Euler de França Belém
Euler de França Belém

Dony de Nuccio é mais uma vítima da máquina de triturar gente que se tornou a imprensa

Ali Kamel vai revisar, para tornar mais rígido, o código de ética da TV Globo. Oxalá não se torne o Simão Bacamarte da vida real

“O Grito”, de Munch

“Ética”. Eis uma palavra que, tão deliciosa quanto pomposa, deveria ser pronunciada em voz alta e com o dedo indicador em riste. O termo de cinco letras, três vogais e duas consoantes, já foi examinado por vários filósofos — como Aristóteles e Espinosa. O jornalista Claudio Abramo sugeriu, no livro “A Regra do Jogo”, que a ética do jornalista deve ser a mesma do marceneiro. Trocando graúdos por miúdos, a ética do jornalista deveria ser, a rigor, a mesma dos demais cidadãos.

Mas não é bem assim que pensam dirigentes de jornais, revistas e emissoras de televisão no Brasil. A TV Globo adotou uma ética dual, que agradaria o escritor britânico Graham Greene (que teria uma obra séria e uma obra de entretenimento). A ética talvez seja até mais ampla, quer dizer, tripla.

Primeira ética

Primeiro, há uma ética para jornalistas. Estes não podem aparecer em anúncios ou fazer assessoria. Podem, porém, ministrar palestras de interesse público. Há um código de ética, que, considerado frágil ou flácido — quiçá tão kafkiano quanto o romance “O Processo” —, será remodelado. Para reforçar a ideia de “limpeza”, de “pureza”, adequando-o a uma profissão que, em tese, tem de ser “imaculada”. Quando, na prática, nada é — apesar das aparências. Jornalismo é negócio, mas quem dirige os veículos o trata, de maneira instrumental, como “missa” ou “culto”. Negócios, no capitalismo selvagem ou no capitalismo civilizado, se há os dois, nunca são inteiramente limpos. A Lava Jato flagrou os nobres do dinheiro em circunstâncias pouco católicas e eles eram anunciantes dos meios de comunicações (inclusive dos que mantêm códigos de ética de primeira linha). Alguns dos aristocratas do capital eram até saudados como anunciantes altamente qualificados e, de repente, ganharam os espaços policiais — nada lisonjeiros, decerto. Quanto a turma da Lava Jato repassou para a mídia em vários anos de corrupção? A mídia também deveria devolver dinheiro ao Erário? Repórteres investigativos fariam um bem imenso ao país se escarafunchassem a questão. Mas onde publicar as reportagens? Ah, em blogs, quiçá no The Intercept.

Na semana passada, a ética da Globo provou ter “furos”, e não por entendimento primário da empresa, e sim depois de “denúncia” publicada no blog Notícias da TV, instalado no UOL e editado por Daniel Castro — espécie de telelólogo ou ombudsman da televisão patropi.

O jornalista Dony de Nuccio, apresentador do “Jornal Hoje”, pediu demissão — quem entende de “duplipensar” intui que saiu para escapar de uma demissão vexatória. Ninguém, afinal, deixa a poderosa Globo — menos empoderada, ultimamente — por nada. A rede da família é o topo da cadeia jornalística — ainda que a TV Record esteja crescendo e a CNN Brasil esteja chegando.

Dony de Nuccio trabalhava para o Bradesco, gravava vídeos com orientações — era um prestador de serviços — e teria faturado 7 milhões de reais. O contrato previa um faturamento de 60 milhões em três anos. Muito dinheiro, sem dúvida. Mesmo assim, a Globo, que em tese sabe de tudo, nada sabia? Pouco provável. Por que tomou a providência de, publicada a “denúncia” — alguém roubou?, alguém foi roubado? (não!) —, supostamente pressionar o profissional a procurar outro rumo?

