Euler de França Belém
Euler de França Belém

Argentinos debatem Macri e Kirchner, circulam pela feira do livro e aplaudem Roberto Carlos

Livrarias e a Feria del Libro destacam Paulo Freire, Clarice Lispector, Samanta Schweblin, Gioconda Belli, Pérez-Reverte. As ruas “falam” de inflação e “soldo” baixo

Mendigo dorme na porta do Teatro Broadway, na Avenida Corrientes, sob uma temperatura de 17º | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Em Buenos Aires — A política e a cultura são vistas de maneira próxima do passional pelos argentinos. Eles discutem os assuntos de maneira quase sempre radicalizada, com posicionamentos firmes, e apreciam avaliar a situação do país nas conversas com conterrâneos e estrangeiros. Chegam a dar pitacos a respeito do Brasil. O presidente Mauricio Macri, anti-peronista, e a senadora Cristina Kirchner (peronistas sustentam que não é peronista, mas é apontada como peronista) são os assuntos do momento. O cantor brasileiro Roberto Carlos apresentou-se duas vezes na capital da Argentina — com críticas positivas e até entusiasmadas. A 45ª Feria Internacional del Libro de Buenos Aires é tão comentada quanto altamente frequentada por crianças, adolescentes, adultos e velhos. Clarice Lispector é a escritora brasileira mais “presente” na feira. Os contos da escritora Samanta Schweblin, portenha radicada na Alemanha, provocam estranhamento. O educador Paulo Freire tem seus livros destacados. O Paro Nacional — a greve geral — não paralisou tudo, mas, segundo a imprensa, não foi um fracasso total. As ruas encheram-se de trabalhadores. O humor nos jornais é inteligente e sutil.

Maurício Macri está executando um programa de ajuste para recuperar a capacidade de investimento do governo, mas a maioria dos argentinos não aprova, porque a inflação é alta e subiu o preço da energia elétrica e do gás e os salários são baixos | Foto: Reprodução

A Argentina, dizem os argentinos nas ruas, está em “crise”. Mauricio Macri tornou-se uma unanimidade: é raro encontrar um eleitor que aposte na sua reeleição. O taxista Ramón Lombardi é taxativo: “Não quero votar nem em Macri nem em Cristina. Estou em busca de uma alternativa. Quando presidente, Cristina incentivou, com amplo apoio, aqueles que não querem trabalhar e vivem às expensas do Estado. Já Macri governa para os ricos, esquecendo-se que foi eleito com o apoio da classe média”.

Reclama-se, em geral, da inflação alta — a vida está mais cara —, dos preços do subte (o metrô), da energia elétrica e do gás. O salário mínimo de 12.000,00 pesos (R$ 1.063,63) é considerado irrisório ante a carestia generalizada. Filho de um russo que morava em Pelotas (RS), Gustavo Gall, que manca de uma perna, sublinha que “Macri massacra as classes médias e, por isso, Cristina, se candidata, deve ser eleita. Ela tem um olhar diferente para os descamisados”.

Adrian Alessandro Nigro pensa como Ramón Lombardi: “Não quero Macri nem Cristina. Estamos, no momento, sem alternativa. Na campanha, Macri apresentou boas propostas, mas, no governo, não as executou”. Depois de suspirar, observa o interlocutor e conclui sua peroração: “Na Argentina rouba-se muito no setor público”. Nas paredes de edifícios lê-se: “Macri Gato” e “Macri para la mano”.

Apesar da má imagem em seu país, Macri não é mal avaliado pelo Fundo Monetário Internacional. O fato de renegociar e pagar dívidas, acatando a ideia de segurança jurídica, agrada a banca internacional. O presidente faz um governo de ajuste — o que favorecerá a próxima gestão. Seu objetivo é recuperar a capacidade de investimento do Estado. O país deixou de comprar energia e se tornou autossuficiente. Há mais respeito às instituições.

Há quem diga, sobretudo nos jornais, que a disputa de outubro deste ano será a “eleição do medo”. Teme-se que, uma vez no poder, Cristina Kirchner leve a nação ao caos. Mas teme-se que, com medidas duras — o segundo governo costuma ser mais rigoroso —, Macri contribua para maior “empobrecimento” e “abandono dos pobres”.

Ricardo Alfonsín, da UCR, propõe uma frente política, com integrantes da União Cívica Radical, dos socialistas e inclusive de peronistas não kirschneristas, como Roberto Lavagna. Mas parte da UCR planeja continuar como aliada de Macri. Porque o percebe como um gestor responsável e que estaria “recuperando” as bases estruturais do país — o que nem sempre tem visibilidade.

Não há mesmo uma alternativa a Macri e Cristina? O contador e administrador de empresas Alberto Manes, aposentado, admite que o presidente decepcionou a classe média — que o elegeu porque estava “cansada” das políticas da líder populista, espécie de Lula da Silva de saia da Argentina. “Macri parece não ter percebido que política e economia, ainda que imbrincadas, são esferas diferentes. Ele negocia mal com os trabalhadores e não entende que o governo não deve ser administrado como uma empresa. O presidente tem de ajustar as contas do Estado, mas não pode imaginar que é possível ‘abandonar’ os pobres.” Com voz pausada, numa linguagem próxima da acadêmica, Alberto Manes diz acreditar que o economista Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia, pode ser o tertius. “Trata-se de um homem sério e capaz de recuperar e colocar a Argentina noutro patamar.”

