Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crise do coronavírus desmonta parte do padrão Globo de qualidade da GloboNews

Mesmo assim, os programas jornalísticos do canal permanecem competentes, esclarecedores e posicionados

Marcelo Cosme: apresentador do “Em Pauta” | Foto: Reprodução

O padrão Globo de qualidade é um fato e influencia todas as outras redes, como a Record (que melhorou muito nos últimos anos), Band e, agora, CNN Brasil. Entretanto, devido à crise provocada pelo novo coronavírus, o padrão caiu um pouco, menos na TV Globo e mais na GloboNews.

Na semana passada, Marcelo Cosme, apresentador do excelente “Em Pauta” — a CNN Brasil ainda não firmou um programa que possa “fidelizar” telespectadores —, fez duas chamadas para repórteres que entrariam ao vivo — um deles Nilson Klava — e as imagens apareceram na tela, mas não o áudio. Os repórteres não ouviam o que Marcelo Cosme estava dizendo e, por isso, nada falaram. O âncora teve de pedir para retirar as imagens, constrangedoras, do ar.

Andréia Sadi: comentarista política | Foto: Reprodução

Noutro programa, o apresentador fez a chamada, o repórter apareceu e começou a falar, mas os telespectadores nada escutaram. Entrevistados da Globo News, os que estão em seus escritórios ou casas, aparecem no ar, mas as imagens são ruins, tremidas. Recentemente, uma médica e um psicólogo foram entrevistados por Heraldo Pereira. Quando mostrados, a médica apareceu colocando a mão na câmera, possivelmente do celular, como se estivesse tentando “enquadrar” sua imagem ou retirá-la do ar.

Pode ser diferente? Até pode. Mas, se nem a Globo, com toda a sua experiência, está conseguindo apresentar imagem e som de qualidade, imagine os demais. Mas, claro, não é hora de cobrar perfeição. A rigor, o jornalismo da Globo, notadamente da GloboNews, é de alta qualidade. Repórteres, âncoras e entrevistados fazem o possível — e até o impossível, daí as falhas — para esclarecer dúvidas sobre o novo coronavírus e informar à população sobre a evolução da doença no Brasil e no mundo.

Mônica Waldvogel: comentarista segura e precisa | Foto: Reprodução

Há quem critique o excesso de informações. E, de fato, a mídia está excedendo. Mas poderia ser diferente? Muito difícil, praticamente impossível. O assunto coronavírus — e a luta para tratar as pessoas, para não deixá-las morrer — se tornou assunto de “primeira necessidade”. É incontornável.

A mídia, como aprecia dizer o presidente Jair Bolsonaro, está fazendo um excelente trabalho. Há problemas pontuais, inclusive técnicos, mas nada que atrapalhe a qualidade básica das informações e análises.

Cientistas, epidemiologistas, infectologistas e demais médicos e especialistas brasileiros — muitos deles do setor público — também estão prestando um serviço preciso aos brasileiros. No GloboNews, uma especialista em saúde, Chrystina da Silva Barros, e a pneumologista Margareth Dalcolmo falam com tanta clareza e segurança que, se descuidar, o telespectador pode pensar que passaram a vida concedendo entrevistas para emissoras de televisão. Craques? É pouco para defini-las. São sensacionais.

Guga Chacra: um dos comentaristas mais populares da Globo News | Foto: Reprodução

Quatro comentários sobre a GloboNews

1 — O “Em Pauta” está competindo fortemente com o “Jornal Nacional”, ao menos em qualidade editorial, com a vantagem de que seus jornalistas (os comentaristas) ousam mais, sobretudo na interpretação dos fatos, e com uma variedade de opiniões que, em termos de Globo, surpreende. Mônica Waldvogel (cujo equilíbrio é sempre notável), Bete Pacheco, Gerson Camarotti, Eliane Cantanhêde, Guga Chacra, Ariel Palácios, Jorge Pontual, André Trigueiro, Demétrio Magnoli são comentaristas do primeiro time. Eles sabem do que estão falando e, principalmente, têm coragem de expor o que pensam — com rara firmeza. A Globo sempre foi moderada na exposição da opinião; agora, percebe-se que a opinião não é exatamente da rede, e sim dos profissionais — o que é altamente positivo, porque mostra a diversidade da intelligentsia global.

André Trigueiro: precisa ser mais bem explorado como comentarista | Foto: Reprodução

2 — André Trigueiro é visto, com razão, como um jornalista que se especializou em reportagens de meio ambiente. Mas ele é muito mais do que isto. É um dos jornalistas mais bem preparados da GloboNews, e em várias áreas, não apenas meio ambiente (que, a rigor, abrange tudo, ou quase). Ele é crítico, bem informado e posicionado. Seus comentários são pertinentes. Por sua incisividade bem informada, deveria ser mais bem aproveitado como comentarista.

Demétrio Magnoli: base intelectual sólida o ajuda a fazer comentários pertinentes sobre a política brasileira e internacional | Foto: Reprodução

3 — Falta à GloboNews a presença de um comentarista mais conservador. Demétrio Magnoli, um doutor da USP, não pertence à esquerda ortodoxa, e é um excelente comentarista — chega a corrigir, com elegância, informações desencontradas de colegas —, mas “enturmou-se” logo com o círculo dominante da casa, não exatamente por identificação ideológica, e sim por causa das fragilidades do governo do presidente Jair Bolsonaro. Vale a pena o atento diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, que certamente não é de esquerda e aprecia diversidade, pensar num comentarista, que, embora não seja uma toupeira bárbara, pense como liberal ou, mesmo, conservador (conservadores e liberais não são bestas feras e, sim, não pensam como Jair Bolsonaro, que pertence a uma direita brucutu e que, no fundo, fará um mal imenso, inclusive do ponto de vista eleitoral, à direita patropi).

Eliane Cantanhêde: segurança no comentário político | Foto: Reprodução

4 — Dada a crise do novo coronavírus, repórteres e comentaristas estão falando de suas casas. Pois bem: falam muito em livros digitais (aliás, nem 3% dos brasileiros leem livros digitais). Mas as bibliotecas de Jorge Pontual (talvez a mais charmosa), de Ariel Palácios (tão charmosa e, parece, tão caótica quanto a de Pontual), de Guga Chacra (mignon, pois o apartamento deve ser pequeno), Andréia Sadi (tem poucos livros, mas, aos 32 anos, é a caçula da turma), de Mônica Waldvogel, de Cristiana Lobo, de Eliane Cantanhêde e da notável Miriam Leitão (muito organizada, com os livros catalogados) contêm muitos livros físicos, impressos. O livro físico, segundo Robert Darnton e Umberto Eco, vai sobreviver. E muito bem, obrigado.

2 respostas para “Crise do coronavírus desmonta parte do padrão Globo de qualidade da GloboNews”

  1. LUCIA HELENA GÓIS disse:

    Magníficos, TODOS eles. ESTOU sentindo falta de Gerson Camarotti e Natuza Nery. Quando deixo as minhas obrigações de teletrabalho corro para a televisão e não vejo o tempo passar. Muito bom, deveria ser mais divulgado e a Globo poderia dá uma maior assistência, já que o Jornal Nacional vem se alimentando dos Comentários e das matérias deste timaço.

  2. Sandra disse:

    Avisem o apresentador Marcelo que : GATO ESCALDADO TEM MEDO DE ÁGUA FRIA!!!

    Fria e não quente!!

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