Euler de França Belém
Euler de França Belém

Caso de Andreas Richthofen sugere que usuário de drogas é um problema mais social do que policial

“Salvar” os que querem se salvar e deixar “livres” os que não querem ser tratados, porque preferem o prazer “imediato” à saúde “permanente”, são nortes prováveis

Andreas von Richthofen, ao ser encontrado em Santo Amaro, estava confuso e disse: “Não queira saber como é minha vida”

Quando a moral pura e simples cerca um assunto, vaticinando-lhe uma resposta única, a tendência é que seu entendimento escape, tornando-o mais escorregadio do que é. Há quem acredite que o consumo de drogas é um problema para a polícia resolver. No caso do narcotráfico, é. Mas, quando se trata de usuários — muitos deles, talvez a maioria, não envolvidos com criminalidade —, o problema é mais de saúde e, mesmo, cultural (até geracional). Combater o uso de drogas com polícia pode agradar algumas ou até muitas pessoas, mas não o resolve, se é que o problema tem solução. A lida com os usuários tem de ser acompanhada por médicos, psicólogos, assistentes sociais, antropólogos e sociólogos. Recuperá-los, se eles quiserem, exige um esforço multidisciplinar, com a participação, inclusive, de professores de artes plásticas, balé, música e literatura. Encontrar um atrativo que substitua a droga — que gera mais prazer do que dor — é um dos caminhos. A substituição de um prazer por outro.

Na semana passada, o doutor em química Andreas Albert von Richthofen, de 29 anos, foi encontrado, em Santo Amaro, confuso (estressado) e supostamente dopado. Ele é irmão de Suzane von Richthofen, que, ao lado de dois homens, comandou o assassinato dos pais e contribuiu para desorganizar a vida de Andreas. Apontado como brilhante por professores da USP, Andreas, possivelmente usuário de crack, disse: “Não queira saber como é minha vida”.

Andreas, um jovem rico, é um problema de polícia? Não é. Seu tratamento, como o de outros usuários, vivam ou não nas ruas, tem a ver só com a questão das drogas? Pelo que disse, não. Ele terá de aprender a lidar com sua história de vida, não para esquecê-la, o que não é possível, mas para suportá-la.

Na Cracolândia — a Terra do Crack, um território caótico, mas com suas “regras” — certamente há casos de indivíduos parecidos com Andreas. Com o uso da “moral”, podemos condená-los, mas não compreendê-los. Talvez nem seja possível entendê-los com precisão, mas, condená-los pura e simplesmente como aberrações e casos de polícia, só potencializa a incompreensão e a dificuldade de contato e apoio. “Salvar” os que querem se salvar, os que ainda podem ser “salvos”, e deixar “livres” os que não querem ser tratados, porque preferem o prazer “imediato” à saúde “permanente”, são nortes prováveis.

Filhos do Iluminismo, nós acreditamos que todos os problemas têm soluções, em geral científicas. Mas não têm. Uma sociedade sem drogas é tão inimaginável quanto uma sociedade perfeita. Portanto, trabalhar para que as drogas causem menos danos físicos — como os cerebrais —, orientando os usuários, sem excesso de pressão ou melodrama, é uma das saídas possíveis. Um trabalho preventivo, cuidar mais cedo, antes que quaisquer tratamentos sejam irreversíveis, é outro caminho.

Uma resposta para “Caso de Andreas Richthofen sugere que usuário de drogas é um problema mais social do que policial”

  1. Avatar Luciano Almeida disse:

    Finalmente alguém propõe uma abordagem racional sobre este problema. A adição de drogas é um ploblema de saúde física e mental e deve ser tratado nessa perspectiva.

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