Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crítica de Lobão é necessária mas polemista erra ao comparar bolsonarismo com nazismo

Simplificar Jair Bolsonaro, para aproximá-lo de Hitler, não permite a compreensão de que autoritarismo não é sinônimo de totalitarismo

Sapatos de vítimas do nazismo num campo de concentração: 6 milhões de judeus foram assassinados em Auschwitz, Treblinka, Sobibor e outros campos de extermínio: a história da violência na Segunda Guerra Mundial não é brincadeira | Foto: Reprodução

Adolf Hitler assumiu o comando da Alemanha, em 1933, com o apoio das elites e sem golpe de Estado. Rapidamente, porém, se assenhorou do poder, tornando-se ditador. Todos aqueles que não eram aliados foram considerados inimigos — mais do que adversários — e, se não saíssem do país, eram assassinados ou presos em campos de concentração. Em 1939, ante a passividade da Inglaterra e da França — que não souberam (ou não quiserem) interpretar corretamente o político austríaco —, tropas alemãs invadiram a Polônia e começou aquela que chamamos de Segunda Guerra Mundial, que durou até 1945. Durante boa parte do tempo, ao menos até 1943, os nazistas superaram os Aliados. Mas, aos poucos, a entrada dos soviéticos e dos americanos na batalha desequilibrou o jogo para os que lutavam pela democracia.

A vitória da democracia estabilizou a política internacional e, 74 anos depois, não se fala em Terceira Guerra Mundial. Há guerras localizadas, mas uma batalha global, embora não seja impossível, é muito mais difícil. O legado negativo da Segunda Guerra Mundial merece ser lembrado diariamente, e não só por aqueles que apreciam história. Historiadores relatam que morreram 55 milhões (fala-se até em 80 milhões) militares e civis durante as batalhas. Cerca de 25 milhões de soviéticos pereceram. Na China perderam a vida 13,5 milhões de indivíduos. Estima-se que 6 milhões de judeus foram assassinados nos campos de concentração e extermínio, sobretudo em Auschwitz-Birkenau e Treblinka, instalados na Polônia. Além dos judeus, Hitler mandou matar ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais e adversários políticos (socialistas, comunistas; aliás, bastava não comungar com as ideias nazistas para serem apontados como inimigos. Vários religiosos, católicos e protestantes, foram mortos).

Garoto brinca com seu bicho de pelúcia na Londres bombardeada pelos nazistas | Foto: Reprodução

Hitler e os nazistas — Joseph Goebbels, Heinrich Himmler e Hermann Goering — queriam controlar a Europa e, certamente, o mundo. Invadiram alguns países, como a União Soviética, a França e a Holanda, e massacraram milhares de pessoas. Por onde passavam, dinamitavam a democracia (exceto na terra de Stálin, que não era democrática). O regime construído por Hitler era totalitário — não permitia partidos, vicejava só o Partido Nazista, e a liberdade era um artigo proibido. Aos Aliados não restava outro caminho a não ser destruir por completo o nazismo — o que fizeram. Hitler, Goebbels, Himmler e Goering se mataram, mas vários nazistas foram julgados e condenados em Nuremberg. Outros foram julgados mais tarde, quando capturados. Vários nazistas fugiram para a América do Sul e alguns deles — Mengele, médico em Auschwitz, Gustav Franz Wagner e Franz Stangl — viveram no Brasil. Adolf Eichmann e Klaus Barbie moraram, respectivamente, na Argentina e na Bolívia.

O nazismo pode ser comparado ao stalinismo de Ióssif Stálin, na União Soviética. Em vinte e nove anos de poder absoluto, Stálin mandou matar de 25 milhões a 30 milhões de pessoas — muitas delas, sobretudo na Ucrânia (história descrita com mestria no livro “A Fome Vermelha — A Guerra de Stálin na Ucrânia”, da historiadora americana Anne Applebaum), de fome. O totalitarismo alemão e o totalitarismo soviético são parecidos — ainda que não iguais (Hannah Arendt rastreia a questão no livro “Origens do Totalitarismo — Antissemitismo, Imperialismo e Totalitarismo”). São irmãos. Mas há uma tendência a comparar regimes autoritários e até políticos autoritários com o nazifascismo. Trata-se de um equívoco.

