Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crônica de um atropelamento anunciado (de uma diarista) na GO-20

L. saiu para trabalhar. Estava numa pequena ilha, esperando os carros passarem, para atravessar a rua. Foi atropelada e morreu

A máscara de L., caída na rua | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

L. saiu de casa para trabalhar na quinta-feira, 8. Pegou um ônibus e desceu nas proximidades da GO-020. L. estava numa ilha estreita, ao lado de um posto de combustível. L. não sabia o que estava acontecendo às suas costas, numa pista construída pela Agetop, no governo anterior.

L. era diarista e prestava serviço numa casa do Housing Flamboyant. Um pedreiro, que trabalha no condomínio, relata que era uma mulher educada, uma trabalhadora.

Um corpo na rua, o de L., uma diarista que ia para o trabalho | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

L. não contava, porém, que às suas costas havia um motorista dirigindo em alta velocidade. O homem dirigia uma Mercedes e, segundo outro motorista, estava correndo muito. Possivelmente para não bater no carro à frente, o motorista da Mercedes desviou o automóvel e atingiu em cheio a diarista.

L. estava perto de um poste, preparando-se para atravessar a rua. Avaliava certamente que, na ilha, estava protegida do tráfego veloz e furioso. Não estava.

O motorista da Mercedes bateu em L. e jogou-a no meio da pista da Avenida Alphaville, onde tem uma rotatória. Morreu no local. A três metros do corpo, ficou parte da frente do veículo – o símbolo da empresa, a estrela.

O cinegrafista solitário filma o corpo solitário da mulher atropelada | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O automóvel que serviu de “arma” para matar L. é de origem alemã, da terra de Goethe. O motorista não é, por certo, um selvagem. Mas comportou-se de maneira desumana. Atropelou L. e fugiu. Pego pela Polícia Militar – que atuou de maneira eficiente no caso –, se recusou a fazer o teste do bafômetro. Parecia bêbado? Há versões diferentes.

A área onde L. foi atropelada é um espaço aberto para novos atropelamentos. A Agetop (na gestão do governo anterior; o Jornal Opção chegou a alertar sobre o problema, mas os obreiros fazem o que querem) construiu uma pista paralela à outra pista, com o objetivo de facilitar o tráfego para automóveis (a prefeitura chegou a fechá-la, mas, sob pressão de moradores que têm carros, reabriu-a). Mas esqueceu que centenas de indivíduos que não têm veículos andam pelo local. São trabalhadores – pedreiros, serventes de pedreiros, frentistas dos dois postos de combustíveis, vigilantes, empregadas domésticas – e moradores dos condomínios que se arriscam a fazer caminhadas (ou compras) pela região. Eles correm perigo diariamente, tentando atravessar as “ruas”, driblando os automóveis de motoristas que têm pressa, muita pressa.

L. deixa a família, que, por causa da pandemia do novo coronavírus, terá de enterrá-la com escassa presença de familiares e amigos.

Perto de seu corpo, uma máscara de cor preta – cor do luto no Brasil – parece indicar o seu destino. Já o motorista contratará um advogado de renome e, certamente, responderá ao processo em liberdade. Dirão, ele e o advogado, que se trata, o “crime”, de homicídio culposo, quer dizer, não houve intenção de matar.

L. morreu. Como diz a música de Chico Buarque, atrapalhando o trânsito.

Vale ouvir a música Construção, de Chico Buarque

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