Marília Noleto

Apesar da crise, Jon Lee Anderson recomenda vivamente a profissão de jornalista

Há uma crise mais do jornalismo como negócio do que do jornalismo como jornalismo. É uma das conclusões do Seminário Jornalismo: as novas configurações do quarto poder

Vamos combinar: jornalista é uma raça vaidosa. Desmobilizada, desmotivada e desunida, raramente se permite um momento “ombudsman”. É claro que nem sempre foi assim. Mas, agora que colhemos os frutos das sementes que nós mesmos semeamos, é que deixamos a máscara de “Clark Kent” cair para finalmente olharmos no espelho, fazer uma autocrítica e pensar no futuro. Para além do nosso umbigo, o discurso de ódio se propaga de forma feroz e a democracia parece fraquejar em alguns momentos no Brasil. Mais razões para parar e pensar. Foi com o objetivo de estimular tais reflexões que a revista “Cult”, em parceira com o Sesc SP, promoveu nos dias 15, 16 e 17 de agosto, em São Paulo, o seminário Jornalismo: as novas configurações do quarto poder. Grandes nomes como Ricardo Kotscho, Maria Rita Kehl, Xico Sá e Jon Lee Anderson (biógrafo de Che Guevara) se reuniram e diante de uma plateia assídua, composta por colegas de redação e futuras e futuros “focas”, que logo estarão experimentando as delícias e dores do ofício, debateram questões diversas em torno das transformações que impactam o jornalismo atualmente nos mais diversos âmbitos.

Jon Lee Anderson: “Para aqueles que ainda querem se aventurar nesta profissão, eu recomendo intensamente. Pode ser ainda bastante divertido”

Com organização impecável, e atento a questões nem sempre lembradas, como a presença de intérpretes de Libras, que se revezavam no palco para garantir que nenhum segundo sequer das palestras ficassem sem tradução, o evento reuniu jornalistas e pensadores para refletirem sobre temas como fake news, novos modelos de gestão de veículos de imprensa, jornalismo de dados, relações entre jornalismo e conteúdo patrocinado e como os repórteres cobrem questões identitárias. Pelo fato de zelar pelo bom funcionamento da Democracia, e por sua influência decisiva na formação da consciência política e social, a imprensa é historicamente conhecida como Quarto Poder. Mas o que de fato restou deste “poder”? Este, por sinal, foi tema de um dos painéis do primeiro dia de seminário. “Na atualidade, como funciona o poder da Imprensa?”, contou com a participação da psicanalista e escritora Maria Rita Kehl,  do jornalista, escritor e colunista do “El País” Xico Sá, e mediação de Robinson Borges (editor do caderno “EU&Fim de Semana”, do jornal “Valor Econômico”).

Ricardo Kotscho diz que uma coisa permanece inalterada, mesmo no mais pessimistas dos cenários: “O lugar da reportagem não muda, é na rua, e não na redação”

Em tempos baumanianos, assistimos esse suposto poder se liquefazer diante de algumas ameaças, com a nova versão de praga bíblica, o fenômeno da fake news, mais abrangente e devastador que qualquer agente patogênico já visto, e de passaralhos que retalham em pedacinhos conglomerados de comunicação ora mastodônticos. Exemplo mais recente foi o pedido de recuperação judicial do Grupo Abril, fato que foi mencionado diversas vezes, ainda que “en passant”, uma vez que é impossível não se abismar com a dívida de 1,6 bilhão e prejuízo de 331 milhões só em 2018 que o grupo amarga e pode colocar até 800 jornalistas no olho da rua (vários já foram demitidos). O ar melancólico que pairava era perceptível e inevitável diante de tanta lamúria; não é nada alentador ver um profissional como Kotscho, que do alto de toda sua experiência jornalística e com os 70 e tantos anos que pesa sobre os ombros, numa situação em que nada lhe garante que irá arcar com seus boletos no mês seguinte. Equipes reduzidas, demissões em massa, “pejotização”, crise do modelo de negócios… São muitas as transformações e incertezas. Mas há algo que, para Kotscho, permanece inalterado, mesmo no mais pessimistas dos cenários: “O lugar da reportagem não muda, é na rua, e não na redação”. Ele debateu o tema com os repórteres Carol Pires e Leonencio Nossa.

Andrea Dip, repórter da Agência Pública: “Não há uma crise do jornalismo, mas sim uma crise do modelo de negócio”

A conclusão da repórter Andrea Dip, da Agência Pública, é bastante pertinente neste sentido: “Não há uma crise do jornalismo, mas sim uma crise do modelo de negócio”. A pergunta de 1 milhão de reais e que ninguém ainda soube responder, mesmo com a ajuda de universitários, é como monetizar o conteúdo veiculado em meios digitais.  A internet pode ser maravilhosa para se obter acessos, mas é péssima para se obter dinheiro.