Jovem russo libertado do campo de concentração de Dachau, na Alemanha: magro e doente | Foto: Reprodução

A ditadura civil-militar que comandou o Brasil de 1964 a 1985 — um período de 21 anos —, com governantes, generais, que se revezavam no poder, era autoritária, mas não totalitária. Há uma tendência a percebê-la como totalitária dado o combate letal que deu aos movimentos guerrilheiros. Na verdade, as duas correntes queriam se excluir, ou melhor, se destruir. Eram duas vocações autoritárias batalhando pelo fim da outra. Os integrantes das guerrilhas não lutavam pela democracia — como apregoam hoje —, e sim pela implantação de uma ditadura comunista no Brasil (por sinal, as ditaduras comunistas são totalitárias — e não meramente autoritárias). Como era autoritária, e não totalitária, a ditadura patropi permitiu a existência de uma oposição firme e crítica, instalada no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Com o AI-5, o regime civil-militar aproximou-se do totalitarismo, mas, ainda assim, não era totalitário, porque, embora submetida, a oposição continuava ali, firme e, no limite, crítica. Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, ainda que moderados, não arredaram pé da trincheira democrática. A luta democrática, no período militar, é subestimada pela historiografia — que se concentra, em larga medida, na luta guerrilheira, como se fosse mais importante.

Judeus sendo deportados durante a Segunda Guerra Mundial: milhares foram assassinados pelos nazistas nos e fora dos campos de concentração e extermínio | Foto: Reprodução

Corte para João Luiz Woerdenbag Filho, de 62 anos. Trata-se do cantor, compositor, músico e escritor Lobão — um homem inteligente e, sobretudo, polêmico. A impressão que se tem é que quer “causar”, ou, noutras palavras, exagerar para chamar a atenção do público — parte insensível em meio a tanto entretenimento na internet e na televisão — e levá-lo a discutir questões que avalia como cruciais.

Lobão adora política e começou, por militar na direita — uma direita que se aproxima de um liberalismo anárquico —, próximo de Jair Bolsonaro, quando o ex-líder do PSL nem era presidente da República.

De companheiro de jornada, sobretudo porque precisava de aliados para combater a esquerda ortodoxa e militante, Lobão se tornou adversário de Bolsonaro, dos três mosqueteiros (Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, filhos do presidente) e do eminência parda do bolsonarismo, o filósofo Olavo de Carvalho. Ao contrário do que apregoa a esquerda, o homem de Virginia não é nenhum néscio. O Olavo de Carvalho que xinga nas redes sociais é apenas uma faceta do filósofo — a de guia da direita que usa linguagem pesada para agregar e açular a militância.

O que parece incomodar Lobão, um artista, são os dois, digamos, fundamentalismos do governo de Bolsonaro. O primeiro “fundamentalismo” atua nos campos do comportamento e das artes e tem como figuras estelares Olavo de Carvalho — o José de Paris (o conselheiro do cardeal Richelieu) informal de Bolsonaro e filhos, uma espécie de quarto mosqueteiro —, Damares Alves, Ernesto Araújo e o núcleo da área cultural. O segundo “fundamentalismo” é o liberalismo chicagonista do ministro da Economia, Paulo Guedes. Bolsonaro alinha-se, pessoalmente, ao fundamentalismo de Damares Alves, Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho e aproxima-se do nacionalismo de alguns militares (tanto que, contrariando Paulo Guedes, reluta em privatizar o Banco do Brasil). Mas aceita, e não se sabe exatamente por quê — talvez porque o caixa do governo está mesmo baixo —, o liberalismo econômico de seu “primeiro-ministro”.

 

Lobão, cantor e músico, e Jair Bolsonaro, presidente da República: bandeiras da anticorrupção e da recuperação econômica podem levá-lo a obter um segundo mandato | Fotos: Reproduções

Ditadura e Lobão

A palavra apropriada nem é fundamentalismo, e sim conservadorismo. Há artistas que são conservadores, como o próprio Lobão, que não aceitam o que se pode chamar de “excessos” — daí o uso de fundamentalismo — do conservadorismo. O maestro Dante Mantovani, presidente da Funarte, disse, recentemente: “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”. Até o escritor alemão Thomas Mann — no seu romance “Doutor Fausto” um músico erudito faz um pacto com Lúcifer (uma metáfora para o nazismo) para se tornar uma grande estrela — ficaria estupefato com tal comentário, tão conspirativo quanto mal informado. Discípulo de Olavo de Carvalho, o maestro sustenta que agentes comunistas, infiltrados na CIA, distribuíram LSD para a garotada em Woodstock. Não é falso que agentes pró-cubanos e pró-soviéticos se infiltraram na CIA, mas o objetivo era roubar segredos políticos, militares e tecnológicos. Que tenham distribuído drogas em Woodstock é mais loucura do que teoria conspiratória.

