Euler de França Belém
Euler de França Belém

Edson Costa era um Nelson Rodrigues mignon do jornalismo de Goiás

Na coluna “Distrito Zero”, registro do mundo cão, o repórter contava as pequenas-grandes tragédias do cotidiano dos indivíduos

O jornalista Edson Costa é uma lenda. No Diário da Manhã, assinava a coluna “Distrito Zero”, a mais lida. Ele registrava histórias, por meio de notas — muito bem sintetizadas —, sobre as misérias humanas. Recolhia-as em distritos policiais e as contava ao estilo dos gregos antigos, com uma pitada de humor distanciado. O que para muitos parecia cruel, era tão-somente constatação da vida como ela é. Edson Costa era (é, pois sua história fica) uma espécie de Nelson Rodrigues mignon do jornalismo de Goiás.

Certa feita, eu estava na redação do “Diário da Manhã”, lendo laudas de uma reportagem de Marconi Barroso, um grande repórter, quando entra um homem de pouco mais de 50 anos acompanhado de uma menina e de um menino. Senta-se e diz: “Quero fazer uma reclamação sobre o repórter Edson Costa”. “Mas é muito sério.” Digo: “Sim, pode falar”. “O sr. vai publicar tudo?” “Sim, mas antes conte-se o que está acontecendo”.

Edson Costa: jornalista | Foto: Reprodução

O homem, acho que se chamava Geraldo, depois de dar voltas, relatou: “Acontece o seguinte: minha mulher me abandonou, fugiu com um caminhoneiro e registrei uma queixa na delegacia de polícia. O seu jornal publicou uma reportagem e agora estou me sentindo humilhado no bairro onde moro”. “Como assim?” “Quando passo nas ruas, ou vou à mercearia e ao bar, as pessoas fazem sinal de que sou chifrudo. A culpa é do jornal” (retirou o chapéu, revelando a extensa careca, e ergueu os dois dedos indicadores para mostrar como as pessoas, até amigos, faziam para achincalhá-lo). “O quê?” “Sim, a culpa é do Edson Costa”.

Geraldo disse que era a quinta vez que sua mulher a fugia, em geral com caminhoneiros. Depois, ele tinha de buscá-la. Mas, desta vez, não queria voltar — daí a queixa na polícia. “Gosto dela, perdoo-a sempre e há os dois meninos, que gostam de Maria Dirce.” “Ah, sim, mas o sr. quer mesmo? Quer desmentir a nota?”

“Não, não quero desmentir a nota, que é verdadeira. O que quero é que o jornal faça uma reportagem na qual peço para Maria Dirce voltar.” Fiquei intrigado, mas, antes a insistência, chamei um repórter e pedi que fizesse a reportagem. No dia seguinte, Geraldo me liga: “Agora piorou, mais pessoas estão me chamando de chifrudo”. “Eu avisei que não era uma boa ideia.” “Sim, mas eu achei que era.”

Ao saber da história, Edson Costa riu, mas compadeceu-se de Geraldo. “O mundo é madrasto”, disse e calou-se. Uma semana depois, Geraldo me liga: “A Maria voltou”. “O sr. está tudo bem?” “Sim. Ela prometeu não fugir de novo. As crianças estão felizes.” E o sr.? “Eu também.” Contei ao Edson Costa, que disse: “Pois é, vocês têm de entender que o ‘Distrito Zero’ é serviço de utilidade pública”. E, contrito, riu.

“Distrito Zero” realmente publicava relatos do chamado mundo cão, mas com graça e humor, o que aliviava as trágicas histórias. Às vezes era maldosa, até preconceituosa, mas era um retrato do que acontecia no dia a dia: a violência pode até diminuir, mas não acaba. Era o que Edson Costa mostrava. Era, sem o saber, um dramaturgo.

Na redação, quando colocaram computadores — eu não estava mais lá —, Edson Costa não aderiu à modernidade, optando por usar sua velha máquina de escrever. Depois, um repórter (ou uma funcionária) tinha de digitar o texto. Para que não usassem sua Olivetti, velhinha, ele trancava os tipos com cadeado. É o que me contaram.

Edson Costa morreu na quinta-feira, 10, aos 85 anos. Tinha Alzheimer e Parkinson.

Ninguém mais sabe mais sobre Edson Costa do que o jornalista Nilson Gomes, que publica um texto sobre o jornalista no Jornal Opção.

Leia mais sobre Edson Costa

Marcelo Adnet e Nelson Rodrigues eram uma só pessoa em Goiás: Edson Costa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.