De homo a deuses: mais Harari do que nunca

Estamos mais suscetíveis às pandemias por causa do aumento da população e dos meios de transporte mais eficientes

Fernando Bueno Oliveira

Especial para o Jornal Opção

Nos últimos meses o que mais ouvimos, lemos e assistimos são considerações a respeito da necessidade de se repensar, de se reinventar e de se requalificar num contexto de isolamento social já vislumbrando um mundo pós-pandemia. Transmissão online de conteúdo, como áudio ou vídeo, que juntos são chamados de streaming já sinalizam como serão os tempos de um futuro próximo, bem próximo, quase hoje, aliás, já tem gente falando que o mundo nunca mais será o mesmo. Parece que mais do que nunca respiramos a obra de Yuval Noah Harari, pelo menos as versões disponíveis em português, e com bastante intensidade os seus dois últimos livros “Homo Deus — Uma Breve História do Amanhã” e “21 Lições Para o Século XXI”.

Yuval Noah Harari: historiador israelense | Foto: Reprodução

Um historiador israelense, ambicioso, sem fazer muitas distinções entre nações, religiões, credos e raças, compreendendo que somos de uma mesma espécie e que estamos todos no mesmo barco, Harari se tornou um escritor conhecido e autor de best-sellers internacionais. Seus livros mais lidos, além dos já citados, inclua-se também o “Sapiens: uma breve história da humanidade” nos conduz por um tour histórico percorrendo um itinerário assegurado pela ciência. E para fazer isso o escritor escreve num formato acessível, interessante e cativante, construindo uma espécie de ponte entre a comunidade cientifica e o público em geral, quase um Carl Sagan da atualidade, tendo o gênero da ficção científica a sua âncora para abordar assuntos que estritamente acadêmicos e técnicos poderiam ser quase inacessíveis, desinteressantes e fatigantes.

Enquanto muitos cientistas estão profundamente engajados em seus campos de atuação e se tornam especialistas no que estudam e escrevem somente para um pequeno círculo de outros cientistas (as exigências burocráticas obrigam a isso), uma das marcas de Harari é possuir a visão do todo, longe das especializações, tratando a história de forma abrangente, como uma só: a macro história. De maneira muito inovadora faz conexões entre áreas que pareciam não conversar entre si tais como computação, medicina, geopolítica internacional, políticas internas, combate à imigração e ao terrorismo.

O leitor de Sapiens poderá recordar dos tempos de escola, das aulas da disciplina de história que desde sempre focam nos últimos 5.000 anos e ainda imergidos na Europa Ocidental. Num vasto contexto evolutivo de 13,8 bilhões de anos, considerando que os seres humanos produzem história há pelo menos 70.000 anos, por que só estudamos míseros 5.000 anos? E antes que a culpa vá para a conta dos professores de história, os currículos escolares no Brasil ainda direcionam as aulas de maneira que se desconsidere 65.000 anos de história humana.

Diferentemente da escola, Harari trilha pela história humana demonstrando os percalços rumo à unificação de nossa espécie a qual ocorreu há mais ou menos 200.000 anos. E é esse momento que nos deparamos com uma triste constatação: nós não somos superiores aos outros animais. Sim, é difícil de aceitar! Mas não tínhamos nada de especial! Não havia muita diferença entre nós e as outras espécies do gênero homo que já habitavam a Terra no mesmo período que nós, os quais também eram bípedes, também tinham pouco pêlos no corpo e também tinham cérebros grandes. Sim, isso mesmo! Animais que eram humanos! Para os leitores mais exaltados, não me xinguem, o autor ainda está vivo! Haviam espécies humanas dentro do gênero homo. E por que não se considerar isso? Se aceitamos que existiram e existem diversas espécies de onças, de tubarões, de gaviões, por que não aceitar que já existiram várias espécies de humanos! Os registros arqueológicos já provaram que pelo menos 4 espécies de seres humanos conviveram no mesmo período e, na realidade, faz pouquíssimo tempo, há apenas 13.000 anos, que foi extinta a última espécie de homo que não era o homo sapiens (consistia num pequeno grupo que vivia na Ilha das Flores, na Indonésia). Dessa forma, nos tornamos a única espécie de seres humanos a habitar o planeta.

Para aquecer os motores para a leitura de Sapiens poderíamos começar com “História do homem: nosso lugar no universo”, de Edmac Trigueiro, que considera, até com mais detalhes, as diferenças entre as espécies humanas descrevendo comportamentos e extinção: nossos parentes biológicos eram embaraçosamente parecidos com a gente, existiam pouquíssimas diferenças biológicas, físicas e comportamentais entre eles e nós. Mas, cabe aqui a pergunta: por que nós vencemos o jogo da sobrevivência e eles não? Para Harari a chave dessa mudança aconteceu há 70.000 anos e atende pelo nome de Revolução Cognitiva. Não é que de uma hora para outra os seres humanos deixaram de viver em grupos nômades (caçadores e coletores), mas essa revolução consistiu na capacidade que desenvolvemos de contar histórias e inventar ficção. Os cientistas ainda não conseguem explicar o porquê e como esse processo aconteceu (para você, leitor religioso e adepto das leis da criação: esse é o seu momento!). O fato é que nos tornamos especialistas em contar histórias, inventar mundos, atribuir sentidos e significados às coisas que já existiam na natureza. Tudo não passa de histórias. Por exemplo, o sistema de crenças e de economias (o nosso dinheiro!) são histórias que criamos!