Dony de Nuccio: teve de se demitir por ter violado o código de ética da Globo

O diretor de Jornalismo da maior rede de televisão do país, Ali Kamel, não é um jornalista comum. Pelo contrário, é intelectual, autor de livros tão bem escritos quanto bem pensados. Argumenta e pesquisa como os melhores scholars. Seu livro “Não Somos Racistas” é de excelente qualidade, mas serviu para ataques daqueles que, patrulheiros ideológicos, certamente nem o leram (o debate que a obra propõe é muito superior à síntese de seu título). Por que aceita a pressão dos senhores da moral? Por que, depois de ter feito mea culpa sobre uma questão — teria se “equivocado” ao apoiar a ditadura civil-militar (civis querem que a “dura” seja tão-somente militar, quem sabe para aliviar a culpa de ter ajudado a “furtar” a democracia. Novamente, a ética de duas faces: os homens de farda são responsáveis pela “dura” e os sem farda, no máximo, pela “dita”) —, o Grupo Globo tenha decidido aderir, de vez, ao politicamente correto. O notável Evandro Carlos de Andrade decerto não se afinaria para as patrulhas da selvagem “moral do bem”.

A Globo “entregou” William Waack, por um comentário racista, aos leões. Em seguida, “repassou” Mauro Naves às hienas, pois teria atropelado a ética. Na sequência, jogou Dony de Nuccio aos chacais. Quem será o próximo? Talvez Ali Kamel… diria, se não estivesse mortíssimo — e, paradoxalmente, vivíssimo — dom Machado de Assis, o mais casmurro e cético dos Brás Cubas. Simão Bacamarte, o inglório personagem do conto “O Alienista”, internava todo mundo, até que (se) descobrisse que o internado-mor deveria ser o próprio. A moral de Bacamarte percebia a loucura alheia, mas não a sua. O moralismo — o que vitima Waack, Naves e Nuccio — é a loucura dos tempos atuais. O moralismo — a moral excessiva, que não admite as fragilidades humanas e exige indivíduos e condutas perfeitas (mais do que institucionais) — é a nova doença da humanidade.

Fátima Bernardes, depois de ter deixado o “Jornal Nacional”, não deve ser vista como jornalista, e sim como apresentadora de programa?| Foto: Reprodução

A segunda ética

A segunda ética da Globo indica que a turma do entretenimento pode faturar à vontade (a turma do lado, a equipe dita puramente jornalística, deve ficar com água na boca?). Assim, como se jornalismo não estivesse se torna(n)do entretenimento, Fátima Bernardes, Pedro Bial e Galvão Bueno — o trio abandonou o jornalismo? —, Faustão e Ana Maria Braga estão liberados para se tornarem garotos-propaganda. A tese subjacente, portanto não explícita, é provável que seja a seguinte: “Se todos ganham, se mostram mais energia para conquistar anunciantes, a Globo também ganhará mais”. Faz sentido, dirão os colunistas sociais, cada vez mais raros. Mas, afinal, qual é a ética que norteia o trabalho de tais profissionais? Por que podem “vender” produtos? Porque, parece evidente, não fazem jornalismo, e sim entretenimento. A publicidade divulgada por eles “não” compromete o trabalho como apresentadores, entrevistados e narradores. Não se trata de uma ética, se ética é, discutível?

Não há a menor dúvida de que Fátima Bernardes é uma profissional decente. Mas, quando a Globo a libera para fazer publicidade da Seara, que pertence ao grupo JBS  investigado pela Operação Lava Jato — os principais acionistas, Joesley Batista e Wesley Batista, inclusive foram presos —, de qual ética se está tratando? Ao “aceitar” a demissão de Dony de Nuccio, não lhe dando nenhuma chance, a Globo esquece, propositadamente, a relação de sua funcionária e de si próprio com a JBS-Seara-Friboi? Pode se falar em ética prêt-à-porter ou ética casual?

O Alienista: novo código de ética do jornalismo brasileiro? | Foto: Reprodução

Se disser que o Bradesco é melhor do que o Unibanco, bancos concorrentes, Pedro Bial estará se colocando como o Pedro Bial de passado jornalístico, de onde derivou sua credibilidade, ou se exibindo como o Pedro Bial do entretenimento, o do Big Brother e, mais recentemente, o do programa de entrevistas? Um compósito, por certo.

Para dissociar jornalismo de entretenimento, a Globo precisará menos de um código de ética, e sim de um tratado sobre o assunto, a ser escrito, quem sabe, pelo sociólogo-guru Domenico de Masi, admirado e seguido nos corredores da rede-mãe.

