Euler de França Belém
Euler de França Belém

Facebook oferece migalhas e a mídia brasileira festeja

A rede social, como o Google, quer se tornar a metrópole e, para tanto, transformar os meios de comunicação do Brasil em colônias

Em vários países — França, Austrália, Alemanha, Nova Zelândia e Espanha —, o Google e redes sociais estão sob pressão da sociedade civil para pagar pelo uso não autorizado do material jornalístico. Há várias vitórias, sobretudo contra o Google. Os jornais e revistas produzem material — quanto mais qualidade, mais alto o custo de produção — e, de alguma maneira, portais de busca e redes sociais se apropriam dele como se fossem corresponsáveis pela produção, só que sem gastar, por vezes, um centavo. Por isso, com o apoio dos governos nacionais, os meios de comunicação dos países citados estão conseguindo que as gigantes da tecnologia os remunerem pela divulgação de seu material jornalístico. Este, sim, é um passo adiante.

06/01/2020. REUTERS/Dado Ruvic/Ilutração/Foto de arquivo

No Brasil, porém, o Facebook anuncia um investimento de 2,6 milhões de dólares (cerca de 13,7 milhões de reais) “em empresas e entidades de comunicação”, relata o portal Comunique-se, e todos saem festejando (até o venerável “Estadão” parece ter caído na esparrela). Parece muito dinheiro, para um ano e 20 empresas (“representam mais de 200 veículos de comunicação”), mas, na verdade, é uma migalha. “A iniciativa terá duração de três anos e o valor deverá ser distribuído nos próximos 12 meses”, registra o Comunique-se.

O mais provável é que os dirigentes dos meios de comunicação estejam desesperados e tenham visto na operação cavalo de troia uma maneira de obter alguns trocados a mais. Em tempo de crise financeira e incerteza, o autoengano é uma vocação

No lugar de capitalizar os jornais e revistas — que estão em crise, e exatamente porque não são tão rentáveis quanto o Google e o Facebook (que ganham dinheiro com a criação alheia) —, o projeto News Innovation Test pode, quem sabe, torná-los ainda mais dependentes e, portanto, serviçais do Facebook. O Comunique-se publicou trecho de comunicado do Facebook, informando que o objetivo é “trazer mais links de artigos de notícias para a plataforma, além dos que já são compartilhados pelos veículos em suas páginas no Facebook”. Ah, outro objetivo é combater a “desinformação” — espalhada, em larga medida, com a anuência das redes sociais.

O projeto do Facebook (e, a rigor, não da mídia brasileira) parece, à primeira vista, muito bom. Porque, certamente, aumentará o acesso dos jornais (e acesso hoje não é o principal problema, pois, neste campo, a maioria das publicações brasileiras não pode reclamar). Mas a verdade é que o projeto visa fortalecer o Facebook e tornar as publicações ainda mais dependentes. De alguma maneira, o Facebook se torna a metrópole e os jornais se tornam colônias.

O que impressiona é que jornais e revistas de qualidade tenham embarcado, alegremente, no projeto do Facebook… para, no final das contas, receberem migalhas. A comemoração, por parte dos dirigentes dos meios de comunicação, sugere que estão mesmerizados pela publicidade da rede social ou aderiram ao “patetismo”? O mais provável é que estejam desesperados e tenham visto na operação cavalo de troia uma maneira de obter alguns trocados a mais. Em tempo de crise financeira e incerteza, o autoengano é uma vocação.

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