Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolsonaro não fez a defesa de Daniel Silveira porque o deputado se tornou um “cadáver vivo”

O brucutu, criação do bolsonarismo, integra as hostes de radicais desaforados, despreparados e sem a mínima noção de civilidade e da liturgia do poder

O Supremo Tribunal Federal determinou a prisão do deputado federal Daniel Silveira, do PSL do Rio Janeiro. Porque, ao ameaçar o STF, seus ministros, está ameaçando a democracia, um de seus três pilares.

Por mais que se questione a suposta mão pesada do Supremo, a prisão foi aprovada pela sociedade civil e pela sociedade política (a Câmara dos Deputados ratificou a prisão). A detenção de Daniel Silveira tem um caráter pedagógico. Ninguém — nem parlamentares — está acima das leis.

Ao defender o AI-5, que mandava prender e cassava parlamentares, Daniel Silveira — que talvez não seja, mas parece bronco — não percebeu que a democracia tem seus instrumentos legais para enfrentar aqueles que a combatem.

O presidente Jair Bolsonaro tem, dizem, um “carinho especial” por Daniel Silveira, dados a defesa destemperada que faz de seu governo e os ataques contundentes que desfere contra seus críticos. Noutros tempos, seria considerado um bate-pau. Hoje, há quem o considere um “miliciano” da política — o que talvez seja um exagero.

Entretanto, ao saber que seu pupilo proferira diatribes insensatas contra o Supremo, Bolsonaro teria lavado as mãos. Um aliado relatou à “Veja” que Bolsonaro teria dito: “Ele fez tudo de forma consciente. Que assuma”. A revista acrescenta: “Depois, o presidente atuou nos bastidores para tentar aliviar o brucutu na Câmara”.

O mais provável é que, no fundo, Bolsonaro nada fez para “salvar” a pele de seu incômodo aliado. No momento, o presidente está de lua de mel com a Câmara dos Deputados, dirigida por um aliado, Arthur Lira, e não está em guerra contra o Supremo. Ancorado num realismo recém-conquistado, não fez a defesa pública de Daniel Silveira, que, certamente, sentiu-me mal com o “abandono”.

Politicamente, Daniel Silveira se tornou um estorvo. Em linguagem chã, um “cadáver vivo”. Bolsonaro não fez sua defesa porque, na verdade, se trata de um caso indefensável.

Mas a questão é que Daniel Silveira, como tantos outros, é uma criação de Bolsonaro, ou do bolsonarismo. São os radicais desaforados, por vezes despreparados e sem a mínima noção de civilidade e da liturgia do poder. O presidente e seu grupo, dos tais gabinetes do ódio, criaram os monstros — como o general Golbery do Couto e Silva disse do Serviço Nacional de Informação (SNI) — e não podem, ou nem querem, controlá-los.

Fica a lição para os brucutus do bolsonarismo: às vezes terão de ser deixados na chapada — “insepultos” — para o presidente Bolsonaro sobreviver politicamente.

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