Euler de França Belém
Euler de França Belém

Direita pode sentir a falta de uma esquerda moderada como a petista e cair nos braços do fisiologismo

Os grupos fisiológicos estão com água na boca apostando que Bolsonaro vai cair aos seus pés, até por falta de experiência

Crédito: Pintura de Igor Morski

Nas redes sociais, principalmente, é possível ler que o governo do presidente Jair Bolsonaro precisa “extirpar” o petismo das estruturas públicas e, até, do país.

Não há dúvida de que, mais do que o tucanato, os governos de Lula da Silva e de Dilma Rousseff aparelharam o Estado, transformando-o numa imensa brigada petista. Entretanto, se a “contaminação” é verdadeira, não significa que o Estado não tem um corpo de funcionários que, ideologias à parte, é inteiramente profissional. Portanto, o PT não privatizou — quer dizer, não “petetizou” — o Estado por completo.

Retirar comissionados que são petistas ou indicados pelo petismo, especialmente aqueles que foram nomeados para fazer política, e não para trabalhar, é justo. Não há do que discordar. Um presidente tem de trabalhar com o corpo técnico efetivo do governo e, ao mesmo tempo, com os comissionados que avalia que têm a ver com o projeto que pretende implantar.

Mas, quando se fala em “extirpar” — sinônimo, no caso, de perseguir —, há uma adesão, quiçá inconsciente, à barbárie. “Extirpar” não é linguagem democrática e contribui, direta ou indiretamente, para aumentar a violência, se não nas ruas efetivas, ao menos nas ruas virtuais, que são as redes sociais. Políticos, uma vez eleitos e tendo tomado posse, têm, por dever com o país, com o todo, de adotar a linguagem da democracia — abandonando a linguagem da campanha. Nos próximos quatro anos, Bolsonaro será presidente de todos os brasileiros, inclusive dos petistas, e não apenas de seus seguidores. No lugar de “extirpar”, a linguagem adequada é a da diplomacia; portanto, deve-se usar “conviver”. Conviver não é necessariamente viver juntos, e sim viver nas proximidades, de maneira respeitosa, ainda que as ideias sejam muito diferentes.

O PT, que queria levar o proletariado ao Paraíso, chegou ao Inferno, sem sequer passar pelo Purgatório. A derrota de Fernando Haddad no segundo turno, só no segundo turno, parece ter iludido os petistas, que não estão percebendo — na verdade, não querem perceber — que sua crise nem é de recuperação judicial, e sim falimentar. Mas o PT, assim como Getúlio Vargas em 1954, não é necessariamente a desgraça na face da terra.

No governo, talvez acreditando na eternidade de seu poder, petistas (curiosamente, alguns deles, como Franklin Martins, são jornalistas) chegaram a esboçar ideias autoritárias, como controle da imprensa e do Ministério Público, mas acabaram recuando, o que prova sua adesão ao projeto democrático.

No poder, a esquerda petista comportou-se de maneira democrática e contribuiu para moderar e suplantar os grupos radicais. Na democracia, quando se tem um grande partido de esquerda, com certa moderação, as células radicais, que não são democráticas, podem ser contidas. A contenção se deu, no caso, muito mais pela energia moderadora do PT do que à crítica da imprensa ou à força da direita. O principal problema do PT não foi, no poder, a articulação de ideias autoritárias, e sim sua adesão à corrupção sistêmica.

A falta de uma esquerda hegemônica, de caráter moderado, pode fortalecer os grupos radicais. É provável que, se o PT soçobrar de vez, até a direita vai sentir sua falta. Nos próximos anos, o PT, se fizer uma oposição consequente, ainda que firme, pode se consagrar como uma instância necessária. Bolsonaro ganha muito mais se contar com uma instância crítica sólida e não venal, que pode se concentrar em torno do PT, do PDT (apesar do Carlos Lupi, os Gomes do Ceará são bons políticos) e do PSB, do que com o apoio de políticos fisiológicos. Ante o caos do início do governo Bolsonaro, porque sua articulação política é fraca e não tem o espírito republicano de um Ulysses Guimarães e de um Tancredo Neves, os grupos fisiológicos, verdadeiros urubus de terno, estão com água na boa, assistindo o presidente “cair” aos seus pés — até por falta de experiência (a expertise do Legislativo não é a mesma do Executivo).

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