Fernando Rey: quando um mestre vai embora

O professor-psicólogo cubano fez doutorado na extinta União Soviética e deu aulas em universidades brasileiras. Era especialista em Vygotsky 

Fernando González Rey e sua mulher, Albertina Martínez | Arquivo Pessoal

Candice Marques de Lima

“Isso é a vida. Ela é mais profunda, mais ampla do que sua expressão exterior. Tudo nela muda. Tudo torna-se diferente. […] Claro que não se pode viver sem dar, espiritualmente, um sentido à vida. Sem a filosofia (a sua própria filosofia de vida pessoal), pode haver niilismo, cinismo, suicídio, mas não vida. […] Particularmente, todos nós, quando olhamos para nosso passado, vemos que estamos secando. Isto é correto. Isto é verdadeiro. Desenvolver-se é morrer.” (Vygotsky em carta a Levina, 1931).

Fernando Rey dando aula: paixão pelo saber

Conheci o professor-doutor Fernando Luís González Rey quando iniciei o mestrado em Psicologia, em 2002, na Universidade Católica de Goiás, hoje PUC. Éramos eu, Cláudia Barreto e Ádria Assunção, um trio de pesquisadoras iniciantes sobre a inclusão escolar, orientadas pela professora-doutora Mercedes Villa Cupolillo. Nós tínhamos aulas com o mestre.

Chamo Fernando Rey, como era mais conhecido, de mestre, não apenas por ter sido nosso professor na pós-graduação, mas no sentido de ser uma pessoa, conforme aponta o dicionário, dotada de saber, competência, talento. Era um professor talentoso, dava aulas com paixão, seu espanhol, que ele insistia ser portunhol, era forte, vibrante, com as palavras bem pronunciadas. Foi com ele que aprendi a sonoridade dessa língua e depois consegui ler textos em espanhol.

Mercedes Cupolillo, Candice Marques, Sônia Margarida e Fernando Rey | Arquivo Pessoal

Além disso, era um pesquisador incansável, durante as aulas, quando alguém dizia algo que o interessava, tomava notas do comentário. Escreveu vários livros e seu tema de pesquisa era o sujeito e a subjetividade. Não se ausentava do debate, gostava de discutir ideias, geralmente de forma contundente e ao mesmo tempo respeitosa.

Como professor e pesquisador, além das características que apontei acima, era generoso. Tratava dos assuntos das aulas com profundidade e complexidade e nos ajudava a caminhar com ele, a tentar alcançar o que dizia.

Vygotsky: paixão intelectual de Fernando Rey

Nos auxiliou a pensar no tema de nossas pesquisas, apontando referências bibliográficas e fazendo uma discussão aprofundada sobre os conceitos de deficiência e compensação na obra do psicólogo bielo-russo Lev Semenovich Vygotsky, do qual Fernando era um profundo conhecedor.

Fernando Rey era psicólogo graduado em Cuba, sua terra natal. Fez doutorado na União Soviética e estava no Brasil desde 1995 — passando por algumas universidades como professor e pesquisador.

Será cremado e levado para sua terra natal, como era seu desejo. A ele, deixo o meu profundo agradecimento. Um mestre que vai embora, aos 69 anos, mas deixa ensinamentos para os que ficam.

Candice Marques de Lima, psicanalista, é professora da Universidade Federal de Goiás e doutoranda pela Unifesp.

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Tânia Rezende

Missão cumprida com dignidade. É esse, talvez, o sentido da vida e do magistério. Meus respeito.