Euler de França Belém
Euler de França Belém

Choro de jornalista faz parte da luta por audiência?

Há coisas demais para ver e consumir tanto na televisão quanto na internet. Chorar pode comover e atrair pessoas para o jornalismo

Flávio Fachel chora e comove o público | Foto: Reprodução

Uma lenda diz que houve um tempo para um fato só se tornava fato se fosse noticiado pela TV Globo. A audiência da Vênus Platinada — se ainda é — era espantosa, com outra rede — o SBT — fazendo publicidade de que se orgulhava de ser a segunda colocada, a vice-campeã.

Os tempos mudaram e as pessoas hoje têm uma infinidade de coisas para ver — para jogar, se aprecia jogos — na televisão, no celular, na tela do computador. Há dezenas de canais, há a Netflix, há a Amazon Prime. As possibilidades de acesso a entretenimento, de primeira, segunda e últimas categorias, é praticamente infinita. “Pelados” sobrevivendo em uma floresta? Tem. Animais domésticos e selvagens em grande quantidade? Estão sobrando. Filmes de todos os tipos e de vários países? Há as pencas. Documentários sobre a Segunda Guerra Mundial? Há vários — alguns de qualidade, outras frágeis. Sexo explícito e paqueras? Os aplicativos estão cada vez mais ousados e eficientes? Esportes? É o que tem. Há plataformas que apresentam, entre outras coisas, grandes lutas de boxe — a sétima arte, também conhecida como nobre arte. Quer comprar centenas de bugigangas? Nada mais fácil. Sites chineses e brasileiros estão à disposição.

Natuza Nery: choro por causa da tragédia da pandemia | Foto: Reprodução

O resultado de tanta informação e tanto entretenimento, gestando uma era da dispersão, é que as audiências, até da Globo, despencaram. Hoje, é preciso lutar para manter ao menos parte dos telespectadores concentrada. Há apresentadores que, pouco antes de as emissoras abrirem espaço para os comerciais, clamam: “Não saia daí. A gente volta agorinha”. Não se sabe se o rogo funciona. Mas, de fato, os telespectadores assistem televisão e usam o celular para navegar. Ou então usam o controle remoto para verificar o que está acontecendo noutros canais. Se vê alguma coisa que avalia como interessante dificilmente volta à programação anterior.

Até pouco tempo, antes da dispersão da audiência, o telejornalismo era sisudo, de uma seriedade germânica. Os apresentadores pareciam homens de outros planetas — glaciais, imponentes. Raramente riam. Liam as notícias, no teleprompter, sem piscar e sem demonstrar emoções. Quando davam boa-noite, do outro lado, o telespectador respondia, súdito: “Boa noite”. Eram seres referenciais. Hoje, estão brincando, fazem piadas e passam sermões em presidentes, governadores e prefeitos. Eles se tornaram mais brasileiros, tropicalizados, e perderam a fleuma britânica, por assim dizer. O riso se tornou solto, mas há também o choro — amplamente liberado.

Guga Chacra: horando na televisão | Foto: Reprodução

O repórter conta uma história triste e o cinegrafista exibe o drama, dali a pouco todos estão chorando. Do repórter ao apresentador. O telespectador os acompanha. Dali a pouco o assunto é discutido no Facebook e no Twitter — também aos prantos. É possível que se um desavisado perguntar o motivo de todos estarem chorando, como se o mundo estivesse quase acabando, receberá como resposta algo mais ou menos assim: “Não sei exatamente. O que sei é que o apresentador da Globo estava chorando e, então, eu comecei a chorar também”.

Chorando na televisão e comovendo o público | Foto: Reprodução

Nada contra o choro, porque demonstra sentimento, humanidade, empatia. Chorar às vezes faz bem e indica que o jornalista está preocupado de fato com as pessoas. Mas o choro anda tão frequente na televisão patropi que é preciso suspeitar e, portanto, inquirir: seria uma estratégia de marketing para conseguir, manter e aumentar a audiência? Pode até que sim.

Mas é mais saudável acreditar que o jornalismo televisual está, finalmente, mais próximo das pessoas — lamentando suas tragédias e cobrando soluções para resolvê-las. Mas vale chorar um pouco menos e reportar um pouco mais. Por vezes, com o choro chega o excesso de opinião, não substanciada em análises qualificadas e reportagens embasadas. Portanto, cobremos: mais jornalismo e menos choralismo (nova modalidade do jornalismo tropiniquim).

(Friso que os jornalistas que aparecem chorando nas fotografias são sérios e qualificados. )

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