Elder Dias
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Declarações de Danuza e Deneuve sobre assédio não ajudam quem é mais vulnerável

Oprah Winfrey, Catherine Deneuve e Danuza Leão: militância da primeira recebe críticas das outras duas

Durante a cerimônia do Globo de Ouro, a segunda premiação mais importante do cinema norte-americano, a apresentadora Oprah Winfrey deu voz ao protesto das atrizes presentes, que vestiram preto como forma de alertar para os assédios sexuais – Hollywood viveu, em 2017, uma sequência de denúncias de abusos que alvejaram o produtor Harvey Weinstein, o diretor e roteirista James Toback e atores consagrados como Dustin Hoffman, Steven Seagal e Kevin Spacey – este acusado de “conduta sexual inapropriada” por pelo menos 24 homens. Boa parte dos casos vem na esteira do movimento MeToo (“eu também”, em inglês), que provocou o reexame de situações alegadas de assédio sexual do passado e que tinham como foco figuras poderosas.

Do outro lado do Atlântico, a atriz francesa Catherine Deneuve provocou polêmica ao dizer que as vítimas, na verdade, eram os homens – tanto americanos como franceses – que teriam sido demitidos “somente” por “terem tocado num joelho, tentado roubar um beijo, falado coisas ‘íntimas’ durante um jantar profissional ou enviado mensagens de conotação sexual a uma mulher que não lhes correspondia”. No Brasil, a jornalista Danuza Leão considerou o Globo de Ouro “um grande funeral”. E acrescentou: “Toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”.

Não se pode dizer que sejam declarações de pessoas imaturas. Danuza tem 84 anos e Deneuve, 74. Viveram todas as experiências possíveis como personalidades ligadas ao mundo do cinema, da arte e da comunicação. Ao mesmo tempo, ganharam, pela idade, um certo salvo-conduto para dizer o que realmente pensam. E disseram.

Resta saber: a quem servem as declarações da artista e da jornalista? Provavelmente há exageros e até mentiras absolutas entre as denúncias que alcançam atores, diretores, jogadores – o atacante Robinho foi condenado por estupro na Itália – e outras personalidades famosas. Isso não tira o peso do que há de real, chocante e traumatizante no uso e abuso da relação desigual de poder – seja físico, hierárquico ou financeiro – com vistas a benefícios sexuais.

Quem mais sai perdendo são as pessoas cuja voz fica amordaçada e anônima, longe dos palcos e holofotes: são as domésticas, as secretárias, as estagiárias. Aí está o grande desserviço que Danuza e Deneuve prestaram.

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