Choramos por você Argentina, mas continuamos precisando que compre de nós

Entre Brasil e Argentina só há competição no campo de futebol, na economia e na política o que há é necessidade de grande colaboração comercial e diplomática

Everaldo Leite

Especial para o Jornal Opção

Os problemas econômicos brasileiros são mais antigos que nós brasileiros do século 21. Eles são os mesmos desde o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). Por isso, vale pensar um pouco. O país que se industrializou, para substituir a dependência de bens importados e para deixar de ser uma nação agroexportadora, se tornou o quê? Será que se tornou competitivo? Será que realmente se globalizou? Que superou suas ineficiências históricas? Incluiu a massa urbanizada dentro da estrutura de produção? Deixou para trás a mácula da inflação? Abandonou o populismo econômico? Se tornou inovador? Elevou sua produtividade? O que parece é que, mesmo com todas as transformações sociais, infraestruturais e institucionais que nos reconfiguraram durante tantas décadas, os problemas econômicos essenciais continuam firmes e fortes — também feios, sujos e malvados — a nos desafiar intermitentemente. Temos poucas conquistas nas mãos, na verdade, e muito o que fazer, a começar pela crise atual.

Jair Bolsonaro e o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández: “A Argentina, grande parceira comercial, importa do Brasil quantidades expressivas de automóveis, peças, veículos de carga, pneus, tratores, motores” | Fotos: Reproduções

Ora, a conjuntura não está das melhores. A formação do PIB brasileiro hoje está abaixo do desempenho de 2012 e, apesar da baixa taxa básica de juros, a atividade econômica está demorando a reagir, consolidando uma taxa de desemprego significativa. O nível de consumo decresceu fortemente nos últimos anos, deixando de estimular o crescimento dos investimentos privados, enquanto que os investimentos do governo foram se tornando mais restritos em função do ajuste fiscal. Existe muita capacidade ociosa e o crescimento da produtividade se dá em poucos segmentos da economia, pelos motivos de sempre: educação insatisfatória e o grau pífio de inovação. A renda média do trabalhador, por consequência, se torna cada vez mais constrangedora, gerando uma propensão mínima à poupança. Uma ótima saída para nossa sociedade, seguindo os livros de macroeconomia, seria focar um bom tanto no comércio internacional, notadamente nas exportações.

Commodities e vantagem comparativa

Por esses dias, todavia, a nossa capacidade de competir no exterior continua concentrada na produção de commodities agrícolas e minerais, cujo valor adicionado é extremamente baixo. O valor adicionado é aquele que é acrescentado nos diversos momentos do processo de transformação dos produtos. Um rádio de pilha tem muito mais valor adicionado que um punhado de farelo de soja. Um automóvel com motor 1.0 tem muito mais valor adicionado que um contêiner cheio de pelotas de ferro (utilizadas para produzir o aço). Sem dúvida, uma cadeia produtiva que adiciona valor impacta positivamente o resultado do PIB e gera muitos empregos e salários melhores. Mais trabalho e renda conduz a um maior nível de consumo. O maior nível de consumo estimula os investimentos. Maior produção melhora a saúde financeira do governo. Etc. Quando as exportações do país têm um peso extraordinariamente maior na produção de commodities agrícolas (grãos e carnes) e minerais (ferro, níquel, petróleo etc.), como o Brasil, isto quer dizer que vende para o exterior pouco valor adicionado, ao mesmo tempo que concentra a sua renda — quer dizer, o dinheiro que entra vai para poucos bolsos.

Alberto Fernández, presidente recém-eleito da Argentina: opção para recuperar o país será entre realismo e populismo | Foto: Reprodução

Antes de alguém se dizer “indignado” digo primeiro que precisamos continuar investindo no mercado de commodities. Isto é evidente, atualmente é nossa imensa vantagem comparativa. Vantagem comparativa, em poucas palavras, é um proveito maior dos baixos custos para se produzir alguns produtos específicos, em cada país, destinados principalmente à exportação. A questão é que nossa vantagem comparativa sobre produtos primários, tão somente, nunca nos ajudará a sair de qualquer crise e, pior, nos manterá subdesenvolvidos para sempre. A China, Estados Unidos, Holanda, Argentina, Chile, Japão, Alemanha, México, Espanha e a Coreia do Sul são alguns dos nossos grandes parceiros comerciais e poucos são os que importam do Brasil produtos com maior valor adicionado. A Argentina, sem dúvida, é a nação que mais se interessa por esse tipo de bem, importando de nós quantidades expressivas de automóveis, peças, veículos de carga, pneus, tratores, motores etc. O Chile e o México também demandam um pouco desses mesmos produtos. Vendemos, ainda, alguns aviões e peças para os EUA e para o Japão. Mas, mesmo junto a esses últimos países, impera, muito à frente, a exportação de grãos, carnes e ferro.

