Com açúcar, com afeto: uma carta a Chico Buarque

Sua música foi semeada no campo dos desejos humanos, demasiadamente humanos e, felizmente, brota

Caro Chico,

Cresci te ouvindo durante a infância, nessa compreensão incompreensível de quem ouve, insiste no que ouve, repete a agulha naquela faixa do vinil, cinco, dez vezes, mas não sabe o que exatamente toca, apunhala e acaricia. E ali, naquele lugar de aconchego e desespero, sua música me abraçava. Dois, três, quatro, cinco, seis anos de idade. Nasci em 1972, de pais clandestinos. Sua música era, para mim, o lar constante diante das casas alternadas, das mudanças irremediáveis, imprevisíveis, misteriosas e doloridas. Pedaço de mim é a minha (sim, ela é minha, aproprie-me dela, desculpe-me o atrevimento) música mais odiada porque não consigo ouvi-la sem lágrimas e dor no peito; sem que o mundo se desfaça e eu me perca nessas ruínas por um tempo incontável. Não te perdi na adolescência, embora a fúria poligâmica proporcionada pelos revoltosos hormônios fizessem minha alma e meu clitóris tremer por outros e outras. Qual o quê! Pouco importa. Você era o lar infantil que não tive, a constância na inconstância; mas nunca, penso agora, a previsibilidade. Você, quero dizer, sua música – mas também sua figura, sua imagem – era levada para todas as cidades, bairros e estados, esses lugares onde me sentia perdida, sem nome, sem norte e sem eixo.

Não fui educada, de modo algum, para ser esposa, recatada e do lar. Cresci no vazio imenso aberto entre um mundo por fazer, uma sociabilidade nova, revolucionária, libertadora e as censuras e castrações mas também as possibilidades desse mundo bem real, dolorosamente e excitantemente real. Cresci aberta, devo dizer, embora não saiba, até hoje, o que isso significa. Talvez essa fenda seja uma ferida. Talvez seja a fresta por onde se pode olhar o proibido. Cresci entre a imaginação fervilhante de larvas da arte, o devir utópico e as opressões de todo dia. Foi ali, nessa abertura, que você se instalou.

Falo excessivamente de mim querendo chegar, com açúcar, com afeto, à música, que, para minha tristeza, você afirmou: não mais cantará. Canto eu, irremediavelmente desafinada. Não vi o documentário sobre Nara Leão. Não vi ou ouvi, ainda, de sua boca, que não mais a cantará. Se a reportagem da Globo foi fidedigna às suas palavras, você teria dito que “não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim”. Se é isso mesmo, gostaria de lhe dizer como essa música aporta em mim, nesse ínfimo lugar, em minha abertura. Essa mulher que espera seu homem, essa mulher que lhe faz o doce preferido sabendo que o açúcar nada pode contra o apelo das peles coloridas das outras, essa mulher que sabe e prefere ignorar as inverdades desse homem, essa mulher sou eu. Também sou eu esse homem que sai de casa com seu melhor terno para a oficina. Sou esse homem que rememora e comemora nos bares das esquinas com os amigos provisórios dos copos de cerveja e discute futebol. Sou eu, ainda, esse homem que deseja as mulheres ociosas das praias, que canto bêbado e volto para casa, maltrapilho e maltratado, mamado, chumbado e atravessado, para ser acolhido por uma mulher que me quer e aceita. Sobretudo, sou esse homem que nada sabe de si, que ignora seu próprio desejo. Esses dois se encontram nesse lar onde uma permanece e o outro retorna. Se encontram no desencontro de seus desejos.