As “ideias”, se ideias são, de Dante Mantovani são, mais do que panglossianas, lunáticas. Até Policarpo Quaresma, cujo nacionalismo era típico dos nefelibatas, ficaria perplexo com o palavreado desinformado do maestro. Lobão não se equivoca quando diz que ocupantes dos cargos de chefia na Educação e na Cultura “são pessoas fora de sync” (sincronia). Sim, a turma parece viver num mundo à parte, como se pudesse conviver só com “os escolhidos”, e não com todos os brasileiros. Bolsonaro é um realista, que nada tem de néscio, e é de surpreender que esteja se cercando de malucoides-belezas. Antes, pensava-se que tais malucoides circulavam tão-somente na esquerda. Mas, como a direita decidiu mostrar sua cara, percebe-se que tem uma turma que faria o dr. Pangloss — e até Voltaire — corar de vergonha.

Lobão, cantor e músico: críticas excessivas, longe de colaborar para enfraquecer o político analisado, podem fortalecê-lo | Foto: Reprodução

Ante o que parece o “caos”, Lobão, de um voluntarismo que beira à estupidade e o suspanto, diz que “será um prazer” derrubar o presidente Bolsonaro. Na verdade, o músico não tem como rasteirar o político, eleito pelo voto popular. O mais provável é que, se insistir com a exposição desmedida de Lula da Silva — ex-presidiário que pode se tornar presidiário pela segunda vez —, o PT pode contribuir para um segundo mandato de Bolsonaro. A bandeira da anticorrupção permanece enfeixada nas suas mãos e a economia começa a apresentar sinais de recuperação. É cedo para dizê-lo, mas Bolsonaro caminha — se um drummond poderoso não cair em seu caminho, uma pedra em forma de montanha — para um segundo mandato, a despeito das críticas de ex-aliados como Alexandre Frota e Lobão.

Se faz críticas pertinentes, como as dirigidas aos doidivanas da Cultura e da Educação, Lobão equivoca-se quando afirma que o bolsonarismo é, na verdade, um “bolsonazismo”. Sua frase-síntese: “Bolsonazismo é uma doença que assola o país”. Como sabem historiadores (e médicos, no caso do diagnóstico das doenças), a interpretação equivocada de um fato leva ao seu não-entendimento. O bolsonarismo é de direita e é autoritário — mas o governo não é autoritário; se fosse, não recuaria quando confrontado com a lei —, mas não é nazista, quer dizer, não é totalitário. (Leia acima sobre os “feitos” do nazismo real. O nazismo se tornou uma espécie de xingamento, mas não se aplica a Bolsonaro.)

A simplificação proposta por Lobão — autor de insights brilhantes — não contribui para o entendimento do caráter autoritário do grupo político de Bolsonaro. Pode-se dizer que os excessos verbais de Bolsonaro são equivalentes aos excessos verbais de Lobão. Quem quiser entender o bolsonarismo precisa despir-se de preconceitos e estudá-lo a fundo. Sugerir que remete a 1964, o atraso caracterizado como pós-atraso — tese do sociólogo Roberto Schwarz —, também não ajuda a entendê-lo. Fica-se com a impressão de que os intérpretes de Bolsonaro, quase todos de esquerda — exceto Lobão —, querem que ele seja mais conservador e atrasado (a pauta de Paulo Guedes mostra que o governo está atualizado — goste-se ou não dela) do que é. Para que, capturado por um rótulo, fique mais fácil combatê-lo. Mas o Bolsonaro que “segura” nas mãos, com firmeza, as bandeiras da anticorrupção — daí a presença de Sergio Moro no Ministério da Justiça — e da recuperação econômica, pelos quais têm sido avaliado pelos brasileiros que não se interessam pelo embate ideológico, é ignorado por seus críticos.

Com sua crítica insuficiente, porque incapaz de perceber nuances e por exceder no viés interpretativo, Lobão vai acabar se casando com a Vovozinha e colaborando para transformar Bolsonaro na Chapeuzinho Vermelho. O que é uma pena. Porque, insistamos, Lobão é extremamente perspicaz, criativo e inteligente. O problema é que sua crítica é, no mais das vezes, redutora.

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