Euler de França Belém
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Drauzio Varella diz que “o SUS é o maior programa de distribuição de renda da história do Brasil”

O médico revela que está escrevendo suas memórias e diz que falta organização no sistema de saúde do país

Os repórteres Alexandra Ozorio de Almeida e Neldson Marcolin, da revista “Pesquisa Fapesp”, entrevistaram longamente o oncologista Drauzio Varella — “Palavra de médico”. A publicação, de alta qualidade, está nas bancas (sim, é impressa) e custa apenas R$ 9,50. O especialista, que se tornou um dos principais comunicadores do tema saúde no Brasil, sem banalizá-lo, diz coisas relevantes sobre várias questões (por exemplo: “Morrem 11 mil pessoas por ano no Brasil em consequência da Aids e vamos ficar preocupados com preconceito?”). Mas limito-me a recolher trecho sobre a saúde pública.

Drauzio Varella defende o SUS mas cobra mais organização na área de saúde | Foto: Divulgação

Os jornalistas perguntam: “O que é mais difícil resolver na saúde pública brasileira?” Drauzio afirma que a estrutura não é, no geral, ruim, mas falta “organização”. Nas cadeias, mesmo não tendo laboratório e máquinas de raios X, o médico afirma que resolve “cerca de 90% dos casos sozinho”. Os repórteres assustam-se: “Tudo isso?”. O médico replica: “Sim, com a cesta básica de medicamentos disponível. Normalmente, os problemas são simples. Quantas vezes ficamos gravemente doentes? Uma ou duas vezes na vida, em pessoas relativamente normais. A grande maioria das vezes resolve-se na atenção primária”.

Hospitais com menos de 100 leitos são inviáveis, “do ponto de vista técnico e econômico”. Drauzio frisa que “os hospitais de 50 leitos são a maioria no Brasil. Construir é fácil. Depois tem de equipar e contratar médicos. Esse hospital vai custar muito caro para uma capacidade de atendimento pequena. É inviável”. Ele sugere que a solução é “transformar os hospitais pequenos em centros ambulatoriais. Se há 12 cidades mais ou menos próximas, a maior delas é a que deve ter um hospital com 100 leitos ou mais, com o qual todas as prefeituras devem colaborar, juntamente com o Estado. Os que precisam mesmo de hospital iriam para lá”. O médico afirma que a estrutura de saúde existe. “O que é preciso? Além de organização, mais dinheiro, porque o total investido é pequeno diante do que é necessário”.

Apontando que, em 10 anos, o Brasil teve 12 ministros da Saúde, Drauzio sustenta que “o Brasil não tem política pública de saúde”. Ao contrário dos que criticam o SUS, o médico é um de seus defensores, entusiastas e preocupa-se de a sociedade não entender sua importância. “Não há nenhum outro país no mundo com mais de 100 milhões de habitantes que tenha ousado oferecer saúde pública gratuita para todos. Nenhum. Somos o único. As pessoas não sabem disso. Quando se fala do SUS, costuma-se dizer: ‘É uma vergonha, macas no corredor, crianças sendo atendidas em cadeiras na recepção’. Isso acontece porque a assistência primária não funciona. É só ver uma fila de pronto-socorro. Se um médico examinar todas as pessoas, dará alta para 80% ou 90%. Elas vão para lá porque não conseguem atendimento na UBS. No OS do hospital, o doente sabe que será atendido, de um jeito ou de outro”. (Em Goiânia, a estrutura do governo do Estado atende com eficiência, mas os cais da prefeitura são deficientes — faltam médicos e medicamentos básicos.)

O SUS “foi”, na opinião de Drauzio, “a maior revolução da história da saúde brasileira. Não há nada comparável”. O sistema pago atende 47 milhões e o SUS atende 160 milhões de pessoas. “O SUS é o maior programa de distribuição de renda da história do Brasil. O bolsa família é um projeto tímido se comparado ao SUS. O cidadão pode estar embaixo da ponte e, se precisar de um transplante de fígado, vai fazer no HC gratuitamente. É um sistema de redução de desigualdade social. Ninguém vê esse outro lado do SUS”.

O livro “Estação Carandiru”, de Drauzio, vendeu 500 mil exemplares. O médico conta que, se não estiver atendendo pacientes, está sempre lendo, pesquisando e escrevendo. E admite: “Antes do almoço tomo uma cachaça para ‘potencializar’ o trabalho… Isso eu aprendi com o pessoal da Detenção”. Ele tem 76 anos e está escrevendo suas memórias.

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Adalberto Queiroz

Uma “branquinha” antes do almoço é fórmula certa pra quem tem fígado bom.