Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Cura gay” é uma tentativa de a religião se tornar Estado e controlar a vida do indivíduo

O óbvio: se não há doença, não se precisa de cura. Mas grupos religiosos, às vezes convencendo juízes que não são inocentes, tentam projetar uma normalidade paranoica

A religião é um dos fenômenos culturais mais extraordinários da história do ho­mem. Tratá-la como mera alienação, co­mo ópio do povo, é deixar de co­nhecer filosofias (teologias) ricas, po­derosas e imaginativas. A Idade Média, uma era civilizatória, preservou e difundiu a cultura greco-ro­mana largamente como resultante da hegemonia cultural da Igreja Ca­tó­li­ca. O Renascimento, filho dos ho­mens medievais, é uma invenção, em certa (ou grande) medida, dos ho­mens de vasta cultura da Igreja Ca­tó­lica e dos nobres. Os artistas eram ge­niais, mas foram acionados por mecenas… católicos.

As ideias religiosas em si, com a conexão entre a realidade e o imaginário, o místico integrado ao mítico, são fenômenos (e construções criativas) poderosos. Pode-se assinalar que a religião cria mundos paralelos (e o mundo místico não é irreal) que se contaminam das coisas do mundo “real” mas sem perder a dimensão espiritual. Os homens podem viver sem religião? Um cientista radical, como o britânico Richard Dawkins, dirá que sim, e talvez esteja certo. A religião, segundo seus críticos, tem sido fonte de infelicidade e, algumas vezes, incentiva as guerras entre povos. Mas é apenas uma faceta. A religião agrega os homens, cria uma cultura e civiliza — não leva apenas à barbárie e ao ódio. Acadêmicos meticulosos, avessos a preconceitos primários (não se trata de uma redundância, pois há preconceitos elaborados), têm estudado as religiões a sério e têm feito descobertas que superam as ideias daqueles que, parecendo intérpretes equilibrados, eram, como o filósofo alemão Karl Marx, combatentes. É provável, até, que o autor de “O Capital” tenha pretendido substituir as religiões por uma religião secular — o marxismo. O filósofo britânico John Gray examina a questão no livro “Missa Negra — Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias” (Record, 352 páginas, tradução de Clóvis Marques). O marxismo é uma religião derivada de uma mistura explosiva entre Cristianismo, Iluminismo e Positivismo. Não deixa de ser curioso ou sintomático que comunistas se assemelham aos cruzados católicos.

O homem criou Deus e cria deuses para inspirá-lo. O artifício fica mais criativo quando o homem se permite a ideia de que ele próprio tenha sido criado por Deus. A explicação da ciência para o nascimento do mundo e do homem é mais convincente e racional, não há dúvida. Mas a explicação da religião — ou melhor, das religiões — é quase sempre mais bela e, mesmo, original, porque é até, talvez sobretudo, literária. Há livro mais belo do que a Bíblia, o romance dos romances? É provável que não. Quase todos os grandes escritores beberam e bebem lá, de Shakespeare a Guimarães Rosa. Novas traduções da Bíblia têm ampliado a complexidade de suas ideias e o vigor de sua linguagem.

Há quem acredite que a religião, por supostamente “seduzir” o homem, é o império do mal. Não é. Não há religiões, ao menos no Brasil, pregando a guerra e o extermínio de adversários. As religiões, católicas e evangélicas — passando pela umbanda e pelo candomblé —, pregam a paz. No geral, funcionam como clubes, com ações sociais mais benéficas do que prejudiciais aos indivíduos. Há fanatismo? Por certo, aqui e ali, há, mas não é o que predomina. Há uma racionalidade, e não apenas derivada da “teologia da prosperidade” — típica de algumas igrejas evangélicas —, que acaba levando à exclusão da pegada fanática. A liturgia de uma igreja, com seus ritos, não deve ser interpretada como mera alienação ou enganação. Pra começar, ninguém engana ninguém e pastores não devem ser tratados como seres demoníacos e espertalhações. Há mistificadores (até farsantes), mas a tendência é que, com o tempo, desapareçam ou suas igrejas moderem-se. Um dia, há muitos anos, a Igreja Católica “vendeu” indulgências. Hoje, com métodos modernos e racionais, não precisa mais disso. Igrejas novas são financeiramente agressivas, chegam a pressionar seus fiéis, mas vão se acomodando e, mesmo, se tornando mais abertas e tolerantes. Um papa “ecumênico” como o admirável Francisco resulta da consolidação da Igreja Católica, que não se sente ameaçada, estruralmente, por outras religiões.