Roberto Lavagna, de 77 anos, não é demasiado velho? Há argentinos, como Alberto Manes, que acreditam que “não”. “Ele é competente e sério”, sumariza.

Alberto Manes registra que “o peronismo consegue, bem ou mal, governar o país. Mas não deixa ninguém de outro grupo governar. Assim como outros argentinos, o contador postula que Cristina Kirchner “é mais oportunista do que peronista”. Ela usaria o peronismo — seu “palanque” — para ganhar as eleições e, depois, para ter uma base para governar. Entretanto, uma vez no poder, gere a máquina com um grupo exclusivo, uma espécie de oligarquia. Mas sem “abandonar” os peronistas que lhe são devotados. O contador avalia que o fato de ter a imagem de que “ajuda os pobres” está cristalizada e é vista de maneira positiva. Há quem sugira que parte dos eleitores não importa se, durante os governos de Cristina Kirchner, os pobres continuaram, apesar de altamente subsidiados, “muito pobres”.

A governadora da província de Buenos Aires, María Eugenia Dival, pode ser uma alternativa a Macri? Ela é mais popular do que o presidente, pois tem mais ligação com o povão. Mas admite que respeita a “fila” e que Macri irá à reeleição com o seu apoio.

Cristina Kirchner, goste-se ou não de seu populismo, é uma presença sólida na Argentina | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Uma síntese possível da Argentina de hoje: poucos querem Maurício Macri, vários não querem Cristina Kirchner, muitos não querem nenhum dos dois e estão à espera de uma alternativa, quiçá de um milagre. Mas, entre Macri e Cristina, se Lavagna não se tornar uma alternativa consistente, será muito difícil derrotar a “peronista”. Macri pode ser reeleito? Milagres acontecem em política. Portanto, se for eleito pela segunda vez, será por conta de um milagre. A eleição será realizada daqui a poucos meses — em outubro. Dá para reconstruir a imagem do anti-peronista? Talvez sim. Talvez não. Há quem proponha que Macri melhore a comunicação do governo e a pessoal (não deveria deixar cristalizar a imagem do rico que não gosta de pobres; peronistas amam a boa vida, com contas bancárias polpudas, mas robusteceram a imagem de que “protegem” os pobres). Fala-se que, apesar da crise, o Estado parece estar mais ajustado do que antes e menos corrupto.

Argentinos frisam que Cristina Kirchner e seu grupo político “roubam abertamente”. E o grupo de Macri? “Não rouba diretamente. Mas, a partir do Estado, faz grandes negócios”, afirma uma socióloga. Aproxima-se do que a imprensa brasileira chama de “tráfico de influência’.

O humor dos cartunistas argentinos é de primeira linha: sutil e inteligente. Explica a inflação alta com extrema perspicácia. Comenta o sucesso do livro “Sinceramente”, de Cristina Kirchner, de maneira irônica.

Mendigos e o Paro Nacional

Nas ruas e praças de Buenos Aires, inclusive nas portas dos teatros, que têm marquises largas, há dezenas de mendigos. Um deles, na porta do Restaurante e Café Casablanca, ao perceber brasileiros, mostra-se atento: “Não tem problema, eu aceito reais”. A preferência por reais é visível em alguns lugares e parte dos mendigos não se furta a exigir “reales” dos filhos da terra de Jair Bolsonaro. O presidente brasileiro é citado como “autoritário”, por uns, e “honesto” e “bem intencionado”, por outros.

Greve Geral (Paro Nacional) na Argentina no dia 30 de Abril: sucesso parcial | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O Paro Nacional (a greve geral) foi convocado pelos sindicalistas para terça-feira, 30 de abril, um dia antes do Dia do Trabalhador, 1º de maio. Setores do governo disseram que o Paro fracassou, porque parte dos trabalhadores não deixou seus postos. Cientistas políticos disseram que, se não foi um sucesso geral, também não foi um fracasso generalizado. A quantidade de manifestantes nas ruas — muitos deles trabalhadores dos canais de televisão —, com o apoio da esquerda, inclusive de vários estudantes, não pode ser apontada como pequena. Pelo contrário, milhares foram às ruas, cantando, tocando tambores e soltando foguetes. Os argentinos participam e debatem seu país. Não ficam “parados”. A globalização não os acomodou. São fissurados por celulares? Os jovens, sim. Mas, grande parte da população, não. É comum as pessoas conversarem nos cafés sem consultar os celulares uma única vez.

No dia do Paro, em frente à bela sede da Câmara dos Deputados da Argentina, um homem pobre, talvez mendigo, molha um pano na água da praça e lava os pés, tranquilamente, como se não estivesse na presença de uma multidão crescente, gritando slogans de esquerda e defendendo melhores salários. “Tudo subiu, menos o soldo” — gritam. Nas ruas próximas, várias placas de “vende-se” e “aluga-se” colorem os edifícios.