Para Fernando Luna, diretor editorial da Editora Globo, o modelo que sustentou a imprensa nas últimas décadas está ruindo: os jornalistas estão descobrindo que a reportagem em si não traz retorno financeiro, e que, “na verdade, o negócio da imprensa era vender o leitor para o anunciante”. Ele debateu novos negócios no jornalismo com Bruno Torturra (Greg News), Conrado Corsaletti (Nexo) e Helena Bagnoli (Bravo!). Iniciativas como a própria Agência Pública, que recorre a métodos como o financiamento coletivo, e o jornalismo orientado para empresas que querem solidificar e agregar valor às marcas, o chamado branded content, são os segmentos que parecem vislumbrar um certo fôlego em tempos de crise. Os cases apresentados foram o da Vice Brasil, representado pelo editor-chefe André Maleronka, e do Estúdio Folha, representado pela jornalista Cleusa Turra.

Narrativa e sentido

Apesar disto, ou talvez por isto, a discussão foi bastante prolífica, graças também ao calibre dos convidados e mediadores, bem como às intervenções da plateia, que agregavam em muito o debate.  Para além dos temas acima mencionados, os painéis trouxeram a lume outros assuntos igualmente pertinentes. Temos abundância de informação, mas hoje os cidadãos sabem mais? O professor Wilson Gomes, da UFBA, conduziu este debate com Andrea Dip, da Agência Pública, e Manon Paulic, do jornal francês “Le 1”. “Fake news — o caos/cosmos da informação digital” foi tema da mesa composta pelo professor da USP Massimo Di Felice, Rodrigo Flores (jornalista e diretor-geral de conteúdo do UOL) e Ivana Bentes (professora e diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

“Tudo mudou completamente nos últimos 10 anos. A quantidade de informação disponível com o advento do Big Data não há matemática que calcule, a não ser por robôs e inteligência artificial. Somos convidados a construir a informação. Cabe em meio a tantos dados disponíveis, tecer narrativas com aquilo que faz sentido”, afirmou Massimo Di Felice.

A programação contou com discussões mais segmentadas, mas não menos importantes. “Como o jornalismo se prepara para cobrir as questões identitárias com responsabilidade?” foi o tema abordado por Fernanda Carvalho (jornalista da TV Nação Preta, de Porto Alegre), Renan Quinalha (professor da Unifesp e advogado ativista dos direitos humanos e LGBT) e Bianca Santana (jornalista, escritora, cientista social e colunista da revista “Cult”).

O jornalismo cultural e seus desafios em uma época em que novos agentes roubam as atenções e os cliques do público, como @s [email protected], youtubers e influenciadores digitais, foi assunto para  Claudia Assef (publisher do site Music Non Stop e fundadora do Women’s Music Event), Laura Capriglione (jornalista especializada em Direitos Humanos e Sociais da rede Jornalistas Livres) e Patricia Kolesnicov (editora de cultura do jornal argentino Clarín), com mediação de Helio Goldsztejn (diretor do programa Metrópolis, da TV Cultura). Jornalismo de Dados foi tema da mesa com Daniel Mariani (jornalista especializado em dados na “Folha de S. Paulo”), Sergio Spagnuolo (fundador e editor da agência de jornalismo de dados Volt Data Lab) e Giulliana Biancone (fundadora da Gênero e Número, a primeira organização de mídia orientada por dados com foco em gênero da América Latina).

Jon Lee Anderson

E se for permitido cometer um clichê, a “chave de ouro” ficou a cargo do Jon Lee Anderson, lenda do jornalismo estadunidense, que, com o desfalque do global Caco Barcellos, protagonizou a saideira com uma palestra repleta de lembranças e grandes momentos e desafios de sua carreira como correspondente internacional da revista “New Yorker”. Exímio contador de histórias, que reconhece sem falsa modéstia, já escreveu sobre El Salvador, Uganda, Irlanda, Israel, Iraque e muito mais. Entre tantas, dedicou mais tempo a contar sobre os dias que passou na Nicarágua e seu encontro com o ditador chileno Augusto Pinochet.

Jon Lee Anderson revelou que seu “sonho de consumo” é entrevistar Vladimir Putin, que detesta Donald Trump e que a recíproca é verdadeira. Sobre sua mestria em traçar perfis, deixou dicas de lambuja. “Todo mundo tem uma vida pública, uma vida privada é uma vida secreta. É onde se tem que cavar, buscar algo novo. Veja detalhes no entrevistado e ao seu redor, no ambiente, e procure algo novo. Quando você vai fazer o perfil de alguém, esse alguém vai induzir seu olhar. Tentar controlar o que você vê”. Questionado se alguma vez duvidou de si e se já quis desistir do jornalismo, foi curto, grosso e monossilábico: “No!” Aliás, desistir parece nunca foi uma opção para Lee e foi essa a mensagem final que ele quis deixar. “Para aqueles que ainda querem se aventurar nesta profissão, eu recomendo intensamente. Pode ser ainda bastante divertido” (tradução livre).

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