Terceira ética

Se há uma ética, restritiva, para jornalistas, e há uma ética, liberadora, para os profissionais do entretenimento, qual seria, então, a ética da Globo, como empresa? Ou sua ética é unicamente cobrar ética dos outros, quer dizer, de seus profissionais?

Ali Kamel, diretor de Jornalismo da TV Globo

A Globo é uma gigante e, como tal, é amada e odiada. Intelectuais de esquerda raramente notam o esforço da rede para ouvir o “outro lado”, da maneira mais ampla possível (quando o criticado é o presidente Jair Bolsonaro aí, claro, a Globo se torna irmã dos deuses, uma companheira de jornada). Nos últimos anos, sobretudo, tem sido de uma correção exemplar na exposição de denúncias e na abertura de espaço para suspeitos e acusados. Chega a corrigir seus erros no ar, às vezes na mesma edição do “Jornal Nacional”, do “Jornal Hoje” e do “Jornal da Globo”.

Mas, como empresa — uma concessão pública —, a Globo pode faturar anúncios de quaisquer outras empresas, como Odebrecht, OAS e JBS? Não há nenhum empecilho. Não há um código de ética que restrinja os anunciantes. Se bebida alcoólica não faz bem à saúde — equivalente, possivelmente, ao cigarro —, por que a Globo acolhe anúncios de cerveja? Qual é a ética que a “força” a aceitar anúncios de empresas que vendem álcool? Por que não se recusa a acolher anúncios de bebidas que levam milhões de pessoas aos hospitais e contribuem para infartos e AVCs?

O que leva a Globo a ter parcerias jornalísticas — em termos de afiliadas regionais — com políticos como Fernando Collor, José Sarney e familiares do falecido Antonio Carlos Magalhães? Qual é a ética que reveste tais transações?

Sequestro da ética

Ali Kamel anuncia um código de ética mais “claro” para seu corpo de jornalistas — um dos melhores do país. Espera-se que a empresa adote um código de ética menos “liberal” para si e mais benéfico para o cidadão. Tipo: “Como bebida alcoólica faz mal para a saúde, levando os governos federal e estaduais a gastarem fortunas mensais com o tratamento de doentes, não vamos mais divulgar anúncios de nenhuma cervejaria. Como refrigerantes contêm muito açúcar, o que pode levar ao diabetes, não vamos mais divulgá-los”.

Liberais autênticos não são contra anúncios de bebida alcoólica, jogos e nem mesmo de cigarro. Entretanto, como está numa fase de moralismo exacerbado, a Globo deveria, como empresa, dar o exemplo…

O socialismo deu “certo” em Cuba porque lá, não tendo o que compartilhar, socializaram a pobreza e a falta de esperança. Nos Brasil, os “ismos” não pegam, exceto o “moralismo” — o único “socialismo” que deu certo no Brasil, tanto que une esquerda e direita na mesma Arca de Noé, e com o aplauso da imprensa. Há mais Damares no mercado do que imagina a vã filosofia do anti-damarismo. Disfarçados de anti-Damares são, no fundo, apóstolos do “regressismo”, vanguardas do atraso.

A máquina que “devorou” Dony de Nuccio, oxalá se recupere, não vai parar. Já estão de olho numa apresentadora e um jornalista fez insinuações sobre uma jornalista que, com a mãe e a irmã, tem uma confecção.

A ética do real é: jornalismo é negócio, como admitiu Otavinho Frias Filho, mas só para as empresas. Os códigos de ética para jornalistas não têm a intenção de torná-los imparciais — a imparcialidade é um mito pantanoso — e adeptos totais da objetividade (que, mesmo não existindo, deve ser buscada), e sim circunscrever o faturamento comercial às empresas. Portanto, pode-se sugerir que as empresas de comunicação sequestram a ética para si — para ampliar seus ganhos financeiros. Aos jornalistas, não as batatas, mas meramente os salários. O francês Balzac, o de “Ilusões Perdidas”, e o brasileiro Machado de Assis, o de “O Alienista”, permanecem atuais, mais vivos do que todos nós.

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