Euler de França Belém
Euler de França Belém

Boicote financeiro pode levar Facebook a reduzir espaço ao “discurso do ódio”

O Facebook apresenta-se como uma plataforma neutra, mas, se for vista como corresponsável pelo que divulga, pode adotar programas de filtragem mais eficientes

As redes sociais, como Facebook e Twitter, e certos aplicativos, como Instagram e WhatsApp, são ruas e praças digitais. Locais de manifestação pública — livres e, em tese, gratuitos. Lá, como na vida cotidiana, há de tudo um pouco — do bom, do ruim e do razoável. No sábado, 4, o “Último Segundo” publicou uma reportagem, “Grupos do Facebook têm mercado clandestino com venda de crânios e restos humanos”, na qual relata que um americano, de Washington, visitou a Tunísia e roubou, de um cemitério antigo, um crânio e decidiu comercializá-lo por quase 3 mil reais. “Restos mortais de bebês e crianças são particularmente populares” nos grupos virtuais da rede social. Mas o que está em discussão, no momento, é o “discurso do ódio” — em decorrência da extrema polarização política global.

Nas redes sociais, há ódios de todos os matizes. Direita e esquerda se engalfinham verbalmente e quem ficar no meio, tentando apresentar um argumento sensato — para abrir ou reabrir o diálogo —, também é virulentamente atacado. Os tidos como “isentões” são vituperados pelos extremistas. Não há críticas, estribadas em parâmetros, e sim ataques desmedidos — com adjetivos que nada dizem, como “canalha” e “idiota”. “Fascista” e “comunista” se tornaram termos “apreciados” como armas de combate, ainda que a precisão conceitual seja nenhuma. Criticou Bolsonaro é apontado como “comunista”. Quem ressalta que Bolsonaro não é “discípulo” de Hitler e Mussolini é tachado de “fascista”. Deixou de falar mal do PT é arrolado como “comunista”. A linguagem redutora deixa de compreender o fenômeno que se denuncia. Mas é o x da questão: não se quer entender — se quer combater e, até, destruir.

Mark Zuckerberg: o Facebook não é uma plataforma neutra e seu dono pode ser responsabilizado, inclusive judicialmente | Foto: Reprodução

Acompanhei alguns “debates” nas redes sobre a derrubadas de estátuas de pessoas que se tornaram “celebridades” da história. Parece democrático excluir de nossa frente aquilo que não aprovamos. Mas não é. É um brutal ataque à história eliminar aquilo de que discordamos. Entre as décadas de 1920 e 1940, o ditador soviético Ióssif Stálin exigiu que fotografias dos livros de história fossem retocadas para excluir os bolcheviques que deixaram de apoiá-lo. O ucraniano Liev Trotski foi literalmente varrido de cena. Pela ótica stalinista, não participara da Revolução Russa de 1917 nem do governo comunista. O que se está fazendo agora é semelhante. A verdadeira história só é completa quando inclui pensamentos e ações divergentes, mas, nos tempos conflagrados, o que se quer é uma história depurada, limpa. Entretanto, como o tema é politicamente correto, muitos, inclusive intelectuais respeitáveis, como Adam Hochschild — que escreveu um livro seminal sobre o rei belga Leopoldo, um dos homens mais cruéis da história —, não têm coragem de enfrentá-lo. Optando por apoiar os novos radicais, senhores da moral e dos costumes corretos.

Dois grandes homens, o diplomata Roger Casement (sobre o qual Mario Vargas Llosa escreveu um romance extraordinário, “O Sonho do Celta”) e o cientista inglês Allan Turing, foram “excluídos” da história. A serviço do Império Britânico, Casement denunciou, com vasta documentação, a brutalidade da colonização na África (no Congo) e na América do Sul (foi cônsul em Santos, no Brasil) — o que levou à criação de uma legislação (com impacto internacional). Era um defensor da liberdade. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ficou com sua Irlanda, portanto com a Alemanha e contra a Inglaterra, e foi condenado à morte. O fato de ser homossexual por certo potencializou a discriminação. Cientista brilhante, Turing contribuiu para decifrar o código secreto de comunicação da Alemanha e, assim, para derrotar a ditadura nazista de Adolf Hitler. Acabou perseguido, por ser homossexual, e se suicidou. Aos poucos, tanto Casement e Turing estão “voltando” à história — merecidamente.

