Euler de França Belém
Euler de França Belém

Bolsonaro é a origem do pacto faustiano entre a mídia e Lula da Silva

Jornais e emissoras de televisão se interessam pelas críticas de quem obtém repercussão nacional — é o ás do petismo

O presidente Jair Bolsonaro reinava praticamente sozinho no cenário político nacional. Paulo Guedes governa, como primeiro-ministro da Economia, e o ex-líder do PSL faz política — dialogando diretamente com a sociedade, sem usar como intermediários jornais e emissoras de televisão (está mais próximo da TV Record).

Bolsonaro reinava solitário porque não há líderes políticos nacionais consistentes. O governador João Doria (PSDB) é paulistano demais — talvez não chegue a ser paulista. O governador Wilson Witzel (PSC) tenta certo confronto com o presidente, para se firmar nacionalmente, mas é um político no máximo do Rio de Janeiro (e vai precisar muito do governo de Bolsonaro para governar). Luciano Huck (sem partido) é uma incógnita; é nacional como homem da televisão, mas não como político. Fernando Haddad (PT) é a Dilma Rousseff de saia. O governador Rui Costa (PT), ainda circunscrito à Bahia, poderia ser uma aposta do PT, se o partido não estivesse apostando em quem, politicamente, já (quase) morreu, e se tornou história. Ciro Gomes? Parece o irmão gêmeo do Brucutu e, por isso, não cola. No campo da esquerda, o petismo, mais consolidado (apesar do desgaste), é o drummond no seu caminho.

Lula da Silva finge que ama a mídia e a mídia finge ama o petista: objetivo comum é acossar o presidente Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

Pois, se não há um rival para Bolsonaro no plano nacional, é preciso inventá-lo ou reinventá-lo. Ou melhor, nem isto é preciso, porque ele está à mão. O pacto entre a mídia patropi e Lula da Silva é faustiano. Primeiro, porque o ex-presidente não aprecia a imprensa crítica — o que, por via diferente, o aproxima de Bolsonaro. Segundo, pelo menos na circunstância, a mídia precisa de um líder nacional e Lula da Silva necessita de espaço para se manifestar.

Lula da Silva trabalha para manter o PT sob seu comando, quase como se fosse o secretário-geral do partido — no estilo de Stálin (frise-se que, ao contrário do soviético, o político georgiano, o brasileiro é democrata, apesar dos arroubos autoritários) —, o que impede a renovação do partido. Rui Costa, por exemplo, “retirou-se” para a Bahia, depois de ter concedido entrevistas inteligentes e ponderadas. Então, Lula da Silva precisa da mídia para manter-se no imaginário das pessoas, em todo o país — continental —, e apresentar-se como o contraditório de Bolsonaro. A tática está dando certo: o petista-chefe não sai das páginas dos jornais e das telas da televisão — dando palpites inclusive sobre política econômica, como o comentário recente de que o PIB do país está “fragilizado”. Para discutir o assunto, os jornais informariam com mais qualidade se consultassem um economista qualificado. Mas é óbvio que nenhum economista daria a mesma “audiência” dos petardos do decano petista.

A mídia “precisa” de Lula da Silva para fazer um contraponto crítico com Bolsonaro porque o petista é um político nacional e ainda é popular. Suas críticas atingem todo o país, para o bem ou para o mal. Assim, quando abrem espaço para o ex-presidente, os jornais repercutem mais e, deste modo, incomodam o presidente.

Mas a relação de amor — no momento, mais de amor — e ódio entre Lula da Silva e a mídia não deve durar. Até porque o ex-presidente poderá ser condenado em outros processos e os jornais e as emissoras de rede de televisão terão de divulgar, até com certo estardalhaço. Recentemente, a Justiça, em segunda instância, reafirmou a condenação do petista, no processo do sítio de Atibaia, e aumentou sua pena.

Enquanto a Justiça não “tirar” Lula da Silva do palco, com nova prisão — cada vez mais difícil, devido a ação do Supremo Tribunal Federal que impede a prisão enquanto o processo não transitar em julgado —, a mídia vai usá-lo para criticar Bolsonaro e o petista vai usar a mídia para se apresentar ao país como crítico do governo federal. Curiosa ou sintomaticamente, o ex-presidente está apresentando críticas ponderadas — e inclusive se recusa a falar em impeachment de Bolsonaro (mas pondo o assunto na pauta — ao contrário de outros políticos, que nem o mencionam).

Com Lula da Silva em campo, a oposição parece mais viva e ativa. Tudo o que a mídia quer e precisa.

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