Euler de França Belém
Euler de França Belém

Antony Beevor diz que leitor tem fascínio pelos horrores da Segunda Guerra Mundial

O historiador britânico sugere que generais alemães não tiveram coragem de contestar Hitler e por isso batalharam nas Ardenas 

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Antony Beevor, autor de livro sobre batalha nas Ardenas: arquivos americanos sobre a Segunda Guerra Mundial precisam ser mais consultados por historiadores | Divulgação

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é quase propriedade dos historiadores ingleses, como John Ke­egan, Richard Evans, Richard Overy, Max Hastings, Ian Kershaw (principal biógrafo de Adolf Hitler), Antony Beevor, Norman Davies, Paul Kennedy, Mark Mazower e Andrew Roberts, que escreveram alguns dos melhores livros a respeito. Suas obras são rigorosas e não encontram pares nas publicações alemães, francesas e norte-americanas. Antony Beevor é autor de uma excelente história geral — “A Segunda Guerra Mundial” (Bertrand, 1095 páginas,
tradução de Fernanda Oliveira), na qual diz que a batalha não começou em setembro de 1939 e na Europa, e sim um pouco antes, na Ásia, em decorrência de conflitos entre chineses e japoneses. O pesquisador inglês relata, como Andrew Roberts, no excepcional “A Tempestade da Guerra” (Record, 312 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brizida), que (além de Hitler não ser maluco) durante boa parte do conflito, pelo menos até certo período de 1943, os nazistas estavam derrotando seus poderosos adversários, a Inglaterra, a Rússia e os Estados Unidos. Ele também relata que os japoneses chegaram a canibalizar prisioneiros — vários deles americanos.

Agora, Antony Beevor lança “Ardenas 1944 — A Última Aposta de Hitler” (Crítica, 608 páginas, tradução de Joan Rabasseda e Teofilo de Lozoya), comentado, nesta edição, na coluna Contraponto, por Irapuan Costa Junior. Na terça-feira, 16, o jornal “ABC” entrevistou-o (“Antony Beevor: ‘O horror da guerra fascina, precisamos entender por quê”). Na apresentação, o jornalista Jaime García relata que o historiador chegou a Madri, para o lançamento de “Ardenas 1944”, com tendinite depois de autografar, nas últimas semanas, 20 mil exemplares — o que prova que livros sobre a guerra vendem muito bem.

Ao contrário de Hitler, os generais alemães, sublinha Antony Beevor, não acreditavam que o plano de lutar nas Ardenas funcionaria. “Ficaram aterrorizados quando” o ditador “anunciou o plano”. “O general Guderian, comandante do front oriental, sabia perfeitamente que, quando o solo congelasse e suportasse o peso dos tanques, Stálin lançaria sua grande ofensiva de inverno.” Na falta de outro caminho realista, “foi a última aposta” do líder nazista. “Se Hitler foi um jogador compulsivo, em seu inconsciente havia um desejo tão estranho de perder como de ganhar, ainda que isto seja uma elucubração psicológica, algo fora do trabalho do historiador.”

O repórter inquire: “Era um movimento desesperado. O que pensa sobre o livro de Bergström?” O “ABC” não menciona o livro nem o nome completo do historiador, mas trata-se de “The Ardennes, 1944-1945 — Hitler’s Winter Offensive” (Casemate Press, 508 páginas), de Christer Bergström. Antony Beevor diz que não leu a obra, mas a critica: “A tese de que a ofensiva poderia ter funcionado é ridícula. Todos os generais [alemães] se deram conta” disso. “Ocorre que, devido ao complô de julho de 1944 e ao atentado fracassado”, Hitler “tinha um poder absoluto sobre eles” e, por isso, “não se atreveram a contestá-lo”. Bergström diverge e indica que, graças à qualidade de suas tropas e à preparação de seus oficiais, Hitler poderia ter vencido.