Venezuelanos querem Guaidó no poder

A crise da Venezuela, com a tentativa do engenheiro e deputado Juan Gerardo Guaidó Márquez de tomar o poder, é acompanhada com atenção pelos argentinos — até porque o país está coalhado de venezuelanos, que trabalham como garçons (caso de um advogado que atua na Recoleta) ou captadores de clientes nas portas de restaurantes ou vendedores em lojas de souvenirs.

Venezuelanos que estão na Argentina são, no geral, adeptos de Guaidó e admitem que, se ele assumir a presidência, poderão voltar para o país. Por que estão na Argentina, que também está em crise? “O problema é que na Venezuela, com Nicolás Maduro, não há perspectiva de que as coisas melhorem. O país está em depressão”, afirma uma venezuelana.

A jovem que capta clientes para a cantina de comida italiana A’Nonna Angiulina é taxativa: “Só volto para a Venezuela quando Maduro, que está podre, cair”. Na loja de souvenirs I Love Gifts, na Avenida Corrientes (a meca dos sebos e dos teatros) dois venezuelanos dizem a mesma coisa: não dá para voltar enquanto Nicolás Maduro não sair do poder. “Sou Guaidó”, destaca a jovem vendedora. O jovem, circunspecto, concorda: não dá para retornar com Maduro no governo.

Acredita-se, entre venezuelanos que estão na Argentina, que a tentativa de retirar Maduro não fracassou. Eles dizem que, até há pouco, o que aconteceu seria impensável. A partir de agora, embora o presidente pareça forte, porque tem o apoio do Exército, as pessoas perceberam que há uma fissura no seu sistema de poder. Eles admitem que Guaidó parece ter “fracassado”, mas sugerem que o “ditador” está no ataque e, ao mesmo tempo, “acuado” e não convence a maioria dos indivíduos de que tem condições de recuperar o país e dotá-lo de democracia.

Pizzaria Güerrin, uma das preferidas dos argentinos e dos turistas, está sempre cheia | Foto: Reprodução

Apesar da crise, os melhores restaurantes e as pizzarias famosas (“turísticas”, dizem os argentinos) estão sempre cheios. Não é fácil encontrar uma vaga na Pizzaria Güerrin, na Avenida Corrientes, no Centro. A Pizzaria El Cuartito, na Rua Talcahuano, é bem frequentada. Suas paredes estampam quadros de jogadores de futebol e lutadores de boxe, como Muhammad Ali, George Foreman, Roberto “Mãos de Pedra” Duran, Sugar Ray Leonard, Sergio Molina e Mike Tyson. A pizza é boa? É. Há quem a ache um pouco alta, grossa.

Come-se carne de qualidade, mas os brasileiros ficam chocados com a escassez de sal e costumam pedir o saleiro (o que não deixa de surpreender os portenhos). Empanadas, medialunas e café (brasileiro e colombiano) estão na ordem do dia. Há vários cafés — os famosos, como La Biela e Tortoni, e os não famosos. Le Pain Quotidiene é uma opção de qualidade garantida.

Uma das características de Buenos Aires é que os velhos saem às ruas e frequentam cafés, restaurantes e livrarias. Leem livros, jornais e dialogam muito. Na terça-feira, 30 de abril, um homem de aproximadamente 80 anos lia um livro com extrema atenção, no Café La Biela (o preferido dos homens de cabelos grisalhos e brancos, aparentemente) Não só lia; na verdade, estudava-o — grifava trechos e fazia anotações, aparentemente bem organizadas, em pequenas folhas de papel. Noutras mesas, vários homens, na faixa de 50 a 70 anos, conversavam, às vezes de maneira enfática. Vários falam de Mauricio Macri e Cristina Kirchner. O tom não é amistoso para nenhum dos políticos. Mas percebe-se o lamento dos argentinos que estão entre o que julgam como ruim e o que avaliam como pior — o não-populista e a populista. Há um quê de trágico e dramático nas conversas: fica-se com a impressão, por vezes, que a Argentina está às portas do apocalipse, do fim do mundo. Argentinos querem, é a impressão que se tem, um novo salvador da pátria, já que Maurício Macri não os salvou.

Uma história curiosa: na Plaza Rivadavia há dezenas de pequenos sebos — tipos as lojinhas de uma porta dos camelódromos brasileiros — e, num deles, os livros estão cobertos por um grande plástico. Eu e Candice Marques de Lima, minha companheira de viagem, passamos por lá e olhamos os livros. Perguntei se podia tirar o plástico para olhar os livros e a mulher, uma loira de cerca de 60 anos e com um olhar quase tão frio quanto o de Thanos, disse, lacônica, “não”. Não falou mais nada, e nem se mexeu. Por certo, não quer deixar a poeira tomar conta de seu patrimônio e nem vendê-lo. Eu ri; ela, não. Não sei por quê, gostei da sra. de cabelos tingidos, quiçá pela proteção às obras dos escritores. Num sebo dos mais sebosos comprei, por 5 reais, o livro “Hemingway”, de Anthony Burgess. Deveria ter sido vendido com um lenço, pois comecei a espirrar assim que o folheei. (Argentinos parecem não se incomodar em assoar o nariz em restaurantes e cafés.)

