Euler de França Belém
Euler de França Belém

Editora Abril desiste de publicar os quadrinhos da Disney

As histórias de Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta e Mickey não vão mais circular nas bancas brasileiras

Aprendi a ler cedo, pois minha mãe, Frutuoza Fagundes, era professora e alfabetizadora, e meu pai, Raul Belém, era leitor voraz. Depois das cartilhas, as oficiais, descobri outras cartilhas, os gibis, as não oficiais. Durante anos — e, até hoje, se pego um gibi, devoro-o até o fim —, li as histórias do Pato Donald, do Tio Patinhas, do Pateta, do Mickey, da Minnie, da Maga Patalógika, da Madame Mim, dos trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, do Mancha Negra e dos Irmãos Metralha (é possível ter alguma ternura pelos trapalhões, sobretudo pelo azarado 13-13). As histórias eram bem costuradas e, tenho certeza, contribuíram para minha alfabetização precoce.

Numa escola, quando eu era professor de História, alunos me perguntaram: “Gibis fazem mal?” Não hesitei: “Não fazem mal algum”. Mas acrescentei: “É vital que não se leia apenas gibis”. Embora sejam símbolo de entretenimento, as histórias — como as de Monteiro Lobato, este, claro, mais bem elaborado — discutem temas que as crianças (e mesmo adultos) precisam saber. Há o bem, há o mal e, por vezes, certas nuances. A divertida bruxa Madame Mim, por exemplo, não é tão malvada quanto a bruxa Maga Patalógika. Há cidadãos decentes e criminosos, que sempre se dão mal. Há o ricaço, o pão-duríssimo Tio Patinhas, e há o pobretão Pato Donald. Assim como há o sortudo Gastão.

Pode-se dizer que, nos quadrinhos, há um universo, para além do universo Disney, civilizatório.

Os sinos dobram pelos quadrinhos

Pois, depois de 68 anos, a Editora Abril anuncia que, a partir de junho deste ano, não vai publicar mais os quadrinhos da Disney. O anúncio foi feito pelo diretor de assinaturas da Abril, Ricardo Perez. Em nota, ele explicou que o fim da publicação tem a ver com uma “revisão estratégica do Grupo Abril”.

As palavras do mundo corporativo, ainda que verdadeiras, não explicam com precisão o que está acontecendo com o Grupo Abril. Na verdade, dado o prejuízo de mais de 330 milhões de reais em 2017, a empresa está num processo de enxugamento de custos. Publicações que não são lucrativas — ou de baixa lucratividade — estão sendo extintas. É a tradução, para a linguagem coloquial, da terminologia técnica “revisão estratégica”.

Até agora, nenhum outro grupo de manifestou a respeito de adquirir os direitos de publicação dos quadrinhos da Disney. Mas é provável que, apesar da internet, algum empresário se interesse pelas histórias do Pato Donald e seus “parentes”.

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