Euler de França Belém
Euler de França Belém

Chile é estável e rico porque direita e esquerda são democráticas e adeptas da economia de mercado

Jared Diamond, professor da Universidade da Califórnia, observa que o país sul-americano soube estabelecer um regime de compromisso tolerante

Em 11 de setembro de 1973, militares chilenos derrubaram o presidente Salvador Allende, que se matou. Apesar do apoio dos Estados Unidos, “o golpe”, anota Jared Diamond (no livro “Reviravolta — Como Indivíduos e Nações Bem-Sucedidas se Recuperam das Crises”, Record, 502 páginas, tradução de Alessandra Bonrruquer), “foi executado pelos próprios chilenos, e não pela agência” (a CIA). Curiosamente,  Augusto José Ramón Pinochet Ugarte não era visto como o general adequado para liderar o golpe. A CIA o considerava “inofensivo”. “[Os militares] Escolheram Pinochet como líder inicial principalmente porque ele era o mais velho.” O militar sugeriu que a liderança seria rotativa — ao estilo da ditadura brasileira.

Livro do ganhador do Prêmio Pulitzer postula que a estabilidade do Chile tem a ver com sua tolerância política e a defesa da economia de mercado

De repente, Pinochet mudou de ideia e criou um serviço secreto — a Dina — para torná-lo ainda mais poderoso, inclusive contra militares. A surpresa foi geral, interna (a junta militar) e externamente (o governo americano) — inclusive a respeito do sadismo do general (registra-se que cerca de 3.200 pessoas foram assassinadas pelo regime e 100 mil chilenos foram para o exílio). Jared Diamond afirma que o militar é, mesmo hoje, “um enigma”.

Se havia uma crueldade sistêmica, atípica no Chile, Pinochet decidiu “reconstruir a economia de mercado”. Sobretudo depois de 1975, o ditador-presidente — que, como o presidente Jair Bolsonaro, não entendia de economia —, repassou o gerenciamento da economia para os chicago-boys, especialistas que haviam estudado com o economista Milton Friedman, na Universidade de Chicago. “Suas políticas enfatizavam a livre empresa, o livre comércio, a orientação para o mercado, o equilíbrio orçamentário, a baixa inflação, a modernização das empresas e a redução da intervenção governamental”, assinala Jared Diamond.

Pinochet e Salvador Allende: os aliados que se tornaram adversários | Foto: Reprodução

Milton Friedman esteve no Chile, em 1975, mas não se entusiasmou com Pinochet. Jared Diamond nota que as ideias dos chicago-boys eram similares mas não idênticas às do economista americano. O general pode ter aderido às ideias liberais por tê-las identificado ao governo dos Estados Unidos. O governo americano havia retomado “os empréstimos ao Chile imediatamente após o golpe”.

Há uma tradição nacionalista entre militares, mas Pinochet aceitou, de cara, “a reprivatização de centenas de empresas nacionalizadas (mas não as mineradoras de cobre) por Allende; a redução do déficit público através de cortes generalizados de 15% a 25% no orçamento de todos os departamentos governamentais; a redução das tarifas médias de importação de 120% para 10%; e a abertura da economia chilena à competição internacional”. A inflação anual caiu de 600% para 9% e “a economia cresceu quase 10% ao ano. Os investimentos externos aumentaram, o consumo disparou e as exportações se expandiram e se diversificaram”.

Pinochet e Henry Kissinger: o ditador, como aliado, devia ser “perdoado” | Foto: Reprodução

Mesmo a ditadura sendo cruenta, os Estados Unidos apoiaram Pinochet. “Por mais desagradáveis que sejam as ações [da junta], esse governo [ou seja, Pinochet] é melhor para nós do que o de Allende”, disse Henry Kissinger, na época secretário de Estado. Os americanos ficaram, porém, chocados quando soldados do Chile atearam fogo no adolescente chileno Rodrigo Rojas, “que era residente legal nos Estados Unidos”. A retração econômica do país, entre 1982 e 1984, preocupou o governo de Ronald Reagan e, sobretudo, os chilenos.

Em 1984, a economia melhorou, mas a esquerda ficou mais forte, a Igreja Católica se tornou crítica do governo e militares começaram a demonstrar insatisfação. Jared Diamond ressalva que, para os Estados Unidos, Pinochet “tornara-se um risco para seus interesses políticos”.

Michelle Bachelet, de esquerda: primeira presidente mulher do Chile | Foto: Reprodução

Em 1988, um plebiscito, com o objetivo de estender ou não o mandato de Pinochet, disse “Não!” ao ditador: 58% contra 42%. Pinochet cogitou “negar” o resultado, mas a junta militar decidiu acatá-lo.

Os promotores do “Não!” estavam organizados em 17 grupos. Mas a esquerda estava escolada, tanto pelos equívocos de Allende, em 1973, quanto porque os exilados viram os resultados (falta de liberdade e colapso econômico) do comunismo na União Soviética-Leste Europeu e não ficaram satisfeitos. “Eles descobriram que esquerdistas não precisavam ser radicais e intransigentes, podendo atingir muitos de seus objetivos através da negociação e do compromisso com pessoas com diferentes visões políticas.”

