Euler de França Belém
Euler de França Belém

Culpa de queda de audiência da Globo não é das afiliadas nem da rede; um mundo novo chegou

Dada a queda de audiência, a Globo pressiona afiliadas. Culpa não é destas e da rede, e sim do fato de que há uma oferta extraordinária de entretenimento

A Rede Globo está mudando — e rapidamente. Por ser gigante, não se tem a dimensão precisa da mudança. A parte mais visível são as demissões e os cortes de salários — quer dizer, a contenção de despesas —, mas isto apenas esconde o principal: a empresa patropi busca sobreviver, no presente (já pensando no futuro), ante um mercado altamente competitivo e complexo.

José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho: luta para manter o gigante como gigante | Foto: Reprodução

Antes, quando a competição não era globalizada — e tinha de se enfrentar tão-somente o SBT, a Band e a Record —, era mais fácil. Agora, o enfrentamento se dá com gigantes, e sobretudo gigantes de “outras esferas”, por vezes com custos mais reduzidos e, portanto, mais competitivos. Há a Netflix, a Amazon e está chegando a CNN Brasil. Enquanto o mundo bate à porta, ocupando espaço e conquistando audiência, os telespectadores, ante “n” opções, não são mais figuras cativas. Libertaram-se, ou se escravizaram ante variegadas opções de entretenimento e jornalismo (cada vez será mais entretenimento, sem deixar de ser jornalismo. Modelos no lugar de jornalistas profissionais são um reflexo disso).

A mutação da Globo não depende mais dela. Anteriormente, a nave-mãe mudava e os demais seguiam o comboio. A mudança podia, portanto, ser mais lenta e sob controle. Agora, não é mais assim. A Globo faz uma mudança, mas, se o mercado estiver sendo modificado em direção a outro rumo, tem de se rearticular (com perdas financeiras). Observe-se que, depois da aderir ao sistema de Pessoa Jurídica (PJ), para pagar seus funcionários mais caros, a televisão da família Marinho está voltando ao sistema da CLT. A pejotização, que parecia, não é mais a salvação da lavoura.

No momento, a Globo está se adaptando ao novo mercado e não está conseguindo influenciá-lo da maneira anterior. Está sendo arrastada para a mudança. A queda de audiência não decorre de a rede ter piorado seus programas — a qualidade, no geral, tem sido mantida —, e sim de uma oferta desmedida de programas na televisão (aberta e por assinatura) e na internet (computadores, celulares). Audiências absolutas, de pouco anos antes, não estão mais garantidas para nenhuma rede. A luta já é para manter audiências médias — que garantam um faturamento razoável. Há quem se assuste com uma audiência de, digamos, 8% para o programa do Pedro Bial. Mas não deveria. Será assim daqui pra frente. Uma audiência de 20% a 25% — altíssima — será cada vez mais rara. Tanto que, quando ocorre, tem sido comemorada.

Pedro Bial e Galvão Bueno, amigos, se beijam: nos bastidores, lutam para manter “retiradas” acima de 1 milhão de reais | Foto: Reprodução

Dada a queda de audiência, a Globo pressiona suas afiliadas. Mas a “culpa” da queda não é nem das afiliadas nem da própria rede, e sim do fato de que, insistamos, há uma oferta extraordinária de entretenimento tanto de boa quanto de má qualidade (a escolha é dos telespectadores). As afiliadas são, a rigor, o bode expiatório.

O que a Globo irá fazer com o sistema de afiliadas, que funcionou durante décadas, não se sabe. Mas o sistema (não o Grupo Globo) parece que está falindo. A tendência é a Globo “tomar” ou “retomar” o controle total? Não se sabe. Mas as afiliadas não vão investir — com razão — num sistema que, aparentemente, não tem mais salvação e está morrendo “vivo”. Está “morto em pé”. Investir para “ajudar” a Globo não tem lógica econômica e financeira. Não é, por assim dizer, racional.

Há afiliadas que são sérias e competentes. Mas não se salvarão se tentarem salvar a Globo. Porque o velho modelo, em vigor, não tem salvação. A própria Globo só se salvará, se se salvar, se assumir que o “problemão” é seu, e não das afiliadas. A audiência não caiu e está caindo porque as afiliadas não investem e não têm pessoas competentes — às vezes até investem e mantêm equipes altamente profissionais. Mas, ante a queda brutal de audiência e faturamento, têm de reduzir custos e o passo seguinte é a perda de qualidade.

Fátima Bernardes, Pedro Bial e Galvão Bueno: em 2018 fizeram altas “retiradas” mensais (os sócios nada retiraram) | Foto: Reprodução

O fato é que o mundo mudou — muito — e de modo incontornável. Quem não se adapta “morre”. E quem se adapta também “morre”. Porque as mudanças têm de ser constantes e rápidas — o que dilapidam as finanças das empresas de comunicação e entretenimento.

A bonança sumiu, e não só para o povão. Portanto, cabe aos executivos da Globo — que estão mudando a rede (criando “uma só Globo”) —, não só abrir o olho, mas também fazer o diagnóstico preciso da crise, que não é criada pelas afiliadas. A crise é global, e não será fácil sobreviver. Todos correm risco. Galvão Bueno está preocupado com o fato de que sua retirada mensal caiu de 2,5 milhões para 1 milhão de reais — e fala-se em retirada porque é isto mesmo: não se trata de salário, e sim de retirada de “acionista” —, Pedro Bial está preocupado com o fato de que terá de divulgar anúncios, assim como Fátima Bernardes. Mas a Globo — leia-se os irmãos Roberto Irineu Marinho, José Roberto Marinho e João Roberto Marinho, que não fizeram retiradas em 2018 para a empresa publicar um balanço com lucro — está lutando, isto sim, pela sua sobrevivência como meio de comunicação e empresa. Como se trata de um grupo grande e poderoso, com faturamento gigante, quase não se compreende o que está, de fato, acontecendo (o que se capta de imediato é a queda de audiência — que, a rigor, não é um problema só da Vênus Platinada). Por isso, corre-se o risco de se perceber a crise de Davi, as afiliadas, mas não a de Golias, a rede.

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