No Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, 17 de maio, dois clubes goianos, Goiás e Vila Nova, postaram em suas redes sociais uma arte com sua marca juntamente com as seis cores vibrantes da bandeira do orgulho gay, que se tornaram um símbolo de respeito à diversidade.

Uma agradável surpresa, diga-se, seja porque os clubes têm diretorias de tendência conservadora, seja porque estão localizados em um Estado também dos mais conservadores do País. A prova está nos comentários-resposta às postagens no Instagram e no Twitter.

Para quem lê a Constituição ou entende o básico de cidadania e de direitos humanos, a quantidade e a qualidade de comentários negativos são de causar náuseas, infelizmente. E não haverá notícia boa enquanto houver quem rebata – e, infelizmente, isso haverá também nesta postagem aqui – qualquer posição que nada mais peça que respeito a seres humanos.

Mas pelo menos há, em relação ao que foi publicado, notícias menos ruins – porque, de fato, não deixarão de ser ruins – para Goiás e Vila: comentários homofóbicos não são privilégio dos clubes – todas as agremiações que se posicionaram no dia 17 receberam uma enxurrada de reações adversas, com respostas como “lacração”, “respeito, mas não concordo(?)”, “tem que lutar é para ter um bom time”, “e da arbitragem, não vai falar nada?”, entre outras. Mas talvez nada supere um botafoguense que disse “ontem foi Dia do Gari e não vi o Botafogo se posicionando para homenagear a classe trabalhadora”.

Pessoas físicas ligadas ao futebol também fizeram suas postagens. O ex-goleiro Fernando Prass, maior lenda do Palmeiras na posição depois do pentacampeão Marcos – e também campeão goiano pelo Vila Nova em 2001 – clamou em suas redes pelo respeito, pelo fim dos cantos homofóbicos (que viraram notícia nacional no jogo Corinthians 1 x 1 São Paulo, gritados pela massa corintiana – a mesma torcida que execrou o técnico Cuca por uma condenação por abuso sexual na década de 80) e para que haja punições efetivas contra a discriminação e o preconceito. Prass virou “lacrador”, na boca dos militantes que só veem militância nos outros.

Como alguém com um número razoável de décadas de vida e de futebol, posso dizer que ainda menos ruim que isso é saber que a coisa já foi pior. E nem precisa ir tão longe no tempo: já em pleno século 21, a torcida do poderoso São Paulo tricampeão brasileiro de meados dos anos 2000 boicotava o meia Richarlyson na hora de gritar os nomes dos jogadores antes de a bola rolar. Por quê? Pelo fato de ele – peça fundamental nos três títulos nacionais seguidos do tricolor paulista (o único clube a conquistar esse feito depois da era Pelé) – parecer ter uma postura corporal menos máscula do que a de seus colegas de equipe. Mesmo jogando mais e se doando mais que a imensa maioria deles. Veja bem: gritar o nome de certo atleta “não pegava bem”, porque ele “parecia” gay. Isso pesava na balança mais do que seus desarmes, passes, assistências e gols.

Hoje, Richarlyson é comentarista do canal Sportv e se viu tranquilo para se assumir bissexual, o que fez há cerca de um ano. Disse não ter tomado a atitude como jogador porque “não queria ser pautado por causa da minha sexualidade”. Pois, mesmo sem ele querer, isso infelizmente ocorreu.

Estádio sempre foi palco de homofobia, a começar do principal grito ofensivo: “Ei, (juiz ou outro personagem), vai tomar no c…”. A torcida esmeraldina canta – e os alto-falantes da Serrinha ainda tocam – Choram as Rosas para provocar os vilanovenses, a quem chamam de “panetones”, em duas atitudes homofóbicas. Recebem de volta o grito “Pra frente, pra trás, na b… do Goiás!”. Já os atleticanos já provocaram os alviverdes com a música Mocinhas da Cidade – que foi executada até em programa esportivo local.

Prass, em sua postagem, faz o resumo sobre por que existe a data e por que ela é importante, especialmente por aqui: no mundo de hoje se mata e se morre, sim, por conta de orientação sexual, e o Brasil é campeão mundial em assassinato de pessoas LGBTQIA+.

E os mesmos que dizem que a violência mata todo mundo e que gay morre por ser gay é “papo de lacrador” são basicamente os mesmos que falam isso sem se ater aos dados, porque ideologicamente não lhes interessam. Assim como não se importam de saber, por exemplo que o Brasil teve, proporcionalmente, de três a quatro vezes mais mortes por Covid-19 do que a média dos demais países. No Brasil, a homofobia se tornou, como outras questões, também uma posição política – basta dar uma conferida no perfil de quem se incomoda com as declarações de clubes e atletas que se posicionam.

O caminho é longo para que haja respeito de verdade a todas as pessoas, independentemente de como ela se veste ou com quem ela se deita. Mas, para ver a metade cheia do copo, clubes de futebol colocando as cores do arco-íris em suas marcas e uniformes era algo impensável tempos atrás. Assim como era “normal” depoimentos falando que “bichas deviam morrer”.

O mundo muda, felizmente, nesse caso. E os clubes, inclusive Goiás e Vila Nova, estão fazendo sua parte. Merecem aplausos por isso, especialmente diante do quadro político-ideológico local. Ainda falta muito por fazer, mas avançar é necessário por um mundo mais digno para todos.