Euler de França Belém
Euler de França Belém

Depoimento de amigo “condena” ou “libera” Bolsonaro na questão das rachadinhas?

Waldir Jacaré, espécie de “porta-voz” de Jair Bolsonaro, garante que a ex-mulher do presidente Ana Cristina Valle é responsável pelas rachadinhas

Sobre a reportagem “Ex-assessor de Bolsonaro confirma rachadinha na família do presidente” há várias coisas a postular, duas básicas. Primeiro, a revista “Veja” é séria, e por isso não é pautada externamente. Portanto, a reportagem não está a serviço do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos (o tema da reportagem é mesmo oportuno, o que a justifica). Segundo: por qual motivo Waldir “Zero Zero” Ferraz, assessor “informal” de Bolsonaro, do ramo da Inteligência pessoal, decidiu falar sobre um assunto que, em tese, supostamente “incrimina” o presidente e sua prole? A pergunta não é respondida pela publicação da Editora Abril. O presidente quis, ao aparentemente liberar o “amigo” para falar tão abertamente (se é tão abertamente assim), se antecipar aos possíveis críticos, durante a campanha, ou a uma reportagem sobre o assunto? Às vezes, escancarar os próprios problemas reduz seu impacto crítico e, daí, o desgaste. Seria Bolsonaro “falando” pela boca de Waldir Jacaré, este, um porta-voz? Seria uma ameaça à ex-mulher Ana Cristina Valle?

Waldir “Jacaré” Ferraz e o presidente Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

A reportagem tanto pode complicar Bolsonaro quanto pode “liberá-lo”? O recado geral da reportagem é: os Bolsonaros — inclusive o presidente — sabiam da rachadinha, ela é um fato, mas teriam sido traídos por aliados próximos, como a ex-mulher Ana Cristina Valle e o militar aposentado Fabrício Queiroz. Noutras palavras, a família em si não tem culpa. O inferno são os outros.

Waldir Ferraz, o Jacaré, é amigo de Bolsonaro sênior há mais de 30 anos.

À repórter Laryssa Borges, da “Veja”, Waldir Jacaré disse que “houve rachadinha nos escritórios de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro e afirmou que a advogada Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente, foi quem organizou e comandou a arrecadação irregular de parte dos salários dos servidores, prática que configura o crime de peculato. Jacaré disse ainda que o presidente foi traído e não sabia dos rolos da ex-esposa, que ainda hoje chantageia Bolsonaro, pedindo dinheiro para manter o seu silêncio. ‘Ela fez nos três gabinetes. Em Brasília, aqui [Rio de Janeiro] no Flávio e no Carlos. O Bolsonaro deixou tudo na mão dela para ela resolver. Ela fez a festa. Infelizmente, é isso. Ela que fazia, mas quem é que assinava?’, pergunta Jacaré. ‘Quem assinava era ele. Ele vai dizer que não sabe? É batom na cueca. Como é que você vai explicar? Ele está administrando. Não tem muito o que fazer’, acrescenta, referindo-se a Jair Bolsonaro”. À revista, Ana Cristina negou que esteja chantageando Bolsonaro. Estariam arranjando uma “culpada” que, é bem possível, tende a não aceitar ser cristianizada? Ela será a próxima capa da revista? Talvez sim; o mais provável é que não.

Ana Cristina Valle e Jair Renan Bolsonaro | Foto: Reprodução

Jacaré relatou a “Veja” que a “rachadinha entrou nos gabinetes da família do presidente ainda na década de 90, quando ele exercia mandato de deputado federal. (…) Jacaré conta que ela foi se ‘infiltrando’ e rapidamente ganhou a confiança de Bolsonaro, com quem iniciou um relacionamento amoroso. Logo, Ana Cristina recebeu carta branca para administrar o gabinete de Bolsonaro na Câmara dos Deputados. (…) Segundo Jacaré, o esquema funcionava da seguinte maneira: responsável por uma cota de contratações, Ana Cristina recolhia documentos de algumas pessoas, abria contas bancárias em nome delas e embolsava grande parte de seus salários.Muitas vezes, o funcionário era fantasma e nem sequer tinha conhecimento de que estava empregado no gabinete de Bolsonaro. Jacaré alega que quem já trabalhava com o ex-capitão antes da chegada de Ana Cristina, não participava do esquema. (…) Ela é muito perigosa. É uma que quer dinheiro a todo custo.”

A pergunta conclusiva é: a bomba vai estourar no colo de quem? De Ana Cristina, do “porta-voz” Jacaré ou dos Bolsonaros? Dos últimos, certamente que não.

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