Jaime García assinala que Antony Beevor critica, de maneira inapelável, alguns dos generais aliados. “Seu livro é especialmente duro com Montgomery (por não ter assegurado o porto de Amberes, o que retardou o avanço aliado e custou 15 mil vidas) e Bradlee (deixou as Ardenas mal defendidas).” O historiador frisa que, “sem dúvida, foi o pior período de Bradlee”. O general “odiava” Montgomery, o que pode ter reduzido sua percepção estratégica. Defendeu as Ardenas apenas com quatro divisões. “Considerando o fato de que essa havia sido a rota dos ataques alemães em 1870, 1914 e 1940, foi demasiado otimista e torpe deixar o lugar tão desguarnecido.” Para o pesquisador, a Inteligência militar errou.

livro_imprensaAntony Beevor afirma que, depois do excepcional “Stalingrado — O Cerco Fatal” (Record, 560 páginas, tradução de Alda Porto), planejou fazer “o equivalente no front ocidental”, daí “Ardenas 1944”. Frisa que seu livro foi possível, para além da pesquisa bibliográfica, devido à “extraordinária quantidade de materiais novos” divulgados “nos últimos 10 ou 15 anos”. Menciona “as gravações secretas de conversações dos generais alemães feitas nas prisões britânicas e transcritas por judeus alemães”. O “ABC” e Antony Beevor não citam, mas uma mostra extraordinária das conversas pode ser lida no livro “Soldados — Sobre Lutar, Matar e Morrer” (Companhia das Letras, 496 páginas, tradução de Frederico Figueiredo), de Sönke Neitzel e Harald Welzeres. Comentário de Ian Kershaw sobre a obra: “A gravação dessas conversas extraordinárias revela, com brutal lucidez e franqueza, a dura realidade da Segunda Guerra Mundial vista pelos olhos dos soldados alemães”.

As gravações merecem um livro à parte, aposta Antony Beevor. O autor diz que, com a morte de veteranos de guerra, seus diários estão vindo a público, o que permite ter uma visão mais próxima do que era a guerra no front, sobretudo como os militares pensavam e agiam. Um trecho da fala do historiador merecia discussão mais ampla, mas o repórter não o questiona.

Ele anota que “os arquivos americanos” contêm “muito material”, mas os historiadores dos Estados Unidos “nunca os examinaram” e divulgaram “porque não é favorável à reputação norte-americana”.

Sobre os historiadores alemães, Antony Beevor diz que “estão mais interessados nos crimes nazistas no front oriental” — acrescentando que “a bibliografia dedicada ao front ocidental foi sempre bastante escassa”.


Erro aliado

“Qual foi o maior erro aliado?” (em 1944, acredito; o “ABC” não esclarece), pergunta o repórter. Os Aliados “viviam um momento de euforia e triunfalismo. Pensavam que a guerra havia terminado — o erro fatal de acreditar que a história se repete. Pensavam que era como agosto de 1918, com o exército alemão desintegrando-se”, replica Antony Beevor.

Ardenas, sugere o repórter, foi “uma das batalhas mais brutais da história. Hitler programou uma onda de terror, matando prisioneiros americanos em Malmédy, atacou civis. E prisioneiros alemães foram assassinados”. O jornalista pergunta: “São examinados do mesmo modo os crimes nazistas e aliados?” Antony Beevor diz que se trata de “uma boa pergunta” e a responde: “É demasiado fácil generalizar e condenar todos. A matança de prisioneiros ocorre em todas as guerras. Na Segunda Guerra Mundial, é por conveniência, pois não há tropas para custodiar prisioneiros na retaguarda. Frequentemente, era mais fácil matá-los. E se matava muitos inimigos feridos porque os hospitais estavam cheios e eram” escassos ou de difícil acesso. “Quem vai levá-los [prisioneiros] de volta? Mas não era universal. Sobreviver à guerra é uma roleta. A matança em Malmédy foi parte da ordem de Hitler de criar uma onda de terror.