Pintura de Chris Mars

Religião e Estado

Posta a questão da importância das religiões, com a ideia dominante de que não devem nem precisam ser combatidas — antes, devem ser respeitadas —, discutamos a questão da separação entre as coisas da religião e as coisas do Estado. Comecemos pelo ensino religioso. Se as igrejas estão ensinando religião nos seus templos, diariamente, por que levar o ensino religioso para as escolas? Significa que as igrejas não estão funcionando como unidades que ensinam religião? Escolas são lugares mais adequados para se aprender Língua Portuguesa, Matemática, História e Biologia. Se as escolas forem dirigidas por religiosos, e não laicas e controladas pelo Estado, tudo bem que abram um espaço em suas agendas para o ensino religioso. Pergunta-se: as católicas terão espaço e disponibilidade para explicar aos alunos as diferenças entre sua liturgia e a dos evangélicos? Certamente que não. O ensino, portanto, será dogmático.

O Estado brasileiro, insista-se, é laico. E assim deve continuar. A religião tem seu lugar, deve ser respeitada. Mas os religiosos devem respeitar a autonomia do Estado.
O Brasil tem várias igrejas evangélicas respeitáveis, como a Assembleia de Deus, à qual pertence o deputado João Campos, do PRB (partido ligado à Igreja Universal). As igrejas evangélicas, com seus pastores e bispos, estão cada vez mais articuladas e atuantes na política, notadamente no Poder Legislativo. Por que lá? Porque é o Legislativo que formula as leis do país. Magistrados não aprovam (ou não deveriam aprovar; podem até sugeri-las) leis que, concordando ou não, têm de cumprir à risca, eventualmente modificando-as depois de consultar alguma jurisprudência.

Homossexualidade

Na semana passada, um juiz decidiu que psicólogos podem “tratar” homossexuais. De fato, o magistrado não menciona “cura gay”, como seus defensores têm propalado na internet. O que se sugere, em tese, é que homossexuais que se sintam desconfortáveis com sua “condição” possam procurar psicólogos para uma consulta.

Quando se retira as “vestes” das palavras, o que se propõe é mesmo uma “cu­ra gay”— “ideia” que evangélicos radicais de­fendem. Ho­mos­se­xuais seriam “a­ber­rações” da na­tureza que a religião, com ajuda da psicologia, po­deria “corrigir”. É o que pensam al­guns, quiçá muitos.

O médico Drau­zio Varella escreveu que a homossexualidade não é uma doença. Se não é, por que “abrir”, a partir de uma decisão judicial, a possibilidade de que homossexuais possam ser “tratados” por psicólogos? “Tra­tados” exatamente de quê? Reduzida a pressão de religiosos, que certamente influenciam alguns psicólogos — que são, por vezes, mais pregadores do que homens da ciência ou mesmo homens tolerantes —, algum juiz teria tomado a decisão que tomou? Possivelmente, não.

Pintura de Salvador Dalí

Dirão: o juiz está apenas “permitindo” — criando uma abertura legal — para que algumas pessoas, no caso homossexuais, busquem apoio para tomar sua “decisão” (continuar sendo homossexual ou se tornar heterossexual, como se fosse simples assim). Ora, se é assim, por que a intervenção da Justiça? Por que não “deixar” que homossexuais, como quaisquer outras pessoas — já que são seres humanos como os outros —, decidam por si a respeito de suas vidas? A função da Justiça é criar uma ordem legal para to­dos, é possibilitar um convívio pacífico e civilizado. Mas não é sua função decidir sobre como as pessoas devem proceder quando se trata do exercício de sua individualidade, de sua sexualidade.

Por que a sexualidade dos homossexuais incomoda tanto algumas pessoas? Os que não a aceitam falam em “anormalidade” e “atos contra a natureza”. Parece óbvio que nem todos os que “combatem” os homossexuais têm desejos homossexuais. Mas a obsessão com a sexualidade deles, com sua suposta pujança e voracidade, sugere mesmo certa atração pelo “contrário”, por sua “diferença”. Por que o “prazer” em combatê-los? Drauzio Varella chega a recomendar àquele que está preocupado com o fato de que dois homens ou duas mulheres se amem que procure um psiquiatra. Talvez seja o conselho menos inadequado.

