Com deficiência visual, Tálita Azevedo se formou em Letras e fez mestrado no Cepae da UFG

Sua dissertação de mestrado é um belo trabalho, com pesquisa bibliográfica e empírica, que mostra que a educação pode ser para todos

Candice Marques de Lima

Especial para o Jornal Opção

Para escrever sobre a história de uma pessoa é preciso mais do que sensibilidade. É necessário que se trabalhe com a alteridade, isto é, ser capaz de reconhecer o outro como alguém ao mesmo tempo diferente. Mas não tão diferente que cause estranhamento. Um diferente próximo, aquele que somos capazes de reconhecer, como reconhecemos nossa imagem no espelho, mas que ao mesmo tempo nos traz interrogações e nos aponta suas singularidades.

Para nós videntes, que enxergamos o mundo especialmente pelos olhos, pensar sobre uma pessoa cega e sua forma de vida é uma atividade difícil e muitas vezes angustiante. O mundo das imagens é muito valorizado, os olhos e o olhar são constantemente requisitados para ver o que se passa. O que seria, então, a experiência de uma pessoa que passou grande parte da vida sem enxergar? Como vive esta pessoa? É possível viver sem ver?

Tálita Azevedo: mestre pela Universidade Federal de Goiás | Foto: Jornal Opção

A pessoa cega, especialmente nos mitos, é apresentada como quem vê além do comum. No vocabulário inclusivo, vidente é a pessoa que enxerga, diferentemente do cego. Mas na mitologia e em outras histórias alguns cegos eram videntes, isto é, podiam ver além, tinham um conhecimento sobrenatural tanto sobre o passado como sobre o futuro, como Tirésias, o cego da mitologia grega, que aparece em algumas histórias, por exemplo, no “Édipo Rei”, de Sófocles. Nesta peça, Tirésias é quem decifra o enigma da vida de Édipo. Afinal, quem era aquele que ocupava o trono de Tebas? O que ele trazia? O próprio Édipo fica cego ao reconhecer sua tragédia familiar. Ambos, ele e Tirésias, tornam-se cegos como forma de castigo.

Édipo furou os próprios olhos ao reconhecer que havia matado seu pai biológico e se casado e tido filhos com sua mãe, Jocasta. Tirésias foi castigado por Hera, esposa e irmã de Zeus, o deus supremo do Olimpo, por ter revelado sobre o prazer da mulher. Quando jovem, Tirésias viu duas cobras copulando e matou a serpente fêmea, assim tornou-se mulher. Sete anos depois, viu novamente a cópula das cobras e matou a serpente macho e, por isso, voltou a ser homem. Um dia, Zeus e Hera discutiam sobre quem tinha mais prazer sexual, o homem ou a mulher. Chamaram então Tirésias, que já tinha passado pelas duas experiências e sua resposta foi que a mulher tinha mais prazer. Hera, irada com a revelação do segredo feminino, deixou-o cego e Zeus, compadecido, deu-lhe o dom da vidência.

Freud e Lacan: inspirações | Foto: Reprodução

Na vida contemporânea, a experiência da pessoa com deficiência visual talvez não seja tão glamourosa como nos mitos. Há, sim, cegos que se sobressaem, como os cantores Steve Wonder e Andrea Boccelli, mas para a maioria estar no mundo é passar por situações no mínimo pitorescas até outras que mostram como a sociedade é despreparada para a inclusão.

Na concepção inclusiva, é a sociedade que se prepara e se adapta para a pessoa com deficiência. Assim, as barreiras arquitetônicas precisam ser revistas e devem ser criadas formas para que as pessoas, senão todas, mas a maioria, possam circular pela cidade, pelas escolas, hospitais, shopping centers com dignidade e de maneira idônea, sem precisarem de auxílio para se locomoverem e viverem, o que é denominado acessibilidade. Existem também as barreiras atitudinais, que talvez tenham uma complexidade maior, pois envolvem o que as pessoas pensam, sentem, como se comportam e se relacionam com as pessoas com deficiência.

Rinaldo Voltolini, professor da USP | Foto: Reprodução

O relato da vida de Tálita Azevedo, mulher negra e com deficiência visual, exprime tanto as idiossincrasias de uma vida quando olhada de perto quanto as adversidades, as experiências, os bons e os maus encontros que ela teve pela vida. No dia 8 de outubro de 2021, ela defendeu sua dissertação de mestrado, na pós-graduação do Cepae da Universidade Federal de Goiás.

Em seu trabalho, que trata sobre o estranhamento que as pessoas com deficiência podem causar no professor, Tálita recontou sua história escolar para mostrar que vivenciou situações paradoxais de inclusão e de exclusão, com professores que a acolheram, pois souberam, talvez intuitivamente, como transmitir conhecimento a ela. E outros que não a incluíram, possivelmente pela falta de uma formação que dê condições ao professor de trabalhar com alunos diversos.

Silvana Matias Freire, a orientadora | Foto: Reprodução

Em sua apresentação na defesa, Tálita disse que estava ali, terminando o mestrado profissional do Cepae, pois, embora tenha passado por situações escolares adversas, houve professores que a auxiliaram e a ensinaram. Escreveu um belo trabalho, com pesquisa bibliográfica e empírica, que mostra que a educação pode ser para todos.

A dissertação de Tálita foi escrita com referências da teoria psicanalítica, que utilizou para compreender a inclusão escolar, a subjetividade do professor e a formação docente. A mestre gosta tanto da teoria histórico-cultural, do psicólogo russo Lev Semenovitch Vygotsky — que escreveu nos anos de 1920 o Tratado de Defectologia, que a inspirou em seu trabalho de conclusão de curso em Letras Português, na Faculdade de Letras da UFG —, quanto da psicanálise, que a auxiliou na escrita da dissertação e que, segundo ela, a ajudou a entender várias questões.

Possivelmente, Tálita vai seguir os caminhos de Sigmund Freud, de Jacques Lacan, de Rinaldo Voltolini (referência bibliográfica que a inspirou na discussão sobre inclusão e formação de professores) e de Silvana Matias Freire, sua orientadora de mestrado, pelo percurso da psicanálise.

Candice Marques de Lima é professora da Universidade Federal de Goiás e doutoranda pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Uma resposta para “Com deficiência visual, Tálita Azevedo se formou em Letras e fez mestrado no Cepae da UFG”

  1. Avatar Michele Hobda disse:

    Maravilhoso trabalho. Parabéns a aluna pela coragem de falar sobre suas experiências.

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