Entrevista com Nabokov, um homem da extinta aristocracia russa. Incluindo Arthur Miller

“Brecht, Faulkner, Camus, muitos outros, não significam absolutamente nada para mim”, disse o autor do romance “Lolita”

Vladimir Nabokov: um crítico idiossincrático; como talvez todos os críticos | Foto: Reprodução

Halley Margon

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

São preciosas essas entrevistas da “Paris Review” (editadas no Brasil em dois volumes pela Companhia das Letras; e há uma edição da Paz e Terra). Vladimir Nabokov aparece como o segundo entrevistado do volume dois. O primeiro é o dramaturgo e escritor Arthur Miller — e logo vou falar dele. Ainda no volume dois estão o poeta russo Joseph Brodsky e o prosador e crítico tcheco Milan Kundera, entre outros. Do um me faltou ler, por exemplo, o maldito escritor francês Louis-Ferdinand Céline — que, do meu ponto de vista, deve ter plagiado o diabo para escrever o seu “Viagem ao Fim da Noite” (Companhia das Letras, 506 páginas, tradução de Rosa Freire D’Aguiar). É o que vou ler em seguida. Mas agora gostaria de voltar e encerrar o assunto Nabokov.

Apenas para relembrar: estamos combinados que a obra-prima do russo (escrita em inglês) é uma narrativa fora do comum, mesmo considerados os melhores entre os melhores. E que suas “Aulas de Literatura”, depois expandidas nas “Lições de Literatura Russa” (traduzidas por Jorio Dauster, o mesmo que havia realizado a melhor das três grandes traduções de “Lolita” para o português no Brasil), apenas amparam a grandeza do seu alcance literário. Feito isso, voltemos ao lado desagradável da figura. Seu desejo algo juvenil de se isolar no alto do Olimpo, por exemplo (com Joyce e Borges… — entre os contemporâneos, é claro).

“Muitos autores aceitos simplesmente não existem para mim. Seus nomes estão gravados em túmulos vazios, seus livros são simulacros, eles são completas nulidades no que diz respeito ao meu gosto de ler. Brecht, Faulkner, Camus, muitos outros, não significam absolutamente nada para mim…”.

É verdade que tenta meio que se resguardar atrás do biombo do gosto — o que lhe dá um amplo arco de proteção para emitir juízos sem se comprometer em demasia. Mas ainda assim. Não será difícil encontrar uma meia dúzia de críticos sérios que não terão dúvida em afirmar que pelo menos cinco dos romances de Faulkner (“O Som e a Fúria”, “Absalão, Absalão”, “Luz em Agosto”, “Palmeiras Selvagens” e “Enquanto Agonizo”) põem toda a produção de Nabokov no bolso, incluída sua master piece, e ainda devolvem uns trocados. (Agora, segundo o que diz o escritor e crítico espanhol Javier Marías, a admiração era recíproca, porque Faulkner tampouco tinha qualquer apreço por Nabokov — informação que está presente no livreto que publicou em homenagem ao último por ocasião do centenário do seu nascimento em 1999. Dois anos antes havia publicado sua comemoração pelo centenário do americano. Em 2016, finalmente publicou-se “Faulkner e Nabokov — Dois Mestres”, com os dois textos.)

Ego ou outra coisa

Não me parece que aquilo que normalmente chamaríamos de egolatria se aplica a Nabokov. Não importaria tanto se fosse esse o caso. Referir-se à egolatria para traçar o esboço de alguma personalidade da segunda metade do século 20 soaria pueril. Não são apenas dois ou três os que padecem da mesma moléstia. Desse ponto de vista, portanto, quase todos mais ou menos se igualam. E, então, qual a relevância? Claro que nele há também um quanto qualquer de egolatria — e chega a ser ligeiramente cômico.

Seu gênio, no quadro que pinta de si mesmo, ultrapassa as fronteiras da literatura, onde naturalmente é mestre entre mestres. Daí que, quando perguntado sobre quais são seus planos de trabalho, Nabokov não titubeia em responder que gostaria de ver “a publicação do roteiro completo de Lolita” que fez com Stanley Kubrick. Porque, conforme diz, o filme “é apenas uma visão fugaz, parca e embaçada do maravilhoso filme que imaginei e elaborei…”. E finaliza: “Nunca vou entender por que (Kubrick) não seguiu minhas orientações…” (sic). Impossível conter o riso.

