Biografia de Brizola, escrita por Karla Monteiro, erra ao sugerir que o goiano Mauro Borges era de esquerda
15 agosto 2026 às 21h00

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Há uma biografia incontornável nas livrarias, dada sua alta qualidade: “Brizola — Lobisomem Contra o Império” (Companhia das Letras, 433 páginas), da jornalista e pesquisadora Karla Monteiro. O primeiro volume figura, desde já, entre as melhores biografias publicadas no Brasil. Sustenta-se, de pé, ao lado de trabalhos escritos por Fernando Morais, Mário Magalhães, Ruy Castro, Leonencio Nossa e Lira Neto.

Uma das principais revelações da pesquisa ampla de Karla Monteiro é sobre as relações entre Leonel de Moura Brizola (1922-2004) e Fidel Castro.
Sabia-se que, depois do golpe de Estado de 1964, o ditador cubano enviou recursos para o político brasileiro organizar a guerrilha com o objetivo de derrubar o governo discricionário. A Ação Popular, de Betinho e Aldo Arantes, devolveu dinheiro para os cubanos (leia no link: https://tinyurl.com/bcvrpude) — que ficaram surpresos com a retidão dos brasileiros.
O que não se sabia, e agora é revelado por Karla Monteiro, é que Brizola pediu dinheiro a Fidel Castro para impedir o golpe de Estado. O líder da ilha decidiu enviar a grana, mas era tarde. Os militares, com amplo apoio civil, derrubaram o presidente João Goulart, entre 31 de março e 1º de abril de 1964. Em meros dois dias. A rigor, um dia.[
Se a biografia é altamente qualitativa, há pelo menos um erro histórico. Karla Monteiro sugere que Mauro Borges, governador de Goiás em 1964, era de esquerda.

Há três explicações possíveis para o “fato” de se perceber Mauro Borges como de esquerda.
Resistência ao golpismo em 1961
Primeiro, provando que era democrata, Mauro Borges mantinha pessoas de esquerda no seu governo, como Juarez Guimarães, Tarzan de Castro e Hugo Brockes. Para a direita, quem emprega indivíduos de esquerda só pode ser “comunista”.
Segundo, quando o presidente Jânio Quadros renunciou, em agosto — sempre agosto — de 1961, militares, consorciados com civis, decidiram impedir a posse do vice-presidente, João Goulart, do PTB, por considerá-lo de esquerda.
O governador Mauro Borges era mesmo uma figura solar, um dos principais responsáveis pela modernização de Goiás no século 20 — inclusive com a participação de uma equipe da Fundação Getúlio Vargas. Mas não era uma figura solar da esquerda, ao contrário do que diz biografia de Karla Monteiro
Cunhado de João Goulart, Brizola, do PTB, organizou um “movimento” nacional para garantir a posse do aliado. Contou para tanto com o apoio do governador Mauro Borges, do PSD. Os dois foram firmes e organizaram a resistência aos golpistas.
João Goulart tomou posse graças, em larga medida, à reação articulada por Brizola e Mauro Borges. Sem o gaúcho e o goiano, o golpe de 1964 teria sido antecipado para 1961.

Terceiro, para denegrir Mauro Borges, as forças da ditadura passaram a chamá-lo de esquerdista. Diziam que seu governo era um “antro” de comunistas. A narrativa da ditadura se tornou praticamente a narrativa dominante.
Coronel do Exército, nacionalista de centro, ou de centro-direita, Mauro Borges acabou ficando com a imagem de político de esquerda. A fake news da ditadura se tornou, por assim dizer, “fato”.
Na página 203, Karla Monteiro conta que Brizola viajou de Brasília para Goiânia, para presidir “uma reunião da junta executiva da Frente de Libertação Nacional (FLN)”.
“Segundo a ‘Declaração de Goiânia’”, registra a biógrafa, “o objetivo da frente, criada em outubro de 1961, seria trabalhar para eleger candidatos populares no pleito de outubro [de 1961], quando se renovaria a Câmara dos Deputados e se elegeriam dois terços do Senador e onze governadores”.
Mauro Borges era de centro-direita
“Além de Brizola, a FLN contava com figuras solares da esquerda, como o pessedista Mauro Borges, governador de Goiás, e Miguel Arraes, prefeito de Recife”, anota Karla Monteiro.

Mauro Borges era mesmo uma figura solar, um dos mais principais responsáveis pela modernização de Goiás no século 20 — inclusive com a participação de uma equipe da Fundação Getúlio Vargas. Mas não era uma figura solar da esquerda, ao contrário do que postula Karla Monteiro.
A biografia cita Mauro Borges em quatro páginas, mas nada narra sobre seu comportamento político em 1964. É provável que tenha ficado para o 2º volume.
O Mauro Borges de 1964 não era o mesmo de 1961. Quase três anos depois, o goiano, na oposição ao governo de João Goulart, não mais o apoiou. Distanciou-se de Brizola e alinhou-se à direita.
A bem da verdade histórica, Mauro Borges apoiou o golpe de Estado de 1964. Tanto que, ao contrário de outros governadores, não foi afastado em abril de 1964. Ficou no poder até novembro desse ano.

Por que, exatamente, Mauro Borges caiu? Como apoiou o golpe civil-militar e tinha a simpatia do presidente-general Castello Branco, a tendência é que fosse mantido no governo.
Entretanto, a direita política de Goiás aliou-se à linha dura militar — a do ministro do Exército, Arthur da Costa e Silva — para derrubar Mauro Borges. Castello Branco não conseguiu proteger o “apadrinhado”.
O apoio a João Goulart em 1961 custou-lhe o mandato em 1964. Foi um dos principais “pretextos” para a ditadura defenestrá-lo e, depois, cassá-lo.
Goiano de Anápolis, Aldo Arantes, de 87 anos, é citado em três páginas — como presidente da UNE e membro da Ação Popular, ao lado de Betinho (o irmão de Henfil) e José Serra.


