Euler de França Belém
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Bolsonaro veta assinatura da “Folha de S. Paulo” e assina “O Popular”

O presidente da República está tratando o governo não como uma instituição, e sim como propriedade pessoal ao vetar a assinatura no jornal paulista

Luís Frias: presidente da “Folha de S. Paulo”, jornal vetado pelo presidente Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

O que há de comum entre a “Folha de S. Paulo” e o presidente Jair Bolsonaro? Pouca coisa. Ambos apoiaram a ditadura civil-militar. Os dois professam, ao menos em linhas gerais, ideias liberais (em economia, no caso do ex-líder do PSL). A “Folha” fez mea-culpa, como “O Globo”, e, quando a ditadura estava enfraquecida, deixou de apoiá-la. O que é a “Folha” hoje, para além dos xingamentos eventuais em blogs e redes sociais? Um jornal de qualidade, quase sempre objetivo e aberto a opiniões contrárias. Equivoca-se quando professa a ideia de que é “isento” e “independente”. Na verdade, pode-se falar mais em numa objetividade relativa e menos em independência e isenção. Os que tratam o jornal como “inimigo” de Bolsonaro erram mais do que acertam. A “Folha” faz um jornalismo crítico — o que nenhum governante aprecia —, o que é “confundido”, maliciosamente, com jornalismo oposicionista.

Jair Bolsonaro: confusão entre o pessoal e o institucional | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O tom crítico da “Folha”, assim como de “O Globo”, não agrada Bolsonaro — que parecer torcer por uma “jornalismo de adesão”. Mas o presidente comete um erro, até de caráter institucional, quando deixa de assinar a “Folha” e assina outros jornais da mesma qualidade e alguns de menor alcance. Bolsonaro está tratando o governo não como uma instituição, e sim como propriedade pessoal ao vetar a assinatura no jornal paulista. É falso o “argumento” de que a “Folha” publica fake news. O jornal pode até errar  — e, quando erra, se corrige, inclusive com a presença de um ombudsman na redação —, mas não publica notícias falsas.

Jaime Câmara, dirigente do Grupo Jaime Câmara: O Popular vai faturar R$ 9.313,20 por ano do governo federal; menos de mil reais por mês | Foto: Reprodução

O governo federal vai gastar anualmente 194 mil reais com assinaturas. “O Globo”, “O Estado de S. Paulo”, “Valor Econômico” foram mantidos. “O Popular”, de Goiás, vai receber R$ 9.313,20 por ano. Outros jornais beneficiados: “Estado de Minas”, “Correio Braziliense”, “Hoje em Dia”, “Diário Catarinense”, “Jornal do Comércio”, “Gazeta de Alagoas” (do senador Fernando Collor), “Tribuna do Norte”. A licitação, ao admitir a regionalização da imprensa, é apropriada. O equívoco é a exclusão da “Folha” por motivos políticos, quer dizer, por Bolsonaro não gostar do jornal numa estranha mistura entre questão pessoal e questão de Estado. Bolsonaro também autorizou assinatura digital do “Financial Times”, “Le Monde Diplomatique”, “New York Times”, “El País”, “The Wall Street Journal”.

Cadê a união articulada pela ANJ?

Se houvesse união, os donos de jornais deveriam responder: “Não queremos fazer assinatura para o governo nos próximos três anos”. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) mostra-se, no caso, decorativa. Tudo bem que os jornais busquem audiência, mas os valores pagos são baixos e não farão qualquer falta às empresas. “O Globo” vai receber R$ 17.671,20 e o “Estadão” R$ 19.184,40. Deveriam dizer “não” ao governo Bolsonaro. Mas, por certo, não dirão.

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