada econômica e financeiramente, mais livre é uma publicação. A dependência produz perda de autonomia crítica.

Mas, se há jornais e revistas críticas do poder no Brasil, por que a fonte-hacker que roubou as mensagens trocadas entre o ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, e o procurador Deltan Dallagnol optou por entregá-las ao The Intercept Brasil, uma publicação que, apesar do nome acoplar no final o nome do país, é vista como “americana”?

Não se sabe se a fonte (ou fontes) é brasileira, cubana, americana, inglesa ou russa. Talvez não importe muito saber sua nacionalidade. Mas é provável que a fonte, tendo em vista os relacionamentos históricos entre a imprensa e o poder no Brasil, avaliou que não era confiável repassar as informações para veículos locais. O Intercept, por ser “de fora”, pareceu-lhe, por certo, mais livre das amarras dos poderes patropis. Espera-se, por outro lado, que o “interceptador” não tenha hackeado diretamente para o Intercept.

É provável também que, dada a ligação do advogado e jornalista Glenn Greenwald com o americano Edward Snowden — que revelou como o Estado (Inglaterra e Estados Unidos na linha de frente) espiona globalmente e sem respeito nenhum às instituições de quaisquer países —, a fonte se sentiu segura para expor as conversas, que, naturalmente, obteve de maneira ilegal.

Se as conversas foram obtidas de maneira ilegal, por meio de “roubo”, quem recebeu não deveria divulgá-las? Se as conversas são verdadeiras, e se há (e há) interesse público envolvido, as conversas podem e devem ser divulgadas. Sem contemplação. Portanto, não há motivo para ataques à atuação de Glenn Greenwald como jornalista. Pode-se sugerir que há objetivos esquerdistas, dado o fato de o namorado do repórter investigativo ser deputado federal pelo PSOL? Pode até ser que haja algum objetivo não divulgado. Mas qual jornalista, com o mínimo de percepção, não divulgaria o material que Glenn Geenwald está divulgando? Todos publicariam. Tão-somente “assessores” — como certos jornalistas se comportam — não divulgariam.

No fundo, é provável que os repórteres brasileiros, especialmente os chamados “investigativos”, estejam com certa inveja, quiçá uma invejinha — até aquela que chamam de “positiva” —, de Glenn Greenwald. O que não deveriam fazer, e certamente não farão, é juntarem-se aos que atacam o jornalista gratuitamente. Críticas são bem-vindas, desde que iluminem o debate, mas ataques não contribuem nem mesmo com Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

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Amanda

Obrigada Glenn!

Belinha Master

A fonte dele não é tão anonima assim, se trata do hacker mais procurado do mundo, Conhecido pelo nick Slavik, Evgeniy é um hacker russo que o FBI está a procura dele e acho que greenwald pode ajudar kkkkkkkk

João Augusto

Não usou veículo de mídia comum, como os citados, pois sendo anônimo eles não poderiam divulgar. Tem q ter a fonte para passar credibilidade. Se a fonte todos iriam desconfiar q eles estão inventando. O q talvez possa ser uma invenção mesmo. Mas, mesmo q não seja, aquilo não tem nada demais. Digo isso pq ouvi vários juízes, inclusive o careca, um do STF, dizendo q conversas são comuns.

Ivone Bassanesi Veronese

Solta mais Glen. Queremos ver o qie tens aí.

Cléber Souza da Cruz

Um dos responsáveis pelo site Intercept no Brasil, americano Glenn Greenwald, deu uma entrevista na Rádio Jovem Pan dizendo que diante de tais revelações, Lula deveria ser solto. Esse gringo é “companheiro” do deputado federal David Miranda do PSol, mesmo partido do cara que esfaqueou Bolsonaro. Esse mesmo deputado entrou no lugar de Jean Wyllys do PT que deixou o Brasil alegando perseguição. Como se pode dar crédito para um site que diz fazer jornalismo independente mas tem uma clara posição partidária á favor do PT e partidos similares, e além disso não checa a veracidade total dos diálogos, se… Leia mais