A história não é o lugar só dos homens bons ou só dos homens maus. É a história de todos. Que cada um faça seus combates, que publique as críticas mais radicais — ou, se quiser, moderadas —, mas sem o direito de contar uma história que exclua a divergência.

Na questão do “discurso do ódio” é preciso ficar atento para não se tornar censor do que não se gosta. É preciso ter o máximo de cuidado para não confundir variações do pensamento, de esquerda ou de direita, com “discurso do ódio”.

O Facebook, assim como o Twitter, se tornou um espaço para guerras ideológicas e baixarias espantosas — com gente dita civilizada se comportando de maneira bárbara, incontrolável. O médico, de repente, vira monstro e começa a atacar oponentes e supostos rivais ideológicos, fechando todos os espaços ao diálogo e à civilidade. Várias pessoas estão deixando as redes sociais para não serem vítimas de ataques brutais dos que não se atêm as regras mínimas de educação.

É mesmo preciso conter o que está acontecendo? A cúpula do Facebook, com Mark Zuckerberg na linha de frente, fingia, até há pouco, que não tinha a nada a ver com as postagens acerbas. A rede social, em tese, é um ambiente de liberdade total — incontrolável.

A sociedade vem pressionando há tempos, Mark Zuckerberg promete mudanças, afirma que instituiu alguns filtros — de fato, algumas mensagens são bloqueadas —, mas nada faz de concreto e com certa magnitude para mediar ou conter excessos de usuários. Mas agora, com dezenas de empresas deixando de anunciar na plataforma, o empresário ficou preocupado. O boicote é por um mês, mas pode acabar se estendendo — um octógono neutro.

A direção do Facebook sugere que os anúncios retirados representam pouco na contabilidade geral, mas, mesmo assim, impactou na bolsa. Com o boicote da Coca-Cola, Starbuck, Unilever, Ford, Honda, Levi’s, Verizon Communications, Adidas, Puma, Microsoft, as ações caíram 8,3% — e a empresa desvalorizou-se em 59 bilhões de dólares. Acabou por se recuperar. Mas, se a moda pega, o Facebook pode até não quebrar, mas pode ficar abalado. No mundo digital, os gigantes costumam tombar quando estão no auge.

A Federação Mundial de Anunciantes (WFA) informa que mais de 400 empresas podem aderir ao boicote — todas pregando contra o discurso do ódio e a polarização excessiva das redes sociais.

A advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital, afirma que, “apesar de a internet ser como uma versão digital da praça pública, onde todos dizem o que bem entendem, as plataformas são empresas privadas, portanto têm donos, responsáveis pelo que divulgam”. O Facebook, ao acolher ataques brutais e, em geral, falsos, não deve ser visto como um agente neutro, mas como corresponsável pelo que contribui para divulgar, direta ou indiretamente.

Dono de uma fortuna avaliada em 85,4 bilhões de dólares, Mark Zuckerberg está mais preocupado com perdas financeiras do que com a honra alheia. Por isso, ao perder dinheiro, por causa do boicote, tende a repensar o liberticídio de sua rede social. Frise-se nem se discutiu como o Facebook transformou o usuário numa mercadoria — que vende e revende para as empresas. O usuário acredita que está “usando” o Facebook, e está mesmo, mas não percebe que também está sendo usado para negócios visíveis e invisíveis. É uma faceta que as empresas que estão boicotando a rede bilionária não querem discutir.

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