Os americanos também foram responsáveis por represálias, amiúde para vingar a morte de algum amigo. Depois de Malmédy, tropas que não eram de primeira linha começaram a matar prisioneiros alemães. Como conta William Wharton, se viam como patriotas vingadores”. Trata-se de referência, possivelmente, ao romance “A Midnight Clear” (Newmarket Press, 256 páginas), do escritor William Wharton.

Se os alemães apostavam na política de terra arrasada, não se importando com as pessoas, militares e civis, os Aliados agiam de modo diferente? Antony Beevor revela “que os britânicos e americanos mataram mais franceses do que a Luftwaffe. A pressão dos generais aliados para reduzir perdas se traduziu na utilização de mais artilharia e bombas que mataram mais civis — o que é um paradoxo terrível”. Vale ler dois livros que mostram a Alemanha sob violento e, às vezes, bárbaro ataque dos Aliados: “Alemanha, 1945” (Companhia das Letras, 488 páginas, tradução de Berilo Vargas), de Richard Bessel, e “Berlim 1945: A Queda” (Record, 602 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina), de Antony Beevor.

Guerra e escritores

Escritores às vezes captam a “atmosfera” — registrando a vida, a emoção (Max Hastings é um historiador que escreve como escritor) — da guerra com mais precisão do que historiadores profissionais. Jaime García quer saber se contribuem para o entendimento histórico e, de quebra, nota que Antony Beevor busca, como Max Hastings, as histórias anônimas indicando que contribuem para a compreensão do quadro geral. O repórter cita Hemingway, J. D. Salinger e Kurt Vonnegut.

Os livros de escritores, admite Antony Beevor, contêm “visões muito úteis”. “Em Hemingway a guerra sempre é um tema interessante. Estou especialmente intrigado por suas reflexões, em ‘O Bosque de Hürtgen’, sobre os limites da valentia. É muito importante assinalar que hoje não podemos julgar moralmente aquela situação [soldados sob intensa pressão] nem muito menos os colapsos psicológicos que sofrerem os soldados” em condições adversas. “Não podemos imaginar aquele recrutamento massivo que levava ao front homens que não eram física e psiquicamente aptos para a luta. Eram forçados a colocar um uniforme e a fazer coisas terríveis. O sistema de recrutamento era terrível em sua falta de imaginação”.

Por que livros sobre a carnificina da Segunda Guerra Mundial vendem tanto e os filmes a respeito são tão vistos pelo público? “Os horrores da guerra nos fascinam. Precisamos entender por quê. A fascinação central pela Segunda Guerra Mundial estriba no fato de que nunca em toda a história foram envolvidas questões morais tão amplas, e esse é o coração do drama humano que nos fascina”, diz Antony Beevor. “Há muito mais horror do que momentos de generosidade.” Seu livro registra momentos de generosidade, sobretudo por parte da população civil, que alimentou e hospedou refugiados e soldados. l

Livros sobre a Segunda Guerra Mundial, quando escritos numa linguagem acessível, às vezes se tornam best sellers. Mas nem sempre é assim. “Em 1995, quando investigava [para escrever] ‘Stalingrado’ em Moscou, saíram um montão de livros devido aos 50 anos da guerra e todos fracassaram. Pensei que era o final. Mas mudou a expectativa” do leitor, que está mais interessado no “destino do indivíduo” do “que na história coletiva. Todos nos perguntamos como teria sido nossa resistência”.

Se o leitor quiser um livro que discute a bibliografia histórica, examina obras ficcionais e indica os melhores e piores filmes a respeito da Segunda Guerra Mundial vale consultar “Europa na Guerra — 1939 e 1945” (Re­cord, 599 pá­gi­nas, tra­du­ção de Vic­tor Pao­loz­zi), de Norman Davies.

Uma resposta para “Antony Beevor diz que leitor tem fascínio pelos horrores da Segunda Guerra Mundial”

  1. Avatar Carlos Spindula disse:

    Interessantíssima reportagem sobre um livro que retrata bem todo o desespero alemão no final da II Guerra na Europa !

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