Há turistas — centenas, milhares — do Brasil, dos Estados Unidos, do Canadá, China (os chineses em geral andam em grupos) e de vários países vizinhos (há quem avalie os argentinos como “simpáticos”, mas não os portenhos). A Buenos Aires turística é citada como “agradável”, “divertida” e “mui rica” em atrações. O cemitério da Recoleta, onde estão enterrados Evita Perón — seu túmulo é o mais procurado e um estrangeiro se irrita por não encontrá-lo —, Silvina Ocampo, Bioy Casares, Macedonio Fernández, Domingos Sarmiento, Oliverio Girondo, Norah Lange e Victoria Ocampo, é um centro de peregrinação. Lá, os mortos parecem — ou se tornam — vivos.

Feira do livro e o cantor Roberto Carlos

O cantor Roberto Carlos é tratado como “rei” na Argentina, inclusive pela Imprensa. Hernán Firpo, do “Clarín”, principal jornal do país, ao lado de “La Nacion”, publicou um comentário no qual chama o cantor brasileiro de “majestade”.  O crítico nota que, quando canta “Qué será de ti”, parte da plateia, emocionada, “chora”… de alegria e prazer.

Na terça-feira, 30 de abril, não sobrou uma poltrona vazia, no show do Gran Rex. O público não hesitou em pagar 97,50 reais (1.100,00 pesos). O crítico Hernán Firpo anota que Roberto Carlos, de 78 anos, “é um homem íntegro e respeitado” e menciona sua voz como “doce e tristonha”. “Lady Laura” e “La Distancia” provocaram nova choradeira do público. “Jesús Cristo” e “Detalles” encantaram a todos, que pareciam mesmerizados.

“O Calhambeque” é ressaltado como “um rock à brasileira, de 1966”. A voz de Roberto Carlos, quando o canta, “adquire uma forma menos melódica que tropicalista”. O brasileiro “converte o simples em luxo”. O crítico nota que se trata de sua principal característica. “Em um mundo tão ingrato, Roberto Carlos” — assim Hernán Firpo finaliza o artigo.

O livro “Sinceramente”, da ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, é best seller | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

A popularidade de Cristina Kirchner pode ser avaliada a partir do sucesso de seu livro “Sinceramente”, recém-lançado. Nas livrarias e na Feria do Libro, há pilhas de exemplares — com sua capa azul reluzente —, que se esgotam com facilidade. Argentinos compram, mas é possível que alguns duvidem da “sinceridade” da ex-presidente (comenta-se mais ou menos assim: um sinceramente verdadeiro de Cristina Kirchner seria sincericídio). Ela parece ser tratada pelos argentinos como uma “personagem” literária ou de alguma de peça de teatro. Por vezes, um mal; outras vezes, um mal necessário. Para muitos, um bem. O que não provoca é indiferença. Macri? “Ah, Macri é bonitão e elegante, mas é meio sem sal” — pontuam argentinos de classe média.

Livro de contos de Samanta Schweblin faz sucesso na Argentina | Foto: Euler de França Belém

Uma das estrelas da atual literatura argentina é Samanta Schweblin, de 41 anos, autora de “Pájaros en la Boca y Otros Cuentos” (Randon House, 186 páginas) — livro que contém contos excepcionais. O jornalzinho da Feria do Libro assinala que seus textos são “descarnados, potentes e brilhantes”. A palavra “estranhos” poderia ter sido acrescentada a seguir. Sua prosa precisa, apesar de enviesada, lembra o realismo mágico de García Márquez e a literatura dos surrealistas. O que surpreende é que, apesar das semelhanças e do estranhamento das histórias, há um realismo sem adjetivos. Fica-se com a impressão, apesar de parecer inverossímil à primeira vista, de a história ser perfeitamente crível, quer dizer, possível, tal a potência narrativa da autora. O final de “Pássaros na Boca” (Benvirá, 224 páginas, tradução de Joca Reiners Terron) é surpreendente. Porque não parece exatamente um the end, e sim um recomeço: o das perguntas dos leitores. É um convite, quem sabe, à participação dos leitores. A autora parece sugerir: “Conclua como quiser” ou “leitor, a história agora é sua — complemente-a se julgar necessário”.

A poesia de Alejandra Pizarnik é celebrada pelos leitores; ela se matou aos 36 anos | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Na Livraria Cúspide, uma das melhores da cidade, o vendedor Alejo Ini indica Samanta Schweblin com entusiasmo. “Pegue o livro e faça uma leitura rápida. Vai descobrir que não conseguirá parar de ler.” Conselho seguido, a psicanalista Candice Marques de Lima, depois de ganhar o livro, começou a leitura e não parou mais. Chegou a ler duas vezes “Pássaros na Boca” — certamente concordando com Jorge Luis Borges, o poeta e prosador que colocou a Argentina no mapa literário global, de que não há releitura, e sim sempre uma nova leitura, cada uma mais rica do que a outra.

Alejo Ini é leitor apaixonado da poesia de Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar. Depois, por e-mail, disse que, instado pelo autor deste texto, leu alguns poemas de João Cabral de Melo Neto e Paulo Leminski e os apreciou. É também leitor de Clarice Lispector. E se prepara para ler alguma coisa de Ana Cristina Cesar.