De fato, se quisermos ter vantagens comparativas também em produtos de maior valor adicionado precisamos continuar levando a sério a Argentina como mercado estratégico. Se o país passa por uma forte crise isso impacta negativamente nossos próprios interesses de crescimento. Se ela vive um momento de grande inflação isso diminui substancialmente o poder de compra dos argentinos e o Brasil se prejudica. Nos últimos anos decresceu as suas importações de produtos brasileiros e nosso PIB foi menos beneficiado por essa diminuição. PIB menor, menos empregos, menos renda. Não conseguimos substituir facilmente um parceiro comercial que importa nossos produtos mais complexos, seja porque não temos ainda a competitividade necessária para enfrentar um mercado dominado por grandes players chineses, americanos e europeus, seja porque a realização de novos contratos não é algo tão automático assim. O que precisamos hoje é torcer para que uma nova política econômica faça a Argentina superar a situação incerta pela qual está passando. Nós choramos por você Argentina, mas precisamos que continue comprando de nós.

Uma colisão ideológica neste momento, entre líderes toscos dos dois países, seria o pior dos mundos se atingir o comércio. Entre Brasil e Argentina só há competição no campo de futebol, na economia e na política o que há é necessidade de grande colaboração comercial e diplomática. É lógico que, com a vitória da esquerda nas eleições argentinas, o risco de um populismo econômico empurrá-la para o fundo do poço aumenta de forma preocupante. O Brasil precisará se adaptar a essa péssima realidade se ela vier à luz, quer dizer, o nosso governo terá de se desdobrar para buscar novos acordos econômicos com outros países, mesmo que os resultados positivos cheguem num longíssimo prazo. Fazer crescer a produtividade e a competitividade continuará sendo um desafio colossal para o Brasil durante muitos anos, pois depende fortemente de mudanças estruturais e não somente conjunturais. Nossos produtos com maior valor adicionado carecem de inovação e o seu custo de produção e logística precisa sofrer uma queda determinante, para que os bens nacionais industrializados sejam atrativos e demandados. Isso, por enquanto, reside no mundo dos sonhos.

Se estamos em rota de colisão isto ainda não se sabe, dependerá de nossa disposição política em enfrentar uma crise ainda maior. Duvido que iremos por esse caminho. O Mercosul tem problemas sérios para se tornar um verdadeiro bloco econômico e as soluções ainda devem ser pontuais, pautadas em acordos bilaterais que apontem um horizonte vantajoso para ambas as partes. Evitar a colisão e, melhor ainda, estimular boas práticas de política econômica no país vizinho poderia gerar uma nova ambiência e promover bons objetivos conjuntos. Depende dele também, é claro. O certo é que o processo econômico, este sim, independe das ideologias que marcam a política dos países, do contrário EUA e China não fariam comércio entre eles. Se existem fronteiras — físicas e ideológicas — e se no mundo real não há verdadeira liberdade comercial, que a política de países como o Brasil e a Argentina seja ao menos a do bom acordo pragmático, da cooperação que sempre incentivou as cadeias globais de produção. Se os líderes dos dois países entenderem isso já poderemos começar, como fizeram os países asiáticos, a querer ser mais produtivos e competitivos em segmentos com maior valor adicionado.

Everaldo Leite é economista e colaborador do Jornal Opção.

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Julio Paschoal

Muito bom artigo, retratou o cenário real da política externa brasileira. Um grande produtor de commodities com lampejos de produtos de maior valor agregado. Parceiros para produtos primários temos muito, mas com valor agregado poucos, dos quais a Argentina. Como disse muito bem o autor somos e devemos ser adversários apenas no futebol.