Euler de França Belém
Euler de França Belém

Arthur Lira convoca Bolsonaro pra governar o Brasil e não as ruas e as redes sociais

Centrão do presidente da Câmara dos Deputados faz opção pela democracia e rejeita aventura golpista do presidente Jair Bolsonaro

O Centrão é o maior partido político do Brasil. Sim, a frase pode provocar estranhamento. Porque, a rigor, não se trata de um partido, e sim de uma federação de partidos.

Arthur Lira: discurso de estatista pró-democracia | Foto: Reprodução

O Centrão volta e meia é tachado de “fisiológico” — o que não deixa de ser. Mas o “partido” sabe operar o Congresso e não tem colocado obstáculo às ações de Jair Messias Bolsonaro. Se o governo não é mais ágil e propositivo, a culpa não é dos parlamentares do Centrão, e sim do próprio presidente, a quem falta o preparo mínimo para entender o país e o mundo em que vive. Estagnou na areia movediça da Guerra Fria e, de lá, não sai. Seu discurso não é de um político do presente, e sim de um homem do passado. Sobretudo, falta-lhe instrumentos intelectuais para saber o que realmente está acontecendo à sua volta. Figuras sensatas, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), não conseguem influenciá-lo. Talvez se gravasse áudios, de no máximo dois minutos, a dupla se faria entender.

Se Bolsonaro é um nefelibata, os homens do Centrão pisam na terra, de maneira firme e sensata. Não se deve tachá-los tão-somente de adeptos do fisiologismo. Porque, entre seus melhores quadros, há quem pense no país e nas pessoas. Se o presidente é favorável a um golpe de Estado, contando com o apoio do baixo clero das Forças Armadas — com seus belos empregos e “salários” de 100 mil reais —, o Centrão não é. É democrático.

Os radicais anti-Bolsonaro podem perceber o discurso do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, como moderado. Mas estão enganados. A fala do deputado é de estadista, de quem preza a democracia. Não é um “ataque”, e sim uma crítica direta à ação antidemocrática de Bolsonaro. Não precisou citar o nome do presidente, mas deu um recado firme a ele e, também, à sociedade — informando de qual lado está — o da democracia. Ou seja, o Poder Legislativo, sob sua batuta, é parceiro do Poder Judiciário, quer dizer, do Supremo Tribunal Federal., mas não é adversário do Executivo.

Ricardo Barros, Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira e Arthur Lira: o Centrão e o presidente | Foto: Reprodução

Realista, no seu discurso, Arthur Lira frisa: “Nossa Casa tem compromisso com o Brasil real — que vem sofrendo com a pandemia, com o desemprego e a falta de oportunidades”. Há poucos dias, Bolsonaro disse que o brasileiro, no lugar de se preocupar com feijão — um alimento essencial nas mesas patropis —, deveria pensar em comprar um fuzil. Não é fala de presidente da República.

Arthur Lira frisou, numa fala direcionada a Bolsonaro: “Não posso admitir questionamentos sobre decisões tomadas e superadas — como a do voto impresso. Uma vez definida, vira-se a página”. É uma fala sobre o cavalo de batalha de Bolsonaro que a Câmara dos Deputados derrubou.

Aos mictórios do ódio, coordenados por bolsonaristas do baixíssimo clero, e a Bolsonaro, o presidente da Câmara mandou um recado: “Bravatas em redes sociais, vídeos e um eterno palanque deixaram de ser um elemento virtual e passaram a impactar o dia a dia do Brasil de verdade. O Brasil que vê a gasolina chegar a R$ 7 reais, o dólar valorizado em excesso e a redução de expectativas”. Noutras palavras, Arthur Lira está convocando Bolsonaro para governar o país — deixando de ser o presidente das redes sociais e da comiciatas-motociatas.

Fala-se em “bombeiros”, como Ciro Nogueira, Arthur Lira e Paulo Guedes, que tentam puxar Bolsonaro para a realidade, mas o presidente, tudo indica, não ouve ninguém — exceto Carluxo Bolsonaro. Mesmo assim, considerando que, na democracia, não se deve desistir do diálogo, Arthur Lira se propõe a ser, como representante do Legislativo, “uma ponte de pacificação entre Judiciário e Executivo”. Em seguida, insistiu que o “Brasil real sofre com o preço do gás”. “Na discórdia, todos perdem, mas o Brasil e a nossa história têm ainda mais o que perder.”

De fato, Bolsonaro é transitório, é datado, mas o Brasil continua. Se o governo for mal entre 2021 e 2022, os brasileiros vão sofrer os efeitos danosos dos equívocos do governo durante vários anos.

Por fim, Arthur Lira, seguindo a ética da responsabilidade proposta por Max Weber, disse que a “Constituição jamais será rasgada. O único compromisso inadiável e inquestionável que temos em nosso calendário está marcado para 3 de outubro de 2022. Com as urnas eletrônicas. São nas cabines eleitorais, com sigilo e segurança, que o povo expressa sua soberania”.

O Centrão avisou, via Arthur Lira: não participará de nenhuma aventura golpista de Bolsonaro e seus girondinos entorpecidos por um sentimento, digamos, de “lumpemproletariado”. Fez sua opção pela democracia.

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