O primeiro presidente eleito depois de Pinochet, o democrata-cristão Patricio Aylwin, tinha como objetivo “um Chile para todos os chilenos”. Ele assumiu em 12 de março de 1990.

Sebastián Piñera, de direita: defensor do regime democrático | Foto: Divulgação/Facebook

O centro e a esquerda se uniram e criaram a aliança eleitoral Concertación, que venceu as primeiras quatro eleições presidenciais — em 1990, 1993, 2000 e 2006. Os dois primeiros presidentes, Patricio Aylwin e Eduardo Frei Jr., eram democratas-cristãos. Depois, assumiram os socialistas Ricardo Lagos e Michelle Bachelet (recentemente criticada, de maneira nada diplomática, por Jair Bolsonaro).

Na eleição de 2010, a Concertación perdeu para o candidato de direita, Sebastián Piñera. Bachelet voltou em 2014 e, em 2018, Piñera retornou à Presidência. Esquerda e direita revezam-se no poder. Jared Diamond postula que o país se mantém, com qualquer corrente ideológica no poder, estável. Trata-se de uma mudança seletiva, nota o pesquisador: “A disposição para a tolerância, o compromisso e a partilha e alternância de poder”. Não se fala em golpe.

Lucía (mulher do ditador), Pinochet, Lucía e Margaret Thatcher: no governo do general chileno  3.200 pessoas foram assassinadas | Foto: Reprodução

Jared Diamond sublinha que qualquer que seja o governo não se muda a política econômica. “Os novos governos deram continuidade à maioria das políticas de livre mercado de Pinochet, vistas como amplamente benéficas no longo prazo. Na verdade, as levaram ainda mais longe, reduzindo tarifas de importação a uma média de somente 3% em 2007, as menores do mundo. Acordos de livre comércio foram assinados com os Estados Unidos e a União Europeia”, anota o professor da Universidade da Califórnia. O governo, mesmo aceitando as políticas liberais, decidiu investir em programas sociais e reformou as leis trabalhistas.

Tanto nos governos de esquerda quanto de direita, frisa Jared Diamond, “a economia cresce a uma taxa impressionante e o país é o líder econômico da América Latina. A renda média chilena correspondia a somente 19% da renda média americana em 1975; essa proporção subiu para 44% no ano 2000. (…) As taxas de inflação são baixas, o Estado de Direito é forte, os direitos de propriedade são assegurados e a corrupção generalizada diminuiu”. O investimento estrangeiro duplicou.

Apesar de a qualidade de vida ter melhorado, Jared Diamond registra que “a desigualdade econômica permanece alta, a mobilidade socioeconômica é baixa e o Chile continua a ser uma terra de contrastes entre riqueza e pobreza”. O doutor em geografia ressalva que “a porcentagem de chilenos vivendo abaixo da linha da pobreza caiu de 24% no último ano de Pinochet no poder para somente 5% em 2003”.

Corrupção de Pinochet

Os líderes políticos do Chile, como no Brasil, fizeram um acordão com os militares (até hoje, apesar da estabilidade, teme-se os homens de farda). Mas a conciliação durou apenas por certo tempo. Quando o “Senado dos Estados Unidos revelou que Pinochet mantinha 30 milhões de dólares depositados em 125 contas americanas secretas” até a direita ficou chocada. “O Supremo Tribunal do Chile o destituiu de sua imunidade de que gozava como senador vitalício. A autoridade fiscal o processou por apresentar falsas declarações de renda.” Depois, foi posto em prisão domiciliar. O ditador morreu, aos 91 anos, em 2006. Em seguida, torturadores e assassinos políticos foram processados e presos, inclusive o general Manuel Contreras, diretor da Dina, que foi condenado a 526 anos de prisão.

Manuel Contreras, diretor da Dina, o violento serviço secreto do Chile

No final do capítulo de 35 páginas, Jared Diamond discute por quais razões o Chile se mantém estável politicamente e com a economia em crescimento.

O scholar americano observa que a estabilidade global foi alcançada porque a retomada do governo democrático se deu ao mesmo tempo que “se manteve a economia de livre mercado introduzida pelos militares”. Jared Diamond chama isto de “mudança seletiva duradoura”.

Outra mudança seletiva “foi o fim da intransigente rejeição ao compromisso político que caracterizou a política nacional durante a maior parte da história recente do país”, percebe Jared Diamond. Amigos do pesquisador disseram-lhe, orgulhosos: “O Chile é muito diferente dos outros países latino-americanos; nós sabemos como governar”. Há um forte sentimento de identidade nacional — questão que não escapa à direita e à esquerda, que são realistas. O Chile, postula o ganhador do Prêmio Pulitzer de 1998, é “o mais rico e democrático país da América Latina”.

Parte do que queria Allende em 1973, a partir de uma visão marxista, os governos de direita e esquerda conseguiram articular, num processo mais evolutivo (pacífico) do que revolucionário: uma sociedade não inteiramente justa, porém mais justa. E sempre tolerante com suas diferenças político-ideológicas.

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