Contos de excelente qualidade provam que Silvina Ocampo era muito mais do que a mulher de Bioy Casares e a amiga de Jorge Luis Borges | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

As livrarias e a Feria del Libro destacam “Poesía Completa” (Lumen, 470 páginas), de Alejandra Pizarnik, que se matou em 1972, aos 36 anos. Trata-se de uma poesia madura e fina. O livro “La Hermana Menor — Um Retrato de Silvina Ocampo” (Ediciones Universidad Diego Portales, 211 páginas), de Mariana Enriquez (ótima escritora argentina da nova geração), põe em relevo a possibilidade de um relacionamento homossexual entre Alejandra Pizarnik e Silvina Ocampo. Na Argentina, depois da edição chilena, circula, pela Anagrama, o livro de Mariana Enriquez. No país, a família Ocampo — que inclui Victoria Ocampo, a fundadora da revista e editora “Sur” que foi amante de Pierre Drieu la Rochelle — integra uma espécie de “realeza” informal, a que usou seu dinheiro para o mecenato cultural.

Oliverio Girondo é um dos principais poetas da Argentina, um par de Jorge Luis Borges, não um simulacro e epigono | Foto: Euler de França Belém

Quando se fala de poesia argentina lembra-se logo de Jorge Luis Borges e, um pouco menos, de Alfonsina Storni. Mas há outro poeta (aliás, há vários, como Alejandra Pizarnik e Silvina Ocampo) de alta qualidade, muito lido e respeitado no e fora do país. Trata-se de Oliverio Girondo. O livro “Obra — Poesía e Prosa” (Losada, 469 páginas), de Oliverio Girondo, pode ser encontrado com facilidade nas livrarias de Buenos Aires (sobretudo na Losada). O autor é visto como um bardo refinado, um par (mas não um simulacro ou epígono) de Borges. Brasileiros podem lê-lo em traduções confiáveis, como “20 Poemas Para Ler no Bonde” (Editora 34, 112 páginas, tradução de Fabricio Corsaletti e Samuel Titan Junior) e “A Pupila do Zero/En La Masmedula” (Iluminuras, 173 páginas, tradução de Régis Bonvicino).

Vicente Huidobro não tem a fama de Gabriela Mistral e Pablo Neruda, mas certamente é um bardo de voos mais altos | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Pablo Neruda e Gabriela Mistral são os poetas mais conhecidos do Chile, possivelmente porque ganharam o Prêmio Nobel de Literatura. Sem deslustrar a dupla famosa, consagrada internacionalmente, talvez seja possível sugerir que o maior bardo chileno é Vicente Huidobro, autor de “Altazor o El Viaje en Paracaídas” (Origo, 135 páginas). A edição é belíssima.  Trata-se de uma poesia altamente apurada, complexa e que cobra um eleitor atento e interessado. Não se está dizendo que se trata de um poeta impossível de ser lido, exceto com mediação do trabalho de críticos. Na verdade, o que se está apontando é que se trata de um autor cuja poesia, elaborada, exige leitores que vão além dos pratos-feitos da poesia de Pablo Neruda e outros.

Biografia de Julio Cortázar menciona os concretistas Haroldo de Campos e Décio Pignatari e o cantor e compositor Caetano Veloso | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O livro “Cuentos Completos” (Emecé, 903 páginas), de Silvina Ocampo, prova que estão equivocados os que consideram a prosadora, poeta e pintora (riquíssima, estudou em Paris com Giorgio De Chirico e Fernand Léger) como uma figura “menor” quando comparada com Adolfo Bioy Casares, seu marido (e don juan), e Jorge Luis Borges. Na verdade, embora devesse alguma coisa a Borges, escrevia de maneira diferente tanto do autor de “O Aleph” quando de Bioy Casares. A absorção da linguagem popular, aponta Mariana Enriquez, aproxima-a mais de Julio Cortázar.

Carlos Barral, nas suas “Memórias”, menciona os escritores brasileiros Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Osman Lins | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

“Memórias” (Lumen), de Carlos Barral (1928-1989), é um dos destaques da Feira do Livro. O livro conta a história de um dos maiores editores de livros da Espanha (Seix Barral e Barral Editores) e que também foi um poeta admirado, além de senador. O cartapácio, que tem 938 páginas e custa 124 reais, menciona poucos escritores brasileiros, como o poeta João Cabral de Melo Neto (que trabalhou como diplomata na Espanha) e os prosadores Guimarães Rosa e Osman Lins (também excelente crítico, ensaísta).

“Recordo também uma longa viagem, por uma rodovia, com João Guimarães Rosa, que detestava conversar no automóvel em marcha, porque, dizia, escapavam-lhe as palavras, e obrigava o motorista a parar em bares de postos de gasolina para tomar um café.” O objetivo era conversar um pouco. O autor de “Grande Sertão: Veredas” usava “um enorme abrigo negro” que ia “quase até o solo” e, mesmo assim, “tiritava”. “Estava naquela manhã absolutamente obcecado com as sugestões e falsas etimologias que lhe despertava o que ele chamava de italiano popular — suponho que queria dizer coloquial —, e ia inventando étimos e significados totalmente disparatados. Como se estivesse trabalhando, pois é bem provável que ele trabalhasse assim”, relata Carlos Barral. O editor-poeta escreve que Guimarães Rosa era uma pessoa “loquaz”.