Se um homem ama um homem (ou se uma mulher ama uma mulher), se os dois têm prazer, o que isto tem a ver com quem não apoia o amor e o carinho deles? A vida sexual deles diz respeito exclusivamente aos dois.

Se os religiosos não se mostrarem mais tolerantes com a sexualidade diversa, que não é o mesmo que desviante, dos homens e das mulheres — criando formas torturantes de controle, inclusive de seus integrantes —, vão acabar tendo de aceitar (ou ao menos enfrentar) cruzadas intolerantes contra as religiões. Quanto a determinados juízes, ainda que suas sentenças concebam certa tolerância e sejam exploradas de maneira imprecisa pelos críticos, não se pode tratá-los como “inocentes” ou meros “aplicadores” das leis. Os magistrados não são autômatos e sabem que determinadas decisões são terríveis para determinadas pessoas, como os homossexuais.

Um detalhe talvez tenha passado despercebido na “peleja” da semana passada. A “liberdade” dos homossexuais foi defendida, de maneira ampla, por centenas de heterossexuais. O que prova que o Brasil está mais aberto e tolerante. A liberdade “saiu” do armário e o amor, hetero ou homo, continua mais belo do que a guerra e as campanhas moralistas.

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NILSON GOMES JAIME

Esse artigo está perfeito. A contextualização da importância da religião (independentemente se com elas concordamos, ou não) é imperativo para a discussão, pois afasta a ideia de demonização das religiões (denominações religiosas).
Vivemos no Brasil de hoje, tempos de grande intolerância. É preciso que – da mesma forma que o articulista procurou ver os pontos positivos da religião – os religiosos vejam os gays como pessoas, acima de tudo. Pintá-los como aberrações da natureza, abre margem para que as religiões sejam vistas como meras mercadoras de esperança, ao contrário do que realmente são. O artigo aponta isso. Bravo!

Edmar Oliveira

O melhor texto sobre o tema publicado no Brasil até agora. Parabéns, Belém.

Carlos Henrique

Baseado no título da matéria, então vc enxerga as igrejas como um oponente ao marxismo. Pois este defende que o estado seja Deus. Como não estão conseguindo, atacam as ideias religiosas.

Carlos Raimundo Lucas Batista

Não entendi bem. Os psicólogos tratam apenas de doenças? Se a pessoa tem um problema psicológico, comportamental, para ser tratado pelo psicólogo tem que ser diagnosticado como doença. Se o homossexual não se sente confortável com essa opção sexual, não poderá ele procurar um psicólogo para resolver esse conflito?

Silvio Bittencourt

Carlos Raimundo, você não entendeu ainda? É a ditadura de militância LGBT, de ativistas. É claro que se a pessoa homossexual quiser ser hétero e precisar ajuda tem que buscar. Mas eles, os ativistas LGBT não entendem assim.

Rafael

Você já viu algum heterossexual procurar um psicólogo para fazer terapia de reorientação sexual? Não, pois ele não precisa, e nunca concordaria com isso. Se a sexualidade dele não está fazendo mal a ninguém, deixa ele em paz! É isso que a gente quer que vocês vejam; nós não precisamos ser “curados”, não é uma doença ou distúrbio. É apenas mais uma das expressões normais da sexualidade humana. Essa terapia pode causar depressão e transtornos de ansiedade, além de não ser eficaz.

VILMAR BATISTA

Eu realmente devo estar ficando louco. acontece que ainda não rasguei sequer uma de dois contos. No entanto, ao ler esse artigo, se não me controlar, vou acreditar que fiquei velho, retrógrado e reacionário ( quase um Donald Tramp ). Ora Ora seu jornalista articulista e seus admiradores. Os senhores podem até contrair “LER” escrevendo diariamente seus textos na tentativa de convencer a todos nós sobre esse hemhemhem, mimimi, tititi da ” CURA GAY” ( expressão criada pela mídia).Pois, sempre irão se deparar com alguns leitores esclarecidos que não se deixam influenciar por exemplo com a matéria do Fantástico (que… Leia mais