Não tenho, como ninguém poderia ter, é claro, a menor ideia de que filme teria resultado se o diretor inglês tivesse seguido as orientações do autor do romance. Quem sabe não teríamos descoberto um novo gênio da linguagem cinematográfica, pondo Kubrick no chinelo. O filme, de fato, na minha opinião (risos, de novo), é de longe o mais fraco de toda a filmografia do imenso Kubrick. Minha modesta suspeita, pelo menos até aqui, fundava-se no fato de que é um romance onde o verbo, a frase, a fala são essenciais para o sucesso da narrativa — por mais encantatória que seja a própria história narrada, e ela é. O intenso brilho de “Lolita” está indissociavelmente ligado àquela ourivesaria das palavras compondo uma torrente de minúcias e sutilezas verbais, impossíveis de serem transpostas para o cinema. Até ler essa entrevista eu ignorava que o roteiro o tinham elaborado a quatro mãos Kubrick e Nabokov. Agora fico com a pulga atrás da orelha, me perguntando se a evidente fragilidade da película não se deve justamente à presença desse sujeito que, embora alheio ao universo para o qual estão transpondo sua cria, insiste em modelar o receptáculo.

Arthur Miller: impregnado de realidade

Arthur Miller: dramaturgo americano | Foto: Reprodução

Um dia desses, na quarentena do coronavírus, em Barcelona, eu andava procurando a lista dos pecados capitais. É, aqueles da Bíblia ou sei lá de onde. Sequer me lembrava serem sete. O ressentimento não está entre eles. (Para quem também não se recorda, são eles: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e o orgulho ou vaidade.) Embora não estando, a mim me parece que o rancor (ou o ressentimento) é uma ameaça da qual deveríamos fugir como o diabo foge da cruz. Foi o rancor, por exemplo, um dos itens básicos da dieta que alimentou a ascensão do nazifascismo na Europa. O ressentimento desorganiza o juízo e nos faz pesados, ruins. Algumas pessoas nos passam essa sensação, outras a sensação contrária.

Assim é, por exemplo, com Arthur Miller, o autor da nada suave ou otimista “A Morte de um Caixeiro-Viajante” (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de José Rubens Siqueira). Na entrevista para a “Paris Review”, Arthur Miller nos passa também o sentimento de alguém impregnado de realidade. É o mundo real, o drama da história, as pessoas que vivem, labutam e brigam nesse mundo que sustém sua consciência artística e seu comportamento como ser humano.

“Sinto um pavor mortal diante de gente com poder demais… Nos anos 30, era inconcebível para mim que um governo socialista pudesse ser antissemita… porque todo o protesto inicial tinha sido contra o antissemitismo, contra o racismo, contra esse tipo de desumanidade. Era isso que me atraía.”

É claro que Arthur Miller está se referindo à fracassada experiência do socialismo na União Soviética. Mas é também claro que aquele que escreveu “As Bruxas de Salém” não está anunciando sua adesão à ideologia hegemônica do seu próprio país. Ele se mantém simpático ao ideário de esquerda — e avesso às iniquidades do chamado mundo ocidental, que conhece bem. Durante toda a vida, antes, durante e depois do macarthismo (que o perseguiu o quanto pôde) seguiu sendo um humanista e um crítico cáustico da desumanidade da sociedade baseada apenas no lucro e em relações comerciais, do fanatismo religioso e das políticas fundamentalistas que se abrigavam (como ainda agora se abrigam) por detrás das instituições da democracia americana, hipocritamente.

Mas, ao contrário de tantos outros, Arthur Miller soube ver que a experiência do socialismo no século 20 havia desembocado numa deformação grotesca e autoritária, muito distante das suas aspirações de sociedade, e nas de milhões de outros. Tampouco estava disposto a tapar os olhos para os dramáticos problemas do mundo em que vivia, que, com o passar dos anos, apenas se agigantavam.

“Uma cortina de medo tão grande foi estendida sobre nós que efetivamente deturpou a mente americana. É parte da paranoia da qual ainda não escapamos.”

Contemporâneas e contrapostas

A entrevista com Arthur Miller foi feita na primavera de 1966, um ano antes daquela com Nabokov. O presidente Lyndon Johnson, que havia sucedido John Kennedy, aumentava a escalada iniciada pelo antecessor e metia o país cada mais fundo na guerra do Vietnã. O mundo inteiro, acompanhando pela TV o uso massivo dos B-52 despejando toneladas e mais toneladas de bombas sobre arrozais e de jatos lançando napalm sobre camponeses, começava a isolar a grande potência invasora no cenário internacional.

Assim como Arthur Miller, mas no polo oposto, Nabokov, ainda que indiretamente, também se posicionava sobre o que o Império (o termo é do escritor Gore Vidal) estava fazendo do outro lado do mundo:  “Em política externa, estou 100% ao lado do governo (dos Estados Unidos)”.

Não é uma questão de raciocínio ou crítica política, não para ele. Porque, quando fica em dúvida, confessa sem nenhuma inibição, como se não desse bola (de novo) por se comportar como uma criança raivosa, sempre segue “o método simples de escolher a linha de conduta mais antipática possível aos vermelhos…”.

Não, não me parece que o ressentimento seja um bom ponto de partida para a construção de juízos que devam ser seriamente levados em consideração. Nem para o autor de “Lolita”.

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