O livro “Aqueles Anos do Boom — García Márquez, Vargas Llosa e o Grupo de Amigos Que Mudaram Tudo”, do jornalista espanhol Xavi Ayén, é uma excelente história de como a literatura latino-americana, de língua espanhola, conquistou a Europa e, depois, o mundo. Os brasileiros Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são citados

De repente, mas não de repente, a literatura latino-americana (sobretudo a de língua espanhola) conquistou a Europa e, daí, o mundo. Trata-se da literatura do “boom”. Faltava uma ampla radiografia, não falta mais, a respeito. “Aquellos Años del Boom — García Márquez, Vargas Llosa y el Grupo de Amigos que Cambió Todo” (Debate, 559 páginas), de Xavi Ayén, conta toda a história — do início ao fim, se se pode dizer assim. Em 12 de fevereiro de 1976, no México, quando Mario Vargas Llosa esmurra e leva a nocaute Gabriel García Márquez — este teria “cantado” a mulher daquele —, rompe-se o boom, postula Xavi Ayén. O autor do livro frisa que “o boom, ainda que alguns neguem sua existência, não é qualquer coisa, e sim muitas. (…) Foi o mais importante que aconteceu à literatura em espanhol do século 20 e transformou nossa sensibilidade em algo mais rico e profundo”.

Xavi Ayén informa que, devido a comentários elogiosos de Octavio Paz e Mario Vargas Llosa, editores europeus decidiram traduzir a literatura de Guimarães Rosa. O jornalista revela que a escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, radicada na Espanha, tentou publicar a poesia de Alejandra Pizarnik e a prosa de Clarice Lispector, mas sem sucesso. O jornalista e pesquisador espanhol menciona Graciliano Ramos.

Biografia resgata a história do escritor mexicano Juan Rulfo, autor do romance “Pedro Páramo” | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O romance “O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar, é relançado no Brasil, com tradução de Eric Nepomuceno, pela Companhia das Letras. Publicada em 2015, a biografia “Julio Cortázar — El Cronopio Fugitivo” (Edhasa, 639 páginas), de Miguel Dalmau Soller, é apontada como um estudo sólido da vida e da obra de um dos escritores mais respeitados da Argentina. Conta-se de uma viagem de Cortázar ao Brasil. “Em São Paulo um grupo de poetas encabeçados por Haroldo de Campos e Décio Pignatari o convidam a banhar-se nas águas do concretismo.” Agrada-lhe o encontro “com o jovem cantor Caetano Veloso”. Cita-se também o arquiteto Oscar Niemeyer. Saiu no Brasil “Cortázar — Notas Para uma Biografia” (Dsop, 304 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), de Mario Goloboff.

Tendo sido publicado em 2017, o livro “Noticias Sobre Juan Rulfo — La Biografía” (Editorial RM/RM Verlag, 412 páginas), de Alberto Vital, um doutor em literatura pela Universidade de Hamburgo, é um estudo exaustivo da vida e da obra do escritor mexicano e, se não é best seller, é bem lido na Argentina.

O escritor e “mago” Paulo Coelho (é lido, comentado e admirado), Paulo Freire (desprezado pelo bolsonarismo, é uma das estrelas da feira do livro e é realçado como um “pensador da educação”. Seus livros e seu nome têm destaque especial em alguns stands sobre educação), Clarice Lispector e Rubem Fonseca são destacados na Feria del Libro.

Livros de Clarice Lispector expostos na Livraria Cúspide, uma das melhores da cidade | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

E uma reportagem de “La Nacion” ressalta que Clarice Lispector é uma das estrelas da Feira do Livro e das livrarias. Ela é muito lida e estudada no país. Talvez a mais lida dos brasileiros.

Nas livrarias, como El Ateneo e Cúspide, é possível encontrar livros de Machado de Assis, Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”), Paulo Leminski, Ana Paula Maria, Miguel Sanches Neto, Adriana Lisboa, Vinicius de Morais, Euclides da Cunha (“Os Sertões”) entre outros.

“Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, considerado um romance difícil, é lido e respeitado na argentina | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Alguns dos livros de Clarice Lispector encontráveis em Buenos Aires: “Dónde Estuviste de Noche”, “La Ciudade Sitiada”, “Un Aprendizage o el Libro de los Placeres” e “Descubrimientos”. Machado de Assis comparece com “Padre Contra Madre y Otros Cuentos Breves”. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “circula” bem pela cidade.

João Gilberto Noll, recentemente elogiado pelo “New York Times”, é destacado em Buenos Aires | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O poeta brasileiro mais conhecido é Carlos Drummond de Andrade, seguido de Ferreira Gullar. Não vi livros de João Cabral de Melo Neto, mas me disseram que é lido no país.

A imprensa destaca o clássico juvenil “Los Ojos del Perro Siberiano”, de Antonio Santa Ana, e “Infernaldes”, de Laura Ramos, sobre as irmãs Brontë.

