Euler de França Belém
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Antropólogo diz que escravatura árabe foi muito mais violenta do que a transatlântica

“Os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século 7 ao século 20”, diz o antropólogo Tidiane N’Diaye

O antropólogo, economista e escritor franco-senegalês Tidiane N’Diaye, de 70 anos, concedeu uma entrevista ao jornalista João Céu e Silva — “A escravatura árabe foi muito mais violenta” —, em março do ano passado. O material saiu no “Jornal de Angola”, ainda que o repórter seja integrante do “Diário de Notícias”, de Portugal.

Tidiane N’Diaye sublinha que “o tráfico de escravos árabo-muçulmano, realizado durante quase mil anos, ainda não foi reconhecido em toda a dimensão”.

Tidiane N’Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês: o tráfico negreiro transatlântico “foi menos devastador do que o comércio” árabe-muçulmano | Foto: Reprodução

Na primeira pergunta, ao mencionar o ensaio do autor “O Genocídio Ocultado — Investigação Histórica Sobre o Tráfico Negreiro Árabo-Muçulmano” (Gradiva, 248 páginas), João Céu e Silva inquire se, de fato, “a escravatura” árabe-muçulmana “foi a mais dura”. Tidiane N’Diaye postula que “as implosões pré-coloniais inauguradas pelos árabes destroem sem dúvida os povos africanos, que não tiveram um intervalo desde a sua chegada. Como mostra a História, os árabes-muçulmanos estão na origem da calamidade que foi o tráfico e a escravatura, que praticaram do século 7 ao século 20. E do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos, eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada em cena dos europeus. A penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos, a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. (…) Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente”.

João do Céu e Silva inquire se “a recente islamização dos povos africanos excluiu as práticas de escravidão”. Tidiane N’Diaye explica que “o Islão só permite a escravização de não-muçulmanos. Mas em relação aos negros, os árabes usavam os textos eruditos como os de Al-Dimeshkri: ‘Nenhuma lei divina lhes foi revelada. (…) São incapazes de conceber as noções de comando e de proibição, desejo e abstinência. Tem uma mentalidade próxima da dos animais’”. Logo, a teoria levava à prática: os negros eram escravizados.

O entrevistador indaga se procede que árabes desprezam negros no Darfur e se isto se mantém na “atualidade”. “No inconsciente dos magrebinos, esta história deixou tantos vestígios que, para eles, um ‘negro’ continua sendo um escravo. Eles nem podem conceber que os negros estejam entre eles. Basta ver o que está a acontecer na Mauritânia ou no Mali, onde os tuaregues do norte jamais aceitarão o poder negro. Os descendentes dos carrascos, como os das vítimas, tornaram-se solidários por motivos religiosos. Mas existem mercados de escravos na Líbia!”, pontua Tidiane N’Diaye. “No mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, eram obscurantistas e afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. (…) No Líbano, na Síria, na Arábia Saudita, os trabalhadores domésticos africanos vivem em condições de escravatura. A divisão racial ainda é real em África.”

O antropólogo frisa que “desde o início do comércio oriental de escravos… os muçulmanos árabes decidiram castrar os negros, para evitar que se reproduzissem (…), para evitar que se integrassem e implementassem uma descendência nesta região do mundo. (…) A castração, quando realizada em adultos, matou entre 75% e 80% dos que a ela foram sujeitos”. De “30% a 40% das crianças não sobreviveram à castração total”.

“Hoje”, anota Tidiane N’Diaye, “a grande maioria dos descendentes dos escravos africanos são na verdade mestiços, nascidos de mulheres deportadas para haréns. Apenas 20% são negros. Essa é a diferença com o comércio transatlântico”.

O pesquisador sugere que o tráfico negreiro transatlântico “foi menos devastador que o comércio” árabe-muçulmano. “Só falo de genocídio para descrever o comércio de escravos transaariano e oriental. O comércio transatlântico, praticado pelos ocidentais, não pode ser comparado ao genocídio. A vontade de exterminar um povo não foi provada. Porque um escravo, mesmo em condições extremamente más, tinha um valor de mercado para o dono que o desejava produtivo e com longevidade. Para 9 a 11 milhões de deportados durante essa época, existem hoje 70 milhões de descendentes. O comércio árabo-muçulmano de escravos deportou 17 milhões de pessoas que tiveram apenas 1 milhão de descendentes, por causa da maciça castração praticada durante quatorze séculos.”

João Céu e Silva pergunta se os árabes “inventaram” a “escravatura tal como a definimos hoje”. Tidiane N’Diaye sugere outra via: “Foi o Império Romano quem mais praticou a escravidão. Estima-se que, em determinada altura, quase 30% da população do império era escrava”. Mas ressalta: “Estima-se que, no século 19, 14 milhões de africanos estavam escravizados. A escravatura interna existia antes e durante o tráfico árabo-muçulmano e transatlântico. Foram os árabes muçulmanos que começaram o tráfico de escravos em grande escala”.

“Como Fernand Braudel apontou, o tráfico de escravos não foi uma invenção diabólica da Europa. São os muçulmanos árabes que estão na origem e o praticaram em grande escala. Se o tráfico atlântico durou de 1660 a 1790, os muçulmanos árabes atacaram os negros do sétimo ao vigésimo século e foram os únicos a praticar o tráfico de escravos”, assinala o pesquisador.

Em seguida, Tidiane N’Diaye comenta o papel de Portugal no tráfico transatlântico: “Os portugueses tinham acidentalmente capturado um nobre mouro Adahu, em 1441. Este último ofereceu-se para comprar a sua liberdade em troca de seis escravos negros e isso ocorreu em 1443. Depois disso, Dinis Dias desembarcou no Senegal e trouxe para Lagos quatro cativos, situação que marca o início do tráfico sistemático. Os portugueses foram os primeiros a importar escravos para o trabalho agrícola. Eles transportavam entre 700 e 800 cativos por ano, desde os postos comerciais e fortes na costa africana. Os pioneiros neste tráfego foi Gonçalves Lançarote, em 1444. Em seguida, foi a vez do navegador Tristão Nunes comprar aos mouros um número significativo de cativos africanos, para aumentar o seu número em São Tomé e Portugal. Em 1552, 10% da população de Lisboa consistia de escravos mouros ou negros”. O antropólogo diz que é preciso fazer pesquisas a respeito.

(O crítico literário e historiador Adelto Gonçalves chamou a atenção do Jornal Opção para o impressionante relato de Tidiane N’Diaye. A publicação de uma síntese sobre o que disse talvez sirva para provocar algum debate no Brasil.)

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