Essas histórias se espalharam pelo planeta e assentaram as bases para uma importante revolução que aconteceu há 12.000 anos: a Revolução Agrícola. Quando a maior parte de nossa espécie passou de nômade e passou a fincar raízes em áreas agricultáveis, as sociedades foram ficando mais complexas. Reis para governar as nossas riquezas agricultáveis, deuses para proteger as nossas colheitas e necessidade de comercializar (dinheiro e escrita). Outra revolução, que na verdade transformou a espécie humana na verdadeira dona do planeta, capaz de criar e destruir qualquer coisa, foi a Revolução Científica, iniciada há 500 anos, durante a renascença, com Copérnico, Da Vinci, Galileu, dentre outros. Chegamos assim ao nível do desenvolvimento científico que nos levou à inteligência artificial, à biotecnologia e à conquista do espaço.

Passando por “Homo Deus” o leitor perceberá que a humanidade conquistou o mundo: a fome, a morte e a guerra já foram superadas! Temos tecnologia suficiente para não haver fome, e se ela ainda faz com que pessoas sofram e morram no Sudão, na Somália, no Haiti, no Iêmen, na Síria e em outros tantos países isso decorre de problemas de gestões governamentais. Morre-se mais de obesidade do que de subnutrição. Conseguimos colocar a raça humana no centenário. A medicina moderna visa tratar a sua saúde, fazendo que eu e você viva mais e melhor. Vacinas foram inventadas e continuam sendo aprimoradas e o saneamento básico já é realidade para a grande parcela da população mundial. Quem sabe nos tornemos imortais ou amortais (não morreremos por causas naturais, mas por problemas técnicos ainda não resolvidos) o que será um grande problema para as previdências sociais. E qual o sentido das religiões se as pessoas não morrerem?

Já estamos familiarizados com as palavras do momento: pandemia, quarentena, distanciamento social e lockdown. A Covid-19 está no palco. Mas Harari nos traz uma ótima notícia: hoje as epidemias representam uma ameaça muito menor à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. Ao mesmo tempo, nos diz que a humanidade ainda é vulnerável a elas, graças à combinação de dois fatores: aumento da população e meios de transporte mais eficientes. Estamos vivenciando as consequências do moderno.

As guerras estão desaparecendo também. Hoje o açúcar é mais perigoso do que a pólvora: as pessoas morrem mais por causa de diabetes do que por conta de atos terroristas. Por mais que existam conflitos pontuais os países não se invadem com frequência (é claro que as espionagens ainda existem, mas agora os drones já ajudam muito): o que se tem hoje é uma guerra de informação.

Quando chegamos em “21 lições para o século XXI” percebemos que o Homo sapiens perde a sua suposta autoridade e daí constatamos algo já esperado:  o controle das coisas escapa às nossas mãos e agora os algoritmos passam a exercer o comando. Já não tomamos decisões próprias, mas os algoritmos são os que nos sugerem compras ou aquisição de aplicativos. Pasmem: daqui a pouquinho os algoritmos nos conhecerão melhor do que nós próprios! De repente um pânico invade as nossas almas: como será o mundo daqui a 20, 30 ou 40 anos? Se tudo der certo estaremos por aqui! Sem ser profético, mas com base em projeções tecnológicas Harari evidencia que num futuro bem próximo boa parte das profissões que consideramos tipicamente humanas (advogados e médicos, por exemplo) será quase que totalmente substituída por inteligência artificial. As pessoas terão que se reinventar o tempo todo se não quiserem pertencer à classe dos impregáveis (composta por pessoas cuja bagagem de conhecimentos não servirá para, simplesmente, nada). Em pouco tempo a educação formal (diga-se de passagem, ainda muito tradicional) descobrirá que seus conteúdos curriculares serão inaplicáveis! A bioengenharia por meio da tecnologia controlará as formas biológicas. Formataremos seres humanos. Editaremos o nosso código genético. Vivenciaremos o colapso ecológico (ou será papo dos chineses para que dominem o mundo?). E quanto às narrativas? A democracia liberal que parecia ter vencido as narrativas socialistas e fascistas dará mesmo conta do recado? E a ameaça nuclear? Nunca subestime a estupidez humana!

Por ser um autor bastante influente cujas opiniões são lidas por um público variado em diferentes países, Harari é ativo em entrevistas, rodas de discussões e palestras, notadamente no Vale do Silício. Em tempos de pandemia tem defendido uma atitude de cooperação entre os países para o enfrentamento das crises humanitárias e econômicas sem deixar de considerar que as tecnologias de vigilância serão ainda mais fortemente empregadas por certos países com o pretexto de se identificar supostas pessoas contaminadas.

Para o leitor que chegou até aqui selecionei para você quatro lições de Harari, dentre as 21 apresentadas em seu último lançamento. Eis as lições: não entre em pânico; você sabe muito menos do que pensa; o futuro não é o que você vê nos filmes; e a mudança é a única constante. Podem nos servir de consolo (ou de desespero) para sobrevivermos num futuro que está próximo, demasiadamente próximo. Bem-vindos à era do on-line, do remoto, dos aplicativos, dos robôs, das telas compartilhadas, da inteligência artificial, da biotecnologia, da bioengenharia, dos tours pelo espaço sideral e em volta da Terra (se ela não for plana). Para os mais curiosos sobre esse assunto, o próprio Yuval indica “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, que talvez continue sendo o livro mais profético do século 20, e a série de TV de ficção científica “Black Mirror”, para ele muito imaginativa e inovadora.

E lembre-se: um texto sobre uma obra nunca substitui a leitura na fonte.

Fernando Bueno Oliveira é doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Goiás.

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