Michel Houellebecq é mais conhecido como prosador, mas escreve também boa poesia | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O escritor Michel Houellebecq é conhecido por sua prosa polêmica — dita profética sobre as crises francesas, como a dos imigrantes —, mas, ao menos no Brasil, não por sua poesia. As livrarias argentinas destacam “Configuración de la Última Orilla” (Anagrama, 97 páginas, tradução de Altair Diez), que contém uma poesia de qualidade. Henrik Ibsen é conhecido como o Shakespeare da Noruega, com suas peças extraordinários. Mas o poeta é menos conhecido. Na Feria del Libro é possível adquirir “Poesía Completa” (Losada, 231 páginas, tradução do norueguês por Jesús Pardo). Seus últimos versos: “Sou livre!, sou livre!, sou livre!,/Acabou minha vida de preso!,/Sou livre como um pássaro!, sou livre!”

O livro do doutor em História Roman Töppel é apontado como o mais atualizado sobre a batalha de Kursk | Foto: Euler de França Belém

A pesquisa mais inovadora e atualizada sobre Kursk não foi vista nas livrarias, e sim na Feria del Libro. “Kursk 1943 — La Batalla Más Grande de la Segunda Guerra Mundial” (Ediciones Salamina, 323 páginas, tradução de Isidoro Villena), de Roman Töppel. O doutor em história afirma que pesquisou novos documentos e desfez uma série de “enganos” de pesquisas anteriores. Trata-se de uma grande revisão da luta que os russos consideram como decisiva para a vitória dos Aliados sobre o nazismo de Adolf Hitler. “Kursk, 1943 — La Batalla Decisiva” (Editorial Malabar, 594 páginas), de Álvaro Lozano, doutor em história, é outro livro importante sobre a grande vitória soviética.

O livro do historiador e jornalista Max Hastings é visto como o melhor sobre o assunto por Simon Sebag Montefiore e Lawrence Rees | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

“La Guerra Secreta — Espías, Códigos y Guerrillas: 1939-1945” (Crítica, 790 páginas, tradução de Cecilia Belza e David León), de Max Hastings, merece, dada sua excelência, tradução para o português. A partir de um tema específico, o autor constrói uma verdadeira história da Segunda Guerra Mundial. O livro é enaltecido pois dois pesos-pesados dos estudos do período. “Esta é a melhor história sobre a guerra de espionagem”, afirma Simon Sebag Montefiore, um dos maiores estudiosos da história da Rússia e da União Soviética. “Hastings escreveu o melhor livro sobre a espionagem durante a Segunda Guerra Mundial”, diz Lawrence Rees, autor de um livro seminal sobre o Holocausto e de obras sobre Hitler e Stálin.

O extraordinário general soviético Iván D. Cherniakovski lutou bravamente em vários fronts, inclusive em Kursk, e morreu, em 1945, aos 39 anos, durante uma batalha | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Os soviéticos foram decisivos para que os Aliados vencessem a Segunda Guerra Mundial contra os nazistas. Mas o leigo fica com a impressão, sobretudo por causa do Dia D na Normandia, de que a batalha foi vencida graças exclusivamente à intervenção dos Estados Unidos. Mas, como pontua Norman Davies, é preciso reconhecer a ação crucial dos soviéticos. A biografia “Cherniakovski — O General T-34” (Inédita Editores, 504 páginas, tradução de Joaquín Rodriguez e Miguel Salarich), de Akram Sharipov, relata a vida do extraordinário militar Iván D. Cherniakovski (1906-1945). Ele foi o comandante-chefe “mais jovem da Segunda Guerra Mundial”. Era um estrategista de primeira linha. Lutou contra a invasão alemã na União Soviética (que não é o mesmo que Rússia, pois esta era parte de um vasto império, e não o império) e participou da ofensiva em Kursk, em 1943. Em algumas regiões, lutando corajosamente, expulsou os alemães do país. Morreu, em fevereiro de 1945, “por fogo de artilharia em Mehlsack”. Tinha apenas 39 anos. Independentemente das pressões de Stálin, a bravura indômita do general o colocava no centro das batalhas.

O historiador Ian Kershaw considera este livro como o mais importante e documentado sobre os campos de concentração nazistas | Foto: Euler de França Belém

“KL — Una Historia de los Campos de Concentración Nazis” (Crítica, 1100 páginas, tradução de Cecilia Belza e David León), do doutor em História Nikolaus Wachsmann, é uma obra-prima sobre as máquinas de extermínio criadas por Adolf Hitler e Heinrich Himmler. “É difícil imaginar que este excelente livro de Nikolaus Washsmann, que se converterá sem dúvida em obra de referência sobre os campos de concentração nazistas, vá ser superado algum dia. Baseado em uma imensa variedade de fontes muito diversas, KL é um apaixonante, exaustivo e autorizado estudo sobre este triste mas, às vezes, tão importante assunto”. (O livro foi adquirido por meros 20 reais na Feira do Livro.)

“Autobiografia Psíquica”, de Hermann Broch, é obra de um escritor com veleidades filosóficas | Foto: Euler de França Belém

O escritor austríaco Hermann Broch é mais conhecido por seu romance “A Morte de Virgílio” (publicado no Brasil pela Nova Fronteira). Na Argentina, é possível adquirir seu livro “Autobiografía Psíquica” (Losada, 206 páginas, tradução de Miguel Sáenz). “Minha vida está repleta de conflitos morais. Um sentimento sensível e humano de felicidade me resulta quase desconhecido, e, se alguma vez me concede um começo, se vê destruído ineludivelmente por alguns princípios morais. Em minha vida renuncio, de certo modo, mais facilmente ao agradável que ao desagradável”.

