Euler de França Belém
Euler de França Belém

Documentário O Dilema das Redes sugere que o usuário é o produto que redes sociais espionam e vendem

Facebook, Google, YouTube, Instagram e Twitter praticamente espionam e mapeiam os gostos e aspirações dos usuários

Pintura de Gustave Courbert

Quem não está no Instagram, no Facebook, no Twitter e quem não se tornou “amigo” do Google (utilíssimo para mim, que sou jornalista) e do YouTube (ouço música com frequência) não está na internet. Ou seja, praticamente não existe. “Quem não tem um ‘pé’ no Instagram está fora da internet, portanto do mundo”, costuma-se ouvir. “O que você anda fazendo, não vejo você no Facebook e no Instagram?” — perguntam com frequência aos que, como o poeta Gabriel Nascente, escapam da Infernet. Formado por Stanford e ex-funcionário do Google, Tristan Harris, de 36 anos, é peremptório: “Meu conselho é — se você puder sair das redes, saia”. Mas quem pode? Nem ele — personagem capital do docudrama “O Dilema das Redes”, em exibição pela Netflix.

A leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; “Madame Bovary”, de Flaubert; “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust; “As Ondas”, de Virginia Woolf; “Ulysses”, de James Joyce; e “Enquanto Agonizo”, de Faulkner, pode resultar prazerosa. Ler os sete romances, de maneira cuidadosa, é uma das delícias da civilização. Mas será preciso mesmo lê-los se há sínteses e tantos comentários no Google e nas redes sociais? Obviamente que sim. Mas as pessoas, excluindo os especialistas e os que querem se tornar especialistas, têm tempo para escapar umas duas por dia para enfrentar autores tão complexos quanto os brasileiros, os franceses, a inglesa, o irlandês e o americano? Poucos, muito poucos, têm tempo para se concentrarem. As redes sociais estão sempre batendo às portas, com seus “sons” e “clamores”, nos convocando para conversas, debates, interações e, até, xingatórios. Acaba-se de postar uma reportagem de dez mil caracteres — com espaços — e um “amigo”, em questão de segundos, escreve embaixo: “É uma idiotice!” Não a leu, obviamente, mas, ao defini-la assim, contamina o ambiente, provocando comentários similares. Há também os que elogiam para agradar o amigo que postou.

Porém, fora a socialização da imbecilidade, há outros problemas, e mais graves. Muitas vezes nem são percebidos pelos usuários, que se julgam “sujeitos” de uma história na qual são, por vezes, “objetos”, “produtos”. A “Veja” publicou uma reportagem, “Como a assustadora engrenagem das redes ameaça a saúde e a democracia”, assinada por Marcelo Marthe. A base para o texto é o documentário “O Dilema das Redes”.

Depois de estudar ética aplicada à ciência da computação em Stanford, Tristan Harris, de 36 anos, decidiu trabalhar no Google, uma das maiores empresas do mundo. Era para ser um insider, mas acabou se tornando um outsider, ao não aprovar “a obsessão de seus pares em tornar a navegação em sites e e-mails cada vez mais viciante”.

Tristan Harris escreveu um manifesto, que chegou até a um dos chefões do Google, Larry Page. A aceitação de suas ideias foi apenas teórica. Porque o modelo do Google exige outra via, não a que propunha: “Sonhávamos em usar a tecnologia para o bem, preocupados em gerar um impacto social positivo”. O que o Google (como o Facebook) quer — e precisa, pois está na bolsa — é mais dinheiro e, para tanto, controle a respeito do que são e querem os usuários. Shakespeare, segundo o crítico literário Harold Bloom, inventou o homem moderno e a internet, com as redes sociais, estão reinventando-o como servo voluntário (diria La Boetie?).

Maldição que parece redenção

Longe de desanimar, Tristan Harris saiu do Google e criou, em 2013, o Center for Humane Technology. “Percebi que você não pode mudar o sistema de dentro dele.” Portanto, se tornou um ativista. No filme, dirigido por Jeff Orlowski, é o personagem principal, mas há outros, como Tim Kendall, que dirigiu a rede de compartilhamento de imagens Pinterest e uma área do Facebook. Kendall talvez exagere, mas vale transcrever o que disse: as redes sociais podem, “no curto prazo”, levar a “uma guerra civil”. Talvez, as guerras sejam mesmo civis, mas com palavras… O cientista político Filipe Campello, da Universidade Federal de Pernambuco, disse à “Veja” que “a polarização, os discursos do ódio e as fake news” são “uma ameaça à democracia” (a frase é uma transcrição do que disse o mestre). “A Terceira Guerra Mundial não se dará com arma e munição, mas com bombardeios de informação”, pontua Tristan Harris.

Frise-se que “a veiculação de conteúdo odioso no Facebook levou ao massacre da minoria muçulmana em Mianmar, em 2018. O submundo das redes influenciou o Brexit, a eleição de Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil. (…) As fake news destroem reputações, influenciam de forma suja os processos eleitorais e circulam em uma velocidade seis vezes maior do que as notícias verdadeiras”. Instituições, como o Supremo Tribunal Federal do Brasil, têm condições de barrar todos os esquemas nas eleições deste ano? Não têm. Porque, sublinha Marco Aurélio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas, “não estão equipadas para acompanhar, ainda mais numa eleição em que tudo é resolvido em tempo real”. As redes sociais são extremamente avançadas, assim com os grupos de marquetagem mundial, enquanto os órgãos públicos, embora tenham evoluído, estão só um pouco adiante da Idade Média, em termos de tecnologia, de inteligência artificial.

