Crescimento e isolamento da ultradireita, de Trump a Bolsonaro

As ruas vão determinar os rumos dessa guerra às vezes declarada, às vezes submersa. O crime contra a vida de George Floyd traz à tona o tamanho da enfermidade

Halley Margon
Especial para o Jornal Opção
de Barcelona

O turista que passeia pela bem ajardinada Avenida Michigan de Chicago, que caminha pelas bem cuidadas ruas da cidade de Frank Lloyd Wright e circula de barco pelos canais ou pelo lago Michigan contemplando uma arquitetura paradigmática, quase nunca se depara com carros de polícia. Mas não parecem ser necessários. A sensação é de que a miséria e a violência foram banidas da cidade de Al Capone, e que ali agora é a ilha de Utopia imaginada por Thomas Morus (escrito em latim, Utopia foi publicado na Inglaterra há pouco mais de 500 anos, em 1516). Fascinado, deixará a cidade convencido de que assim é.

As grandes metrópoles do Ocidente encontraram modos e métodos de higienizar suas principais avenidas, seus centros históricos, suas vitrines. A indústria do turismo não para de crescer e os turistas viajam para encontrar o mundo encantado dos contos de fada. Longe das vitrines o que se vê é a face oposta e nunca revelada do encantamento. A discrepância varia de uma cidade a outra, de um país a outro, de um continente a outro. Em Barcelona, por exemplo, existe muito mais equilíbrio entre as diferentes zonas da cidade. Vivo aqui há dois anos e meio, vou e venho de alto a baixo, da montanha ao mar, do centro às bordas e nunca me deparei com áreas de fato degradadas e não integradas ao restante da cidade, radicalmente apartadas do resto.

George Floyd e seu assassino | Foto: Reprodução

Mas experimente se deslocar para os bairros onde vive a população negra no sul de Chicago, uma das mais ricas cidades dos Estados Unidos. Nem todas as metrópoles americanas são assim, tão guetizadas. Nova York, por exemplo, não é. Lá, a miséria é democrática e pode ser vista em tudo quanto é canto, em quase todas as linhas do metrô. Na Quinta Avenida, na Broadway e no Harlem ou no Bronx. Não está segregada. Isso sempre me dizia meu querido amigo e professor de inglês Deepak, que antes de ser convidado para dar aulas de literatura numa universidade de Chicago ensinava e vivia em Nova York. A mim soava um tanto estranho o quanto aquela segregação parecia incomodá-lo, até o momento em que voltei mais vezes à cidade de Spike Lee.

Sob Trump, por que se surpreender quando um representante da lei se ajoelha impassível sobre o pescoço de um prisioneiro rendido sufocando-o até a morte?

Crianças feridas — números, números

Apenas em 2015, aproximadamente 400 crianças foram feridas por armas de fogo em Chicago. Nos primeiros quatorze anos dos anos 2000, 7.356 pessoas foram assassinadas ali, 525 pessoas por ano. Para efeito de comparação, entre 2003 e 2011, morreram 4.424 soldados americanos na guerra do Iraque (491 por ano), para sabe-se lá quantos iraquianos — seguramente, a proporção não será desfavorável aos ocupantes estrangeiros, mas isso é outro assunto.

Esse extermínio selvagem de parte da população do país está se dando distante dos olhos e da boa consciência daqueles que passeiam entretidos pelas ruas de Chicago, e tanto quanto possível também dos seus cidadãos de bem, ou de todos aqueles que não o sofrem diretamente. Parece existir somente para os residentes dos guetos, os seres invisíveis da grande América. Os que são suas vítimas. São membros desse mesmo grupo censitário os quase dois milhões e meio de americanos que se encontram hoje enjaulados no sofisticado e em grande parte lucrativo sistema carcerário estadunidense — eram trezentos e poucos mil ao final dos agitados anos 60. Entre 1970 e 2014, enquanto a população geral do país crescia numa taxa de 56%, a população carcerária aumentava dez vez mais, ou seja, 544% (dados do documentário “A Décima Terceira Emenda”, 2016, de Ava DuVernay). Será uma platitude dizer que a grande maioria desses encarcerados é descendente dos que foram trazidos da África como escravos.

Sete mil trezentos e cinquenta e seis assassinatos (7.356) em menos de duas décadas. É mais de dez vezes o número de vítimas computadas nos midiáticos massacres perpetrados em todo os Estados Unidos em praticamente quase o mesmo período (7.356 em quatorze anos e 697 em dezenove anos respectivamente).

Talvez não seja apenas a invisibilidade (e embutida nela a cor e a condição social) dos que vivem e são mortos no sul de Chicago a única razão para que o massacre perpetrado ali tenha menos repercussão que todos os demais. Pode que seja também, por exemplo, a constância (e a banalidade) de um e a excepcionalidade (cada vez menor) de outro. Sim, pode.

