Euler de França Belém
Euler de França Belém

Esquerda intelectual patrocina mito da “boa direita” porque ela não ganha eleição

Bolsonaro representa a “má direita”, não exatamente por ser conservador, e sim porque é capaz de derrotar a esquerda e o centro

O governo de Jair Messias Bolsonaro parece “uno”, mas não é (talvez fosse mais lógico nominá-lo de “governos Bolsonaro”). O presidente é nacionalista e não é liberal. Mas dirige um governo de matiz liberal? Se a resposta for sim, pode-se concluir que a hegemonia é do ministro da Economia, Paulo Guedes — que, sim, é liberal, chicago-boy da escola do economista americano Milton Friedman. Pode, então, um nacionalista estabelecer um governo liberal ou, ao menos, políticas liberais? É o que se está vendo em termos de economia. Entretanto, em nível de comportamento — inclusive a proibição de apoio a filmes com temática homossexual —, o governo nada tem de liberal; ao contrário, é altamente conservador.

Depreende-se, portanto, que há dois governos num só: o de Bolsonaro e Paulo Guedes, liberal em economia, e o de Bolsonaro e da pastora Damares Regina Alves, conservador em comportamento. As duas pautas darão resultados positivos para a sociedade brasileira? Não se sabe. Mas parece que, bem ou mal, Bolsonaro funciona como “liga” das duas visões (por falar nisso, liberais verdadeiros não compactuam com as ideias de Damares Alves).

Jair Bolsonaro: o presidente representa a “má direita” porque supostamente apoia um governo liberal e, sobretudo, pautas comportamentais conservadoras | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Por enquanto, o liberalismo de Paulo Guedes está “vencendo” o nacionalismo de Bolsonaro (cujo forte não o entendimento do processo econômico). O presidente parece ter comprado a ideia de que não há outro caminho para recuperar o Brasil que não seja o da economia de mercado. As privatizações vão ser o divisor de águas para testar a real força do chicago-boy. Nacionalistas não são, a priori, favoráveis a privatização, ou são favoráveis quando se trata de setores ditos não-estratégicos. A rigor, ainda não dá para avaliar até onde vai a liberdade de ação do ministro da Economia.

O governo Bolsonaro não parece propenso a resolver a contradição entre nacionalismo e liberalismo e o presidente vai deixando o barco correr. À espera de quê? Do óbvio: a retomada do crescimento econômico. Se a economia se recuperar, devido à adoção das ideias-práticas liberais, Paulo Guedes se fortalecerá como czar. Se não, a tendência da retomada nacionalista é uma hipótese. É possível que uma avaliação equilibrada da dualidade do governo, ou de hegemonia de uma corrente, a liberal, só possa ser feita no terceiro ano do governo de Bolsonaro — quando resultados deverão aparecer, ou não.

Invenção da esquerda

Enquanto o híbrido de governo nacionalista e liberal vai sendo testado, a esquerda intelectual inventa, em artigos bem formulados — para efeito de convencimento —, a ideia de que falta uma “boa direita” no Brasil.

Paulo Guedes, ministro da Economia, e Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: o primeiro é liberal e a segunda é conservadora e representam duas perspectivas diferentes no mesmo governo. Jair Bolsonaro é o mediador

Ora, até pouco tempo, próceres da esquerda, como o filósofo Ruy Fausto — uma das vozes mais gabaritadas do pensamento intelectual nos trópicos, em frequente diálogo crítico com liberais (e polemizando com até Olavo de Carvalho; a esquerda ironiza mas evita debater com o filósofo da direita) —, não mencionavam a “boa direita”. Aliás, não havia, no debate, nenhuma menção à “boa direita”.

Por que, de repente, começaram a discutir a “boa direita”? Para contrapô-la à “má direita”, quer dizer, à corrente de Jair Bolsonaro, que seria reacionária, por exemplo, em termos comportamentais, adotando pautas retardatárias, e como bandeiras de Estado, praticamente ignorando que há uma sociedade que, na média, pensa diferente de seus propósitos.

Na verdade, os intelectuais da esquerda, que estão tentando inventar a “boa direita”, estão preocupados com outra questão. De pronto, é possível sugerir que “boa direita” é a intelectual, liberal e de matiz acadêmico. Ou seja, aquela que até pode disputar, mas não ganha eleição. Então, não é “boa” por ser liberal — e não conservadora —, e sim porque não elege, digamos, um presidente da República. É, portanto, a direita ideal — aquela que contribuiu para abrirespaço, entre 2002 e 2014, para a esquerda, o lulopetismo, eleger Lula da Silva e Dilma Rousseff quatro vezes consecutivas.

A “boa direita, dita moderna e aberta aos valores globais da sociedade — como a tolerância (que defendo integralmente) à homossexualidade e às oposições políticas—, está sendo utilizada, por assim dizer, para “atacar” a “má direita”.

Mas qual é o “problema” com a “má direita”? É que, interpretando com mais fidelidade o pensamento popular — um cansaço com a violência (que a esquerda prefere sugerir que resulta unicamente de problemas sociais) e uma tentativa de escapar da crise econômica, que devora empregos e reduz o poder de consumo das classes médias —, ganha eleição. A vitória de Bolsonaro ressuscitou o discurso de que há uma “boa direita”. Noutras palavras, é preciso trazer à tona a direita que não vence eleição, a “boa direita”, e afogar a que derrota a esquerda e o centro, a “má direita”.

Posto e discutido o problema, é preciso admitir que, em termos de comportamento, o governo de Bolsonaro está cometendo uma série de equívocos. Na democracia, é preciso ouvir a sociedade, com seus conflitos e contradições, e não impor uma única pauta (que não é, frise-se, da sociedade, e sim de nichos).

A sociedade “aberta” é que, em 2022, pode derrotar o presidente se ele resolver disputar a reeleição. Bolsonaro está pregando para os convertidos, mas estes, se contribuíram para sua ascensão política, em 2018, não foram a peça chave de sua vitória. Aquele eleitorado que não queria o PT de Fernando Haddad, visto como uma espécie de Dilma Rousseff de calça, e não via Ciro Gomes como alternativa factível, percebeu Bolsonaro como o instrumento para derrotar o que avaliava como um passado de erros na política econômica e uma certa “tolerância” com a violência do crime organizado.

Sem sucesso econômico em 2022, a pauta conservadora — que tanta agrada evangélicos e católicos da Renovação Carismática — vai manter Bolsonaro com determinado número de votos, mas pode não ser suficiente para reelegê-lo. Se não “recuar” para o centro, falando também para o público que havia sido abandonado pelo PT — as classes médias (o plural talvez seja correto, porque há matizes de renda), Bolsonaro corre risco de ver a “má direita” seguindo o caminho da “boa direita”. Quer dizer, pode perder a eleição. Para o agrado dos espertos e dos experts que defendem o primado da “boa direita”.

O argumento da esquerda intelectual parece puramente exercício acadêmico, uma interpretação fiel da realidade. Mas é tática política, cujo objetivo estratégico é isolar Jair Bolsonaro — contribuindo para afastá-lo, ainda mais, dos setores de centro e, quem sabe, da “boa direita”, que está sendo compelida a se constranger por ter como “aliado” um político de estilo supostamente brucutu.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.