Oslovski diz que “é assustador lidar com uma máquina que dissemina mentiras mais rapidamente que a verdade. As lideranças do jornalismo têm de se unir para restabelecer a confiança nos fatos”. O documentário cita, muito apropriadamente, Sófocles: “Nada que é vasto entra na vida dos mortais sem trazer uma maldição”.

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

A consultoria GlobalWebIndez, da Inglaterra, informa que o Brasil “é o terceiro em uso de redes sociais em um ranking de 46 nações. Por dia, os brasileiros passam, em média, três horas e 38 minutos conectados”.

Executivos do Facebook, Instagram, Twitter e YouTube sempre dizem a mesma coisa: as redes estão ao lado dos usuários, ampliando a comunicação entre eles. Seriam democratíssimas. Na prática, querem obter lucros — o que é óbvio. Mas há mais coisas a se dizer. “Veja” anota: “Como” as redes “ganham dinheiro, se são” gratuitas? “A resposta é: eles vendem a seus anunciantes a possibilidade de atingir você, o usuário que navega ali despreocupado. É como diz um jargão das empresas de tecnologia: ‘Se você não está pagando pelo produto, você é o produto’. Na verdade, explica no filme o guru da tecnologia Jaron Lanier, o produto é algo mais sutil: a gradativa, leve e imperceptível mudança em nosso comportamento e percepção operada pelas redes. ‘Esta é a forma de eles ganharam: mudar o que você faz, o que você pensa, quem você é’, pondera Lanier”, relata a “Veja”.

Com a inteligência artificial, as redes sociais e correlatos, como o Google, praticamente espionam os usuários — mapeando-os como nem a Stasi, da Alemanha Oriental, a KGB (hoje, FSB) da União Soviética e a CIA (e o FBI, a Polícia Federal americana) dos Estados Unidos conseguiram fazer. “As redes sociais se valem de seus eficientes algoritmos para rastrear a vida, os gostos e opiniões das pessoas num nível que faz o Grande Irmão de George Orwell parecer um anãozinho. ‘Muitos pensam no dia em que a inteligência artificial dominará os humanos. Esse dia já chegou — são as redes sociais’, disse Jeff Orlowski.” O chefão do FBI  J. Edgar Hoover, se vivesse nos tempos atuais, teria um orgasmo, por certo, ao saber que se pode saber tudo, ou quase tudo, a respeito das pessoas — e praticamente sem pressões do Congresso ou do Justiça.

A persistência da memória, de Salvador Dalí

A “Veja” frisa que o cérebro humano, “que levou milhares de anos para adquirir sua excepcional capacidade de processamento de raciocínio, agora tem de competir com supercomputadores que usam um volume colossal de informação para perpetrar a tarefa de nos influenciar, manipular e prender. Para tanto, as redes recorrem a truques de persuasão psicológica que exploram desejos e medos atávicos, e de eficácia tão cirúrgica quanto imperceptível. Há fatores que assemelham o vício em redes sociais à dependência de drogas”.

“O ponto é: você se sente no controle quando olha o Tiktok, o Facebook e o YouTube, ou entra para dar uma olhada e uma hora depois não sabe por que continuou ali? Isso é um sintoma de que a humanidade perdeu o controle do próprio destino. Se eles controlam nossa informação, eles controlam nossas ações. Se quisermos retomar o controle, precisamos reconhecer que eles controlam mais a gente do que nós controlamos a tecnologia. (…) Nós valemos mais para o Facebook se formos viciados, distraídos, indignados, polarizados, narcisistas e desinformados do que se vivermos livremente de maneira rica, e não grudados nas telas”, afirma Tristan Harris.

O que fazer? Dê uma passeada pelo seu quintal, dê uma volta com seu cachorro (ando 8 quilômetros por dia com meu labrador João Fidelis), procure saber o nome das árvores de sua rua e de seu bairro — os ipês e os jacarandás estão, floridos, um encanto. Observe os pássaros — sabiá, bem-te-vi, cambacica, arranha-gato, joão de barro, choquinha lisa, beija-flor — que, como muitos homens e mulheres, estão trocando o campo pela cidade, num êxodo em busca de comida e, inclusive, árvores para fazerem ninhos, descansarem e se protegerem de predadores. Abra um livro de Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Angélica Freitas (excelente poeta) e Cristovão Tezza. Leia duas páginas. Leia um conto, quem sabe aquele de Machado de Assis que trata de um personagem chamado Sales (não tem a ver com o ministro de Bolsonaro). Puxe conversa sobre o assunto com um amigo. Tenha uma vida, para além das, acredito, inescapáveis redes sociais. Divirta-se com a música de Noel Rosa, Adoniran Barbosa, João Gilberto, Bidu Sayão, Guiomar Novaes, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Fernanda Takai, Cláudia Vieira, Maria Eugênia, Fernando Perillo e Marcelo Barra.

Você acha que as redes sociais lhe deram poder — portanto, voz —, mas o que o documentário mostra, assim como alguns livros, é que o pacto faustiano beneficia mais as empresas do que os usuários. Não é de mão dupla.

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