Polícia e política

O corpo da polícia (e a forma como atua) não existe acima e à margem da sociedade e do Estado. Não é por acidente que atue com violência fria, desmedida e criminosa. Que se sinta impune para matar sem temer consequências. Ao final do documentário de DuVernay, rodado antes da eleição de Donald Trump, são mostrados cenas e discursos da campanha nos quais o então candidato se refere ao modo como os cidadãos negros eram tratados antes e agora. As palavras de Trump são exibidas simultaneamente a imagens onde manifestantes negros são expulsos e quase linchados em atos públicos da campanha republicana seguidas por imagens das agressões sofridas pelas gerações anteriores, nos idos dos anos 1960. No palanque, o republicano instiga a violência.

“Nos bons tempos isso (os protestos) não acontecia. Porque eles (os negros) eram tratados com dureza. E quando protestavam uma vez, não faziam de novo com facilidade. Sabem o que faziam com gente assim, quando estavam num lugar como este? Eram retirados numa maca. Assim é que era, nos bons tempos (os anos 1960, no sul dos Estados Unidos). A polícia era muito mais rápida. Eu sou o candidato da lei e da ordem. Lei e ordem.”

O candidato que pronunciou tais vitupérios se tornou presidente e concorre agora à reeleição. Pode ser que seja eleito para um segundo mandato, pois representa uma parte importante dos americanos, o que pensam e querem. Mas se isola a cada dia, ao menos moralmente. Assim parece. Nas manchetes dos principais jornais da Europa, a agressividade ritualística dos seus discursos e a violência policial do país que dirige ocupa o lugar de destaque que até agora pertencia à crise sanitária. Na Espanha será difícil ouvir vozes que não estejam perplexas frente ao crime da polícia de Minneapolis e abraçadas aos que ocupam as ruas para protestar.

Desde que tiveram início, as manifestações só fizeram crescer. Mas a única resposta do presidente é apelar aos mais radicalizados dos que constituem seu eleitorado, e prometer mais repressão, mais violência e a convocação das forças armadas para combater os inimigos internos — ou eventualmente eliminar esses supostos inimigos, já que é essa a função das forças armadas. Faz sentido, Trump parece estar em guerra contra seu próprio país. O estilo do brutamontes é inconfundível e deve agradar em muito ao público daqueles programas de luta livre nos quais os lutadores canhestramente fingem que lutam para uma fanática audiência disposta a acreditar que a palhaçada é na verdade a quintessência da realidade. (É um dos programas de maior audiência e sucesso da televisão americana. O mais popular deles tem três horas de duração e é transmitido desde 1993.) Quanto mais isolado mais furioso. Algumas cenas de “The Bunker” talvez lembrem o estado apoplético em que possivelmente se encontrava o comandante em chefe ao se lançar contra a suposta passividade dos subalternos: “Vocês têm que dominar a situação. Vão ficar aí parados como uns imbecis?”, esbravejou dirigindo-se aos governadores.

O que esperar da polícia do país cujo presidente emite mensagens nesse tom? Por que se surpreender quando um representante da lei e da ordem se ajoelha impassível sobre o pescoço de um prisioneiro rendido sufocando-o até a morte?

Martin Luther King e Malcolm X: ambos assassinados aos 39 anos de idade | Fotos: Reproduções

A volta ao passado — uma faca de dois gumes

O indigesto apelo de Trump pela volta ao passado pode estar se realizando, mas não apenas no sentido desejado por ele. Uma manchete do jornal “El País” no meio da semana anunciava: “Estados Unidos enfrentam a maior onda de protestos raciais desde o assassinato de Martin Luther King”. King foi morto em abril de 1968 — aos 39 anos. Pouco antes, duas outras lideranças negras americanas tinham sido também assassinadas, Malcom X, em 1965, e Medgar Evers, em junho de 1963.

Dois meses após o assassinato de Evers, o próprio King liderou aquela que ficou conhecida como a maior de todas as manifestações contra a segregação racial. A Marcha em Washington por Trabalho e Liberdade reuniu 300 mil pessoas e obrigou o Congresso Americano a aprovar a Lei dos Direitos Civis, já no ano seguinte, e a Lei do Direito de Voto, em 1965.

A hegemonia branca dos Estados Unidos estava em guerra contra o crescente movimento pelos direitos civis. Mas a resistência a essa ofensiva sem limites apenas cresceu. Uma significativa transformação censitária e o fortalecimento econômico da população negra acabou por produzir um fato histórico memorável, comemorado no mundo todo, a eleição de Barack Obama, em 2008. O registro dos primeiros negros nos Estados Unidos é de 1619. Tardaram, portanto, 400 anos até se permitirem eleger um presidente negro. Mas no substrato da alma americana está ainda muito distante o momento em que a repugnante chaga do racismo será definitivamente removida. Esse hediondo e covarde assassinato de um homem rendido no meio da rua e em plena luz do dia por quatro policiais é um escandaloso documento probatório.

Daqui para diante, as ruas é que vão determinar os rumos dessa guerra às vezes declarada, às vezes submersa. O crime contra a vida de George Floyd apenas traz à tona, de novo, o tamanho da enfermidade.

(Qualquer semelhança entre a arrogância autoritária de Trump nos Estados Unidos e seus imitadores de quinta categoria, sempre dispostos a se colocarem de joelhos frente ao guru, não será mera coincidência.)

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