Hermann Broch sublinha: “É certo que o trabalho é para mim algo positivo e, por conseguinte, bastante ‘agradável’, mas o mal não é que este algo positivo se produza na forma de uma servidão e escravidão mais dura e amarga, e sim que só me permite em condições determinadas e difíceis: por um lado, a magnitude das tarefas que me imponho supera, em muito, as minhas forças, e, por outro, tampouco sou livre na escolha dessas atividades”.

Doutor em Sociologia examina a história do jornal Clarín e seus conflitos políticos e empresariais com os governos argentinos, notadamente os da família Kirchner | Foto: Jornal Opção/Euler de França Belém

O sociólogo argentino Martín Sivak, de 44 anos, é doutor pela Universidade de Nova York. Em 2013, publicou um livro excepcional sobre os motivos (não são tão católicos quando se costuma imaginar e não há bom-mocismo de parte a parte) e a origem (negócios) dos conflitos entre o jornal mais importante do país e os Kirchner: “Clarín, el Gran Diario Argentino: Una Historia”, de 2013. Uma resenha pode ser lida no Jornal Opção (https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/livro-revela-que-relacao-de-amor-e-odio-do-clarin-com-peronismo-antecede-briga-com-os-kirchners-180888/). Em 2015, saiu o esperado segundo volume: “Clarín — La Era Magnetto” (Espejo de la Argentina/Planeta, 479 páginas). Trata-se do poderoso Héctor Magneto, CEO do Grupo Clarín.

Na Argentina, os jornais “Clarín”, “La Nacion” e “Página 12” (pró-peronismo) circulam com edições imensas e coberturas amplas. São muito bem-feitos e cobrem com qualidade assuntos do Brasil. O “Clarín” publica aos sábados a excelente “Ñ — Revista de Cultura” — com 40 páginas.

Os argentinos têm sorte: livros editados na Espanha, sobretudo em Barcelona, circulam livremente nas suas livrarias — o que aumenta a quantidade e a qualidade. Os livros de Portugal não circulam no Brasil. Agora, editoras do país de Camões começam a descobrir o “país-filho” e se deslocam para os trópicos. O que é positivo porque as editoras portuguesas são, em geral, de boa qualidade. Por exemplo, a Tinta da China.

As livrarias de Buenos Aires são cantadas em verso e prosa (em geral os levantamentos estatísticos incluem sebos de rua minúsculos como livrarias — e até mesmo papelarias). De fato, as livrarias são de qualidade, com publicações quase sempre mais atualizadas do que as brasileiras (vários livros são editados em Barcelona), mas o problema aí é mais de editoras do que de livrarias.

As livrarias mais conhecidas são: Waldhuter, Paidós (fechou a unidade da Avenida Santa Fé), Guadalquivir, El Ateneo (a mais bonita e turística), Eterna Cadencia, Cúspide, Librería Ávila, Yenny, Losada (também editora), Dickens, Santa Fé. Algumas livrarias-sebos vendem livros usados e novos, com preços acessíveis — na faixa de 10 a 30 reais.

O teatro é forte no país e várias peças, populares e sofisticadas, estão sendo encenadas. A divertida “A Gaiola das Loucas” é um dos sucessos. Cinemas exibem filmes populares, mas não deixam de mostrar os chamados filmes de arte ou do circuito dito alternativo (como filmes europeus e asiáticos). O cinema da Argentina é de qualidade e não investe apenas em comédias pasteurizadas (que “dão” o riso antes de a piada ser contada). Parte da Avenida Corrientes — onde estão localizados vários teatros e cinemas — é fechada, à noite, para facilitar o tráfego de pedestres. O público aprecia e comparece em massa aos cinemas, teatros, cafés (O Gato Negro) e restaurantes.

Cambistas da Recoleta e Pedro Cubano

Nas ruas da Recoleta é praxe a presença de cambistas de dinheiro (nas proximidades, num shopping, há uma casa oficial de câmbio). Mas não estão onipresentes quanto há três anos. O carioca Ronaldo é uma espécie de faz-tudo — troca dinheiro (paga quase 12 pesos por 1 real; o câmbio oficial paga 10 pesos), aluga automóveis e negocia pacotes turísticos para o zoológico de Lujan e espetáculos de tangos (“e otras cositas más”). “Só não faço chover.” Dali a pouco, chuviscou, e só. O falante e engravatado Ronaldo, com sua linguagem rápida, facilita a vida dos turistas. Há quem, entre os “adversários”, o considere “esperto” demais.

O mais conhecido cambista da Recoleta está preso. Pedro Cubano, um negro alto e elegante, é acusado de ter batido na ex-mulher, com quem tem um filho. O baiano Domingos, que trabalhou com Pedro e capta clientes para um restaurante da Recoleta, afirma que Pedro Cubano, “boa pinta e dono de um Audi, deveria ter mais paciência e boa vontade. Ele contratou um advogado argentino — quer dizer, um conterrâneo de sua ex-mulher —, quando deveria ter escolhido um cubano”. Mas um argentino não entende “melhor” as leis do país? Domingos, um homem de fala pomposa, parece anuir: “Pois é”.

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Benedito Saldanha

Parabéns Euler pela beleza de sua coluna.