Não sei o que o feminismo tem a dizer sobre isso. Embora, creio, haja muitos feminismos. Mas sei que essas paixões, essas errâncias do desejo, essa inviabilidade do amor, isso não diz da opressão. Isso diz respeito e fala do fundo da alma humana, essa que é incontornavelmente contraditória, angustiantemente incompleta e bela em suas imperfeições. Sua música, meu caro amigo (permita-me tratá-lo assim) não está presa ao tempo das mulheres donas de casa, reféns dos maridos que dizem sustentá-las. Sua música foi semeada no campo dos desejos humanos, demasiadamente humanos e, felizmente, brota. Com o abraço da Ana Lucia Vilela

18 respostas para “Com açúcar, com afeto: uma carta a Chico Buarque”

  1. Avatar Telma disse:

    Lindo texto, falou por mim e por muitas outras mulheres, suponho, que ouvem essa músicas e se sentem humanizadas ao invés de objetificadas. Não, não é uma música machista. Não mesmo!

  2. Avatar Carlos Cerqueira disse:

    Ana Lúcia Vilela… Que lindo!!
    Não sou machista, nem feminista. Nasci em 1961. Na época não havia “lugar de fala” porém o respeito para com o outro era grande e verdadeiro.
    O machismo existia. Hoje tbem. Há homens intelectuais, negros (preto), brancos, amarelos, índios que são ultra machistas. Não creio que isso acabará.
    Sou um homem sensível que, como vc é tocado por esta linda música.
    Chico, meu caro, continue cantando esta música.

  3. Avatar Carlos Afro disse:

    Que sensibilidade Chicobuarquena! “Sei que nada será como antes” na mesma proporção de “que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”
    O resto brilha em poesia para catar no pó da estrada.

  4. Avatar Carlos Afro disse:

    Que sensibilidade Chicobuarquesna! “Sei que nada será como antes” na mesma proporção de “que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”
    O resto brilha em poesia para catar no pó da estrada.

  5. Avatar NOAra Maria de Resende e Castro disse:

    Lindo e emocionante texto. Sincero , fala de verdades dentro de nós , mulheres . Também cantei muito e com açúcar e com afeto!!! Ver a realidade não tira de mim a mulher que sou e que muitas vezes fui. Não tira de mim a paixão pelas “mulheres” cantadas por Chico Buarque.
    Não pare , Chico!

  6. Avatar Marcos disse:

    Essa música nos coloca de coração e mente feminínos.
    Mestre Chico, continue cantando o amor dessa forma.

  7. Avatar Luiz Veras disse:

    COM AÇÚCAR, COM AFETO

    Quando falamos em machismo é necessário antes entender o que é anacrônico. A profundidade vai além da violência doméstica, das imposições e assédio em qualquer sociedade. O casamento é uma instituição machista, véu, aliança, grinalda, igrejas e cartórios são comprovantes e atestados machistas, a família é o fundamento natural do machismo, as leis vigentes que praticamente protegem os agressores são uma festa na concepção do controle machista do estado. Precisamos decidir o quê, o que nós queremos, estamos atirando para todos os lados e apontando em todas as direções, pessoas extremamente machistas no seu cotidiano, acusando outras que, sequer sabem como foram educadas ou como estão educando seus filhos, metendo o dedo na cara do outro, tratando como se cada um de nós não fossemos machistas. Há sempre radicalismo na ponta de todo movimento e, a Infantaria é formada quase sempre por Juventude e ignorância, mas dependemos dela para que haja mudanças; contudo, há de haver no mínimo um ponto de reflexão sobre aquilo que é anacrônico, sobre o anacronismo social que toda e qualquer civilização convive e, jamais esquecer que a inclusão da escola, da educação através do estado seja o ponto central nessa discussão.

    Ah, Chico não, mas eu vou continuar cantando e tocando “Com Açúcar Com Afeto”.

    Luiz Veras

  8. Avatar Belanizia Alves disse:

    Que texto maravilhoso e elucidativo do ser humano. Aprendi um novo olhar sobre essa música que amo.

  9. Avatar Manoel disse:

    Lindo texto, falou e disse. Sou de 1955, e Minh a juventude passei ouvindo, cantando e tentando tocar as as músicas do Chico. Espero que não avancem na outra música Sem Açúcar. Salve Nos do grande Chico.

  10. Avatar Manoel Pires de Paiva disse:

    Lindo texto, falou e disse. Sou de 1955, e Minh a juventude passei ouvindo, cantando e tentando tocar as as músicas do Chico. Espero que não avancem na outra música Sem Açúcar. Salve Nos do grande Chico.

  11. Avatar Conceição disse:

    Pretensão minha, dizer ao autor de Com Açúcar e com Afeto,: Chico, que é Buarque de Holanda, sua obra é eterna. Sua atitude foi resposta a feministas? Quem são elas e de onde brotam? O retrato daquela mulher sofrida não será apagado da história e de suas mentes, elas são nossas mães, nossas avós e tias amadas. Será que acatar a censura é meio de resolver as desigualdades sociais? O que deixaremos para as futuras gerações? Um vazio? Pois cante com alma. Com açúcar e com afeto., Conceição.

  12. Avatar Elza milani lopes disse:

    Cantei muito e ainda canto hoje é uma das minhas preferidas do Chico.
    Continue cantando meu querido.
    Vc tem muita sensibilidade e consegue desnudar as emocoes femininas.
    Que bom que na minha juventude tinha um Chico.
    Pra nos emocionar

  13. Avatar Maria Aparecida Nogueira De Paula disse:

    Emocionante esse texto!!! Falou tudo, com Açúcar e com Afeto!!!

  14. Avatar LINDA disse:

    Acho que a sensibilidade do Chico ao compreender a alma feminina de forma tão profunda, e tocar em pontos raramente visto ou sentido pelos homens, escancara o machismo, abrindo os olhos de muitas mulheres, que nem tinham se dado conta da sua subserviência.

  15. Avatar paulo Batista disse:

    Chico Buarque você é o maior de todos , estas feministas estão completamente perdidas , desconhecem oque é lutar por direitos e o que é arte , com açúcar e com afeto , mulheres de Atenas , tua cantiga , todas são obras primas vindas de um dos maiores, se nao o maior compositor de todos os tempos . Quantas destas feministas votaram e defendem um presidente que disse : mulheres deviam ganhar menos que homens porque engravidam e outras pérolas depreciando as mulheres, com pessoas assim que elas deveriam se pronunciar e enaltecer o compositor , cantor que és .
    , sou seu admirador numero 1 .

  16. Avatar Avelino disse:

    Há que saber a diferença entre uma coisa e outra. Nem sempre se é preciso ser literal para definir alguma coisa. A alegoria geralmente te escancara muito mais contundentemente as verdades. Isso é “com açúcar, com afeto”. Ler nas entrelinhas…

  17. Avatar Cleusa Aparecida Moreira disse:

    Amava ouvir as músicas do Chico Buarque, era ingênua,
    Não analisava o conteúdo. Era jovem e lia livros das mil e uma noite. Queria mudar o mundo com meus moinhos de vento. Quebrei tanto a cara porque me ensinaram a respeitar os outros e esquecer de mim porque era assim e acabou. Mudei com muitas porradas. Mas tenho saudades do que fui. Hoje vejo as canções dele de outra forma.

  18. Avatar MOEMA RIBEIRO DE ABREU BARBOSA Moema disse:

    É um crime banir Com açúcar e com afeto, uma música encomendada a Chico por Nara Leão. Chico atendendo às recomendações de Nara magistralmente deu voz àquela mulher sofrida que encerrada em seu lar se ocupava das tarefas cotidianas e se sentia profundamente entristecida diante das infidelidades e pequenas mentiras conjugais. O lirismo e a verdade daquele sentimento feminino praticamente inédito na música brasileira são apaixonantes. Como apagar aquele instantâneo, aquela crônica tão doce e realista. É a pura realidade mais constante de uma época. Aquela terna alma-mulher exposta em suas chagas e submissa àquele amor que ela se nega a abdicar